Prateleira. Ed. 155

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Modigliani – imagens de uma vida

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Grande figura nua deitada - Céline Howard

Quando uma exposição vira livro o risco é grande, instintivamente pensa-se numa tesoura e numas molduras e na parede da sala que precisa tirar aqueles quadros obsoletos. É preciso ter calma. Se o livro for Modigliani – imagens de uma vida, é preciso não ter tesouras, nem molduras, nem paredes por perto. O livro dá a chance para quem não foi ao MON ou ao MASP ou ao Museu Nacional de Belas Artes de ver de perto cada traço de Modigliani.

De família judaica, Amedeo Modigliani nasceu em 1884 em Livorno, na Itália. Durante a vida teve uma saúde debilitada, foi um “jovem de corpo fraco, mas com o espírito forte”. Em 1903, matricula-se no Instituto de Belas Artes de Veneza, dedica-se aos mestres antigos e após se insere no simbolismo. Depois da recusa, em 1909, da baronesa Marguerite de Hasse de Villers do seu quadro “A Amazona”, ele vai para a escultura. Toda a história de Amedeo pode ser vista no livro Modigliani – imagens de uma vida, através de fotografias, de cartas e das suas obras, mas lembre-se, afaste-se das tesouras e não tenha molduras.

A crítica de Eça em Os Maias

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Em 1888, Eça de Queiroz publicou um dos maiores clássicos da língua portuguesa – Os Maias. O livro conta a história de três gerações da família Maia. Afonso, o avô; Pedro, o filho; e Carlos, o neto. Com ênfase na história do neto, Eça trata de um amor incestuoso entre Carlos da Maia e Maria Eduarda.

Muito embora o romance entre ambos seja a trama principal, Eça de Queiroz não deixa de fazer críticas mordazes à sociedade portuguesa, cheia de tradições e pieguices. Ninguém se salva, dos boêmios aos políticos. Ele transmite um Portugal derrotado, entranhado nas coisas do passado e superado pelas “civilizações superiores”, leia-se Inglaterra e França, é percebido tudo isso nos detalhes, a exemplo do Ramalhete (uma quinta onde se passa boa parte do enredo), onde tem sua prosperidade após uma reforma inglesa ou o próprio protagonista, Carlos da Maia, faz o contraponto com seu pai, Pedro da Maia – o filho representa o sucesso com a sua educação inglesa; o pai, a derrota e o fracasso, pois foi educado como católico.
O romance é um disfarce para Eça extravasar tudo que acha daquele tempo, por isso que o livro é tão grande e cheio de detalhes, pois para cada personagem reserva-se uma crítica, não do personagem, mas o que ele representa na vida real.

Joseph Conrad e a tradução de The secret agent

Dico Kremer

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Tenho prazer em comentar e escrever sobre coisas boas, competentes, que fazem bem ao espírito. As coisas ruins, de mau gosto, pobres de espírito, desnecessárias, eu deixo em paz. Morrem por si sós. Mas, infelizmente, tenho que comentar o desserviço que a Editora Landmark cometeu contra os leitores. Um dos mais importantes escritores dos séculos 19 e 20, Joseph Conrad (1857-1924), nascido Jósef Teodor Konrad Korzeniowski, polonês que teve uma vida aventurosa e que escreveu em inglês, teve um de seus mais importantes livros traduzido mal e porcamente: The secret agent, de 1907. A edição de O agente secreto, ainda por cima, é bilingue. O tradutor, Sr. Eduardo Furtado, secundado pelo revisor de ortografia e da tradução, Sr. Rodrigo Fragelli, cometeram um assassinato literário. Não sabem nem inglês e muito menos o português. O livro é impossível de se ler no idioma pátrio. É de se chorar e rir ao mesmo tempo. Nunca em toda a minha vida vi uma tradução tão ruim. É uma não-tradução. Uma piada de mau gosto. O livro de Conrad merece uma tradução impecável. Os originais em inglês são de domínio público. Quem se habilita? 

Merleau-Ponty também é arte

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Conhecido pela sua fenomenologia e por ser amigo de Sartre, Maurice Merleau-Ponty usou a sua teoria filosófica para conhecer e explicar coisas que vão além das ambições da filosofia como ciência. Em seu livro O Olho e o Espírito, editado pela Cosac Naify, o francês busca entender a coisa em si filosófica nas pinturas de Paul Cézanne. (Paul Cézanne ganhou espaço no universo artístico por abandonar o desenho, vindo de um tempo pós-impressionista, absorveu o que Monet e companhia sugeriram e aperfeiçoou. Quase arrisco a dizer que Paul Cézanne está para as artes modernas assim como Immanuel Kant está para o pensamento iluminista.)

Para quem está imaginando encontrar uma leitura densa e complexa, anime-se, Merleau-Ponty tem texto leve, neste livro o autor liberta seu ar poético para explicar seu pensamento filosófico através da arte. Foi a última obra que o autor concluiu em vida, portanto descarregou nela toda a sua bagagem.
São duas cabeças brilhantes juntas, a arte e a filosofia, o sentir e o pensar, o expressar e o explicar. Mas não leia-o na praia, apague as luzes da sala, acenda o abajur, abra o vinho indicado pelo Zanoni e delicie-se com a arte de Merleau-Ponty e Paul Cézanne.

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