O prazer de Lola

LOLA_BENVENUTTI_facebook_1

Deve estar chegando às livrarias de Curitiba um livro lançado na primeira quinzena de agosto em São Paulo, que deve fazer muito sucesso de vendas e até virar filme e peça de teatro, segundo informa o site G1, de O Globo, TV-Globo e veículos associados. Chama-se O prazer é todo nosso, título suficientemente ambíguo para não revelar a extensão de seu conteúdo, e sua autora é identificada como Lola Benvenutti, pseudônimo em homenagem à Lolita, do americano Vladimir Nabokov, de Gabriela Natália da Silva, 22 anos, de Pirassununga, São Paulo, recém-formada em Letras pela Universidade de São Carlos e já com mestrado programado na respeitadíssima Universidade de São Paulo, a USP.

Lola, informa o G1, é profissional do sexo, garota de programa, profissão na qual, apesar da idade, já tem anos de experiência, e na entrevista refere-se a si mesma, várias vezes, pelas expressões tão antipáticas de prostituta e mesmo puta, palavra que ainda não se deve pronunciar em reuniões de família, mas que a imprensa já perfilhou sem qualquer cerimônia.

No livro, Lola apresenta a narrativa de muitas de suas experiências de profissional do sexo, mas estabelece de saída uma diferença radical entre seu caso e os que a precederam, como o de Bruna Surfistinha, também profissional do sexo e autora de um best seller que virou filme de sucesso, com a beleza irresistível de Débora Secco. Bruna e outras milhares de jovens tornaram-se profissionais do sexo por necessidade econômica, para pagar os estudos em alguma faculdade. Outras o fizeram e fazem para sustentar filhos cujos pais sumiram na vida. Lola, como diz, não se tornou garota de programa por necessidade. Tinha recursos para pagar a faculdade e sustentar-se fora da casa de sua família, mudando-se para São Carlos.

Lola fez-se garota de programa e pretende continuar garota de programa porque gosta de sexo e tinha e tem desejo de viver essa experiência.
“Tem uma categoria nos sites de acompanhantes que são de universitárias e fazem faculdade particular e precisam pagar”, diz ela, mas eu nunca precisei disso: sou inteligente, fiz faculdade, optei por isso.
E pergunta, antecipando-se às críticas e condenações:
– Qual o problema?

Em nenhum momento da entrevista Lola passa a impressão de que, como garota de programa, vende seu corpo, sua beleza, sua juventude, sua sedução ou os aluga por algumas horas a cada encontro. Ela passa, sim, talvez com ingenuidade, a sensação de que presta um serviço, nada servil, nada censurável, ao parceiro do momento e até a outras pessoas, como um profissional liberal da melhor reputação.

capa_livroA reportagem transcreve parcialmente, a propósito, trechos do livro, muito bem escrito (ou Lola tem outros talentos além dos profissionais ou contratou um ótimo ghost writer), e tomou o cuidado de interromper a transcrição antes de passagens mais picantes.
Numa dessas passagens ela conta da ajuda psicológica que procurou dar a um jovem cliente homossexual, que não se conformava com o próprio homossexualismo e queria tentar o sexo com mulheres, para ver se gostava e mudava de vida. Ela ficou com pena e marcou encontro num motel. E conta:

– Ele queria sair comigo para ver se gostava de mulheres, para tentar provar que era macho… Foi um dos atendimentos em que fiquei mais tensa, pois eu queria realmente ajudá-lo, mas não acredito que se possa exorcizar o lado gay de uma pessoa, justamente porque esse lado não é uma doença, embora “psicólogos” sem ética vendam “curas” por aí.

Talvez a linguagem de Lola não seja a mais correta, politicamente, mas revela essa coisa tão fora de moda que são os bons sentimentos, além de uma percepção muito lúcida do sofrimento do rapaz.

– Juno vinha de uma família ultraconservadora: o pai era um médico tradicional e a mãe uma dona de casa voltada exclusivamente às vontades do marido. O pai … determinou que o criariam para que fosse um macho capaz de “comer” uma menina por dia… levava[-o] a puteiros constantemente, e quando Juno finalmente ia para o quarto com uma garota, ficava tão inquieto e sem jeito que as garotas, entendendo sua situação, se deixavam ficar no quarto, apenas esperando a hora combinada terminar. O jeito como ele falava evidenciava certa aversão em relação ao ambiente e ao próprio corpo feminino. Era um bloqueio e eu percebi isso quando tentei me insinuar algumas vezes. Juno fingia não me ver diante dele… Cada vez que ele se dava conta de estar fugindo de mim, seus olhos começavam a lacrimejar…

Nesse ponto, Lola diz que bolou uma estratégia, mas a transcrição termina aí, talvez para não ofender os pudores do leitor, talvez para a interrupção constituir o recurso publicitário do teaser, da provocação, e quem estiver interessado na história de Juno deve ir diretamente ao livro.

Outro episódio parcialmente transcrito na entrevista é o de Lúcia, mulher casada, que telefonou para Lola. O marido não a procurava mais.
– Acho que meu marido não sente mais tesão por mim. E eu até entendo, porque já não tenho mais 20 anos, não tenho mais um corpo lindo e jovem como o seu… Mas estamos casados há um bom tempo e… Desculpa por te falar essas coisas! Eu já tentei de tudo, Lola.

Até o que eu não gosto, que é aquilo por trás, já deixei meu marido fazer, mas acho que ele quer se separar porque não tem mais desejo por mim. Mas a gente se ama, sabe? Ou se acostumou a se amar assim.

Lúcia e Lola marcaram um encontro para almoçarem e conversar. No início, Lúcia propunha dar um presente ao marido: e o presente seria Lola. Lola discutiu essa hipótese, que no fundo seria natural em seu trabalho, e afinal convenceu Lúcia de que o melhor seria ela, Lola, “presentear” os dois, o casal, com uma noite “inesquecível e renovadora”. Cujas preliminares Lola descreve:
– Na noite esperada, o casal chegou ao quarto do motel. Ele mostrava-se sisudo e muito desconfiado de tudo e a Lúcia estava em nervos. Chamei-os para perto da cama, servi-lhes vinho, petisco com queijos e torradinhas temperadas, e me dediquei a conhecê-los melhor. Alguns casais que atendo são verdadeiramente safados, não há descrição melhor. Alguns acabam comigo em poucas horas e se divertem horrores, já outros ficam assim, tímidos, receosos com a forma como seu parceiro reagirá caso toque o meu corpo. Depois de algumas taças de vinho comecei a puxar assunto sobre sexo e aí a coisa foi ficando interessante…

De novo, por decoro ou provocação, a transcrição termina aí, mas o final – “a coisa foi ficando interessante” – insinua que o episódio foi bem-sucedido para Lúcia e o marido.
Pela entrevista e por esses dois trechos do livro, tive boa impressão da autora. Uma foto bem feita, nada sensual, mostra-a como uma jovem loira, de cabelos compridos, unhas vermelhas e os braços cheios de tatuagens até o pulso, tatuagens, inclusive, com frases de Guimarães Rosa. Tatuagens não estão em meu gosto, mas parecem inevitáveis na geração de Lola.

Pretendo ler o livro e estou na expectativa do debate que ele vai provocar e do filme que pode render. As censuras a Lola e ao livro serão inevitáveis, mas ele deixa no ar uma questão que nem sempre percebemos. Se Lola converte seu corpo em mercadoria, isso será mais condenável que a conversão de consciências e outros bens também em mercadoria? Ou nosso modelo econômico precisa separar o que pode ser mercadoria daquilo que não pode?

Leia mais

Deixe uma resposta