Brasil à beira da recessão

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O ex-ministro Delfim Netto, um dos conselheiros econômicos de Lula, costuma dizer que, se o Governo comprar um circo, o anão vai crescer. O economista Milton Friedman tem frase semelhante: se o Governo administrar o Deserto do Saara, em poucos anos vai faltar areia.  Ora, pois, o Brasil parece confirmar as duas assertivas neste desastroso governo de Dilma Rousseff. E é nesse quadro que teremos as eleições deste ano, com grande possibilidade de vê-la contaminada pelo péssimo desempenho econômico do país. Este é o pesadelo do PT de Dilma Rousseff e de Lula.

Luiz Gonzaga Belluzzo. Foto: Divulgação

Luiz Gonzaga Belluzzo. Foto: Divulgação

Pois, pois, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff na área econômica, afirma que a economia brasileira está no caminho de uma recessão. “Será muito difícil impedir pelo menos um trimestre de recessão. A economia está realmente resvalando para uma recessão ou para um crescimento extremamente baixo.” Para Belluzzo, os próximos dois anos serão terríveis.

“A gente não pode se enganar.” O próximo governo, disse ele, terá que resolver duas “encrencas”, que são reajustar o preço da gasolina e deixar o dólar subir. O problema é que esses dois movimentos têm impacto relevante na inflação que já está elevada e perto do limite fixado pelo governo para o fim do ano, que é 6,5%. Segundo ele, a solução apregoada no mercado financeiro pressupõe o aumento do desemprego. Isso teria impacto sobre a população que teve ganhos econômicos recentes, a chamada nova classe média.

“A gente tem que olhar com cuidado essa discussão do que será feito a respeito da inflação. Porque você criou um grupo de pessoas e se você desmonta essa ascensão, vai ser complicado suportar as consequências sociais disso”, disse. O próximo presidente vai ter que conviver com essa questão. Como consequência dessa limitação social, Belluzzo prevê que o novo presidente terá que conviver com uma inflação ainda distante da meta, que é 4,5% no ano.

“A ideia de que vai colocar a inflação a todo o custo na meta, a custa do desemprego, não vai encontrar acolhida, sobretudo entre aqueles que ascenderam na escala social nos últimos anos.” O economista afirmou que tanto o reajuste da gasolina quanto a alta do dólar são necessários para resolver problemas econômicos “sérios”.

 

Erros da política econômica

A administração Dilma acumulou uma série de erros na condução da política econômica e não esclareceu o que pretende fazer num segundo mandato para corrigir os desequilíbrios. Dilma repete frases de efeito, faz afirmações que os fatos não confirmam, sustenta números discutíveis.

O episódio da demissão de uma analista do Santander é patético. Primeiro porque ela fez uma análise binária. De fato a Bolsa tem oscilado na razão inversa da intenção de voto da presidente. Segundo, porque o governo tratou o fato de forma histriônica, como se fosse uma “inadmissível” interferência estrangeira. Terceiro, porque o banco se curvou, pediu desculpas, demitiu a analista.

É assim, de forma subserviente, que se comportam os chamados agentes econômicos. A presença do governo sempre foi grande na economia e isso aumentou no atual mandato. Os bancos ganham muito dinheiro, o setor elétrico está sendo socorrido, as indústrias têm redução de imposto e empréstimo subsidiado. Todos temem o governo porque dele dependem. Na preparação de mais uma rodada do empréstimo ao setor elétrico, alguns bancos disseram que não iriam participar. O governo os enquadrou e eles ficaram. Foi apenas atendido o pedido de jogar a maior parte do peso sobre os bancos públicos.

Esse empréstimo é uma insanidade que seria reprovada por qualquer modelo independente de risco bancário. O tomador não tem ativos, é uma câmara de empresários. Já recebeu a exorbitância de R$ 11,2 bilhões em créditos. O dinheiro foi todo entregue às distribuidoras. A garantia bancária é apenas um documento do órgão regulador autorizando a cobrança do empréstimo e juros na conta a ser enviada ao consumidor a partir do ano que vem. O dinheiro não foi suficiente e o governo pediu mais R$ 6,5 bilhões.

A ação da Petrobras sobe e desce conforme os ventos eleitorais. Isso acontece por que no mercado há mentes malévolas conspirando contra a empresa ou por que a atual administração impôs uma política de preços que dá prejuízo à estatal?

Na avaliação de Belluzzo, o setor do etanol foi objeto de um “erro de política econômica”. Com a contenção do preço da gasolina, para controlar a inflação, o combustível derivado da cana ficou menos vantajoso para o consumidor. Isso provocou uma crise no setor, com o fechamento de usinas que processam o etanol. Por isso, ele disse esperar que o próximo governo corrija o preço da gasolina, o que também ajudaria a destravar os investimentos da Petrobras.

Já a alta do dólar atenderia ao setor industrial, cuja crise a seu ver deriva da valorização excessiva do real frente ao dólar, o que afetou a capacidade de competir das fábricas brasileiras tanto no país quanto no exterior. Sem indústria, afirma ele, a economia perde a capacidade de restabelecer o crescimento.

 

Os velhos temores
Lula. Foto: José Cruz - A Br

Lula. Foto: José Cruz – A Br

O certo é que o Brasil vive nesta eleição o que tínhamos superado em 2002: temores do mercado diante das pesquisas eleitorais. Em 2006 e 2010, as simpatias pelos candidatos se distribuíram de maneira natural, porque o primeiro governo Lula havia mitigado o temor de que a vitória de uma corrente política significasse risco econômico.

O velho clima voltou. Em 2002, o eleitorado queria mudança. Desde que isso não significasse a perda de conquistas, como a estabilização da moeda. O primeiro programa do então candidato Lula veio com as velhas e amalucadas ideias de auditoria na dívida interna e externa, revogação de privatização, centralização cambial. O PT pagava, na época, o preço de suas próprias atitudes ao ficar contra o Plano Real e todos os seus avanços, como a Lei de Responsabilidade Fiscal. Quanto mais Lula subia nas pesquisas, mais o dólar disparava.

A Carta aos Brasileiros, a atuação do ministro Palocci, o trabalho cooperativo na transição e a escolha dos nomes da primeira equipe econômica permitiram ao país dar um passo importante no seu amadurecimento institucional. Ficou claro que o mercado financeiro poderia gostar de qualquer um dos candidatos, mas a vitória do outro não representaria risco de adoção de uma política econômica que levasse à instabilidade.

A lista é extensa, mas a matriz é a mesma e tem produzido efeitos negativos: o país não está crescendo, a inflação é alta, há preços represados, piora dos números fiscais, queda da corrente de comércio externo e uma confusão no setor elétrico. O ano de 2015 será de ajuste. A ansiedade maior recai sobre o que fará a presidente Dilma para corrigir o que foi feito em sua administração. Ela ainda não disse. Pelo contrário, tem defendido as escolhas que fez.

 

Na beira do abismo da recessão

O que é claro é que existe boa chance de o Brasil entrar em recessão em 2014. O fenômeno acontece quando o país passa por dois períodos seguidos sem crescimento na sua economia.  Os relatórios de bancos e agências de avaliação já antecipam esta possibilidade. A Moody’s acredita que há 50% de chance de o país estar em recessão. O Credit Suisse prevê que a falta de confiança para o segundo semestre puxou o país para um encolhimento na sua economia nos primeiros seis meses do ano.

No primeiro trimestre, o Brasil apresentou um crescimento modesto, de 0,2%. Este desempenho, aliado a índices preocupantes, como a queda de 0,8% da indústria, retração do consumo das famílias de 0,1% e um volume 2,1% menor no ritmo dos investimentos, deve fazer com que o segundo trimestre feche em queda, com possibilidade de revisão do resultado anterior.

Segundo o economista Paulo Gala, da Fator Corretora, não é pessimismo imaginar que este cenário se confirme. “Está bem claro que o PIB no segundo trimestre será negativo, o que pode causar uma reavaliação do resultado do primeiro trimestre. Os indicadores apontam para isso”, afirma o estrategista da corretora.

O Brasil, que no ano passado cresceu 2,5%, deveria crescer 2,6% em 2014, mas a agência agora prevê 1,4%, abaixo do 1,8% calculado pelo Governo de Dilma Rousseff

O Sicredi também divulgou um relatório que alerta para este risco. Segundo o documento, o Brasil tem 90% de chance de entrar em recessão no segundo semestre. “O PIB é um indicador global, mas o cenário de recessão vai além disso. Indústria em crise, renda em queda, consumo parado. Estes sinais são suficientes para dizer que, sim, estamos em recessão”, afirma o economista do Sicredi Pedro Ramos.

Para chegar a esta conclusão, o economista usa indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). O mais impactante deles é o Índice de Confiança da Indústria (ICI), que recuou 3,2% entre junho e julho e chegou ao nível das últimas três recessões brasileiras.

Mesmo assim, não existe um consenso. O superintendente adjunto de ciclos econômicos da FGV, que elabora o índice de confiança, Aloísio Campelo, não está convicto sobre a retração da economia brasileira no ano. “Não estamos em recessão. Não acredito que o resultado do segundo trimestre será suficientemente ruim para que o Brasil entre neste cenário”, afirma o economista. Segundo ele, apesar de uma série de indicadores negativos, a resistência da taxa de desemprego e do nível de renda segurou a economia brasileira no período.
Ainda que os índices de confiança apontem para um futuro problemático, a sensação de economistas é de que os meses de junho e julho foram os piores para o país e que o segundo semestre, mesmo que não registre uma forte retomada, deve apresentar resultados mais positivos para o setor produtivo do país.

Para o professor de macroeconomia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Sérgio Antunes Valle, a atividade industrial deve ter uma leve recuperação nos próximos meses. “A falta de confiança do empresário da indústria e os péssimos resultados deste setor funcionam como uma âncora para o restante da economia. Com uma indústria menos pressionada, o desempenho econômico do país tende a melhorar”, afirma.

 

No continente, baixo desempenho

Com o passar dos meses, as previsões sobre o desempenho econômico da América Latina vão sendo rebaixadas. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas que historicamente tem se caracterizado por seu pensamento heterodoxo, fechou 2013 com uma perspectiva de 4,5% de crescimento para a região em 2014, com o que reverteria a desaceleração dos últimos anos. Economistas privados também previam uma melhora. Porém, a Cepal rebaixou suas previsões, pela segunda vez neste ano, para 2,2%.

Durante uma entrevista coletiva em Santiago do Chile, sede da Cepal, a secretária-geral Alicia Bárcena, do México, atribuiu a redução a três fatores: um ambiente global menos favorável com a queda dos preços das matérias-primas e, apesar da recuperação dos EUA e da persistente liquidez global, uma desaceleração do consumo privado e uma queda do investimento. Ela também alertou, em particular, para a situação da Argentina, que não conseguiu pagar uma dívida na data de vencimento por causa do bloqueio de um tribunal dos EUA. Embora o relatório divulgado preveja que o país cresça 0,2% em 2014, Bárcena esclareceu que “a cifra é otimista demais, a situação mudou” desde que a previsão foi feita e, por isso, o órgão deixou esse número “em suspenso”.

O Brasil, que no ano passado cresceu 2,5%, deveria crescer 2,6% em 2014, segundo a previsão da Cepal no final de 2013, mas a agência agora prevê 1,4%, abaixo do 1,8% calculado pelo Governo de Dilma Rousseff. Uma pesquisa da consultoria FocusEconomics com bancos e consultorias em julho passado observa que o Brasil deve crescer 1,2%. O economista da Cepal Jürgen Weller disse que o desafio da economia brasileira consiste em aumentar a produtividade para aproveitar melhor seu mercado interno, regional e global.

O México, que em 2013 foi o país com o menor crescimento na América Latina (1,1%), iria acelerar este ano para 2,5%, segundo a Cepal. Evidentemente, o organismo já não espera 3,5%, como em dezembro passado. Bárcena negou que a reforma tributária do Governo Enrique Peña Nieto, com seus aumentos de impostos, tenha desencorajado o crescimento, destacou a maior carga tributária sobre os que têm mais e previu um aumento do investimento. A FocusEconomics prevê um crescimento de 2,7% no PIB mexicano, apesar de previsões como a do grupo financeiro Monex falarem em 1,9%.

 

Os maus exemplos

A Argentina, que no ano passado cresceu 3%, cresceria 2,6% em 2014, segundo previa a Cepal em dezembro. Mas no mês seguinte veio a desvalorização do peso e agora eclodiu a crise da dívida, que pode limitar-se apenas a determinados títulos públicos, como até agora, ou pode resultar em uma suspensão de pagamentos de todos os bônus. Ela pode ser resolvida rapidamente se os bancos internacionais acabarem comprando dos fundos abutre o passivo em litígio nos EUA. “A Argentina vive uma situação bastante inédita, na qual um juiz de Nova York determina a questão dos pagamentos. A Argentina tinha negociado 92% da dívida, só faltavam 8% (para negociar). É uma situação de grande repercussão na estrutura financeira global: pode desestimular as renegociações de dívida soberana.

Foto: Presidência da Argentina

Foto: Presidência da Argentina

 

A Colômbia seria um dos poucos países a acelerar em 2014, até mais do que o México: 5%, depois dos 4,7% de 2013, e só ficaria atrás do Panamá (6,7%) e da Bolívia (5,5%), segundo a Cepal. A economia colombiana melhora com as exportações de petróleo e carvão, cujos preços não caíram como os de outras matérias-primas, e com o “esforço no investimento”, tanto público como privado, de acordo com Bárcena. Em dezembro, a previsão de crescimento para a Colômbia era de 4,5%.

 

A Venezuela, por outro lado, teve o pior desempenho, junto à Argentina. Depois de crescer 1,3% em 2013, a Cepal rebaixou sua previsão de crescimento de 1% para uma retração de 0,5% no PIB. A FocusEconomics antecipa uma queda de 1,8% e uma inflação de 63,9%, acima da previsão de 29,4% para a Argentina antes da crise da dívida.

 

Chile e Peru desaceleram por causa da queda no preço dos minérios. O Chile, que tinha crescido 4,1% em 2013, sofreu uma queda de 4% para 3%, nas expectativas para 2014, segundo a Cepal. No entanto, Bárcena confia nas reformas governamentais de Michelle Bachelet, incluindo a injeção de capital na mineradora estatal Codelco. O Peru, que acaba de crescer 5,8% no ano passado, teve sua previsão de crescimento rebaixada de 5,5% para 4,8%, segundo a Cepal. A FocusEconomics também prevê 4,8%, apesar de alguns bancos como o JP Morgan preverem 4,2%.

 

A diretora da Cepal recomendou à região investir mais e melhorar a produtividade, não através do “sacrifício dos trabalhadores”, isto é, da desvalorização salarial, mas através da construção de infraestrutura, do compromisso com a tecnologia e da qualificação de mão de obra, do desenvolvimento das PMEs e da integração em cadeias produtivas para a “industrialização intrarregional”.

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