Dormia a pátria mãe tão distraída

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Paulo Roberto Costa (encapuzado), ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, é levado por agentes da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

Se alguém ainda duvidava que esta campanha eleitoral seguiria morna, por assim dizer, no período pós-Copa, é hora de rever os conceitos. Os nomes de políticos revelados num acordo de delação premiada pelo ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, que está preso em Curitiba, definitivamente jogou gasolina na fogueira. A partir de agora, será um salve-se quem puder, mas com resultados totalmente imprevisíveis.

De uma sabugada só, PRC tirou da penumbra nomes importantes do cenário político nacional e muito próximos ao governo e a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT. A lista inclui políticos influentes, quase imortais, ministros e ex-ministros e dirigentes petistas de primeira grandeza, deputados, senadores e governadores.

Como diz trecho da música Vai Passar, de Chico Buarque, que dá título a este artigo, “Dormia / A nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações”. A pátria nossa acordou com esta mesma sensação, de que a subtração ocorria enquanto todos dormiam.

PRC foi preso em março deste ano, como desdobramento da Operação Lava-Jato, por manter negócios escusos e participar de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, operado pelo doleiro Alberto Yousseff, que também está preso em Curitiba. Com medo de uma condenação, que pode superar os 30 anos de reclusão, o ex-diretor da Petrobras aceitou fazer o acordo com a Polícia Federal.

A lista informada à PF pelo ex-diretor já provocou e ainda vai provocar mudanças profundas no direcionamento das campanhas, faltando menos de um mês para o dia da eleição. São aproximadamente 50 políticos envolvidos com esquema de corrupção na Petrobras, segundo informação veiculada pela revista Veja, em sua edição semanal que chegou às bancas na edição de 6 de setembro.

Em seu depoimento, PRC cita pelo menos 25 deputados federais, seis senadores, três governadores, um ministro de Estado e pelo menos três partidos políticos PT, PMDB e PP, que teriam tirado proveito de parte do dinheiro roubado dos cofres da Petrobras.

Entre os envolvidos estão o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, os presidentes da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Romero Jucá (PMDB-RR) e os deputados Cândido Vaccarezza (SP), João Pizzolatti (PP-SC) e Mário Negromonte (PP).

Entre os governadores, Paulo Roberto Costa cita o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), Roseana Sarney (PMDB), atual governadora do Maranhão, e Eduardo Campos (PSB), ex-governador de Pernambuco, morto no dia 13 de agosto em um acidente aéreo em Santos (SP).

PRC ocupou a diretoria da Petrobras entre 2004 e 2012, isto é, participou dos dois governos Lula e dos dois primeiros anos do governo Dilma Rousseff. De acordo com as informações reveladas por ele à PF, a distribuição do dinheiro servia para garantir que os partidos aliados continuassem a apoiar o Palácio do Planalto no Congresso Nacional.

As investigações da PF já haviam revelado a existência de uma ampla rede de corrupção na Petrobras envolvendo funcionários da empresa, grandes empreiteiras, doleiros e políticos importantes. Os depoimentos do ex-diretor estão sendo colhidos desde o dia 29 de agosto. Ao todo, já são mais de 40 horas de conversas gravadas, revela a revista.
Por envolver políticos, que têm direito a foro privilegiado, o caso está sendo acompanhado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

Ligações perigosas

As revelações de PRC abrem agora novos flancos de indagações que poderão levar luz aos becos escuros frequentados por parte considerável dos nossos políticos. Nesta primeira etapa de dúvidas surgem as ligações com as empreiteiras, tão interessadas e tão favorecidas em negócios com os governos, como mostram relatórios de evolução patrimonial.

Mas, afinal como e de que forma se estabelecem as relações dessas empreiteiras com os políticos listados pelo ex-diretor da Petrobras? Talvez um princípio de resposta venha a partir de outra pergunta, como estas empresas favoreciam, ou favorecem, os políticos sem chamar atenção das autoridades competentes?

No início de agosto a ex-contadora de Alberto Yousseff, Meire Bonfim Poza, mostrou aquilo que pode ser a ponta do iceberg para clarear estes questionamentos. Meire denunciou pelo menos seis empreiteiras de manter negócios escusos com o doleiro. Estariam no esquema OAS, Sanko Sider, Galvão Engenharia, Unipar, Mendes Júnior e Camargo Corrêa.

Mas o que chama a atenção na lista da ex-contadora de Yousseff é que todas as empreiteiras são notórias doadoras de campanhas políticas. Das seis, pelo menos duas se destacam pelas bondades praticadas em 2010, na campanha ao Senado de Gleisi Hoffmann, que este ano tenta chegar ao Palácio Iguaçu, na cadeira ocupada pelo tucano Beto Richa.

Gleisi, segundo dados da Justiça Eleitoral, recebeu R$ 1 milhão da Camargo Corrêa e outros R$ 780 mil da OAS naquele ano. Em abril deste ano, o jornal O Globo revelou que a UTC/Constran, outra empresa listada na caderneta de PRC, doou R$ 250 mil para Gleisi.

A partir da denominação de outros políticos, agentes da PF poderão se debruçar na investigação da ligação dos mesmos com estas e outras empreiteiras. À revista Veja, o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), citado por PRC, disse que sua relação com o ex-diretor sempre foi institucional e nega ter recebido dinheiro. O petista João Vaccari Neto diz que nunca se encontrou com Costa para tratar de doação financeira.

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