Tu és Pedro…

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Dom Pedro Fedalto. Foto: Felipe Rosa

Pedro pega o microfone, ajeita o pedestal. Mostra familiaridade com o instrumento, com o qual fez da pregação sua grande expressão vocacional.
A fala de Pedro, por anos, foi, para ouvidos curitibanos atentos, marcada pela linguagem ítalo-eclesiástica. É resultado da forte presença da Igreja e seus padres formados por italianos, em todo o Brasil. E pela grande maioria de oriundi no clero de outros tempos. No Sul especialmente. Daí o sotaque e a entonação marcantes do linguajar ítalo-eclesiástico.
Pedro está acostumado a enfrentar plateias de todos os naipes. Aquela da noite de 2 de agosto de 2014, num salão de festas de Curitiba,  não seria muito diferente de milhares de outras com as quais foi estabelecendo diálogos, ao longo de dezenas de anos (desde 1953), para as quais pregou o Evangelho, ensinou ou simplesmente transmitiu mensagens alegres – em festas – ou de condolências.

No entanto, naquela noite, ao ser convocado para dar bênção ao aniversariante e a seus amigos, fez um rápido mergulho em seus dias de estudante no antigo seminário São José, de Curitiba (para os menores); e no muito tradicional Seminário do Ipiranga, onde estudavam nossos seminaristas do Paraná no chamado Seminário Maior, anos 1940/50.

 

No Ipiranga

Para lá iam os que cursariam Filosofia e Teologia, como ele: os depois bispos dom Albano Cavallin, dom Agostinho Marochi, padre João Augusto Sobrinho (por anos pároco da Igreja dos Passarinhos)… Faziam parte da turma de teólogos de 1950/53. Alguns outros iriam para São Leopoldo, Rio Grande do Sul, estudar com os jesuítas.

Antes da bênção daquela noite de agosto, Pedro reage a uma provocação do anfitrião: “Dar a bênção em latim? Não. Só se o aniversariante responder em latim…” O aniversariante aceitou a provocação, depois de ouvir um breve “Adiutorium nostrum in nomine Domini”, respondeu: “Qui fecit caelum et terram…”

A pronta resposta não foi isca suficiente para o arcebispo emérito de Curitiba satisfazer uma certa “saudade” que boa parte do grupo ao derredor – senhores e senhoras majoritariamente maiores de 50 anos –, demonstrava ter das celebrações e rituais tridentinos.

Os rituais tridentinos são aqueles gerados no pontificado do Papa Pio V; que, em 1963, João XXIII iria revogar; e seriam depois ‘sepultados’ pelo Concílio Vaticano II.
Não foi sepultamento definitivo: o que poucos sabem é que com Bento XVI a Igreja concedeu permissão (‘indulto’) para celebrações públicas da velha liturgia, assim como, nos anos 1980, com João Paulo II, fora aberto espaço – pequeno, é certo – para expressões litúrgicas tridentinas (com o documento Ecclesia Dei Aflicta).

 

Padre de outros tempos

Voltando a 2 de agosto: antes da prece e da bênção em bom português, dom Pedro Marchetti Fedalto, 88, arcebispo emérito de Curitiba, trajando ‘clergyman’ escuro, deu uma ideia de como eram formados os padres de seu tempo. Isso sem fazer críticas à formação dos sacerdotes de hoje, nem expressando saudosismos. Apenas explicou, a partir da provocação proposta, como ele e os jovens seminaristas do seu tempo trabalhavam a língua de Ovídio. Ou, melhor – diria eu –, como se preparavam não apenas para conhecer os clássicos latinos, mas especialmente para fazer a exegese da Vulgata, a Bíblia, que São Jerônimo traduzira do grego e hebraico para o latim. E tanto quanto a ter acesso à Vulgata, assim eles também se equipavam para entender os documentos oficiais da Igreja, então basicamente em latim.

As aulas recebidas por Pedro e seus colegas, na Filosofia, eram todas dadas em latim, assim como Teologia. Ah, isso sem contar que conhecer bom português, e saber trabalhá-lo, era essencial, assim como francês. Naqueles dias o inglês não era considerado importante, nem língua diplomática.

Na verdade, a língua de Molière o menino da pequena Colônia Rebouças, em Campo Largo – reduto italiano fundado pelos avós de Pedro a partir de 1875 –, aprendera no Seminário São José, de Curitiba. Lá foi, com Albano e Agostinho, dentre outros, aluno dos exigentes padres da Congregação da Missão franceses (chamados também de vicentinos ou lazaristas).

 

Um pouco de história

Essa congregação, a Vicentina, com seu braço francês, encarregara-se de formar o clero das dioceses em todo o Brasil. Os vicentinos, de origem polonesa, tiveram, ao mesmo tempo, grande expressão no Paraná, com outras obras, mais paroquiais.

Acho que a maior leva de vicentinos vindos para cá com esse propósito ocorre a partir dos 1840 (embora os primeiros deles, segundo me afiança dom Fedalto, tenham aportado no Brasil a partir de 1808, com a chegada de dom João VI).

Os anos de 40 do século 19 foram um marcador, com reflexos, mais adiante, no século 20, na vida de gente como Pedro Fedalto. Tudo porque no século 19 a Igreja foi levada a um processo de ‘romanização’ no Brasil. Romanização seria a resposta da Santa Sé, para evitar um “perigo” então à vista: a possibilidade de implantação de uma igreja nacional.

Empurrando para essa possibilidade de cisma,  havia uma onda de fatos favoráveis, como o distanciamento do Vaticano em relação à Igreja no Brasil, a forte marca do padroado (o clero estipendiado pelo Governo), a autonomia muito grande das festas e celebrações religiosas católicas dispensando a intermediação eclesiástica, uma histórica  lassidão do clero local, boa parte dele com precária formação teológica e humanística. Enfim, o chamado Galicanismo Religioso estava a caminho.

Foi para aprofundar os laços com Roma – e abortar o iminente Galicanismo – que os vicentinos chegaram, trouxeram novas devoções e passaram a educar os formadores (clero). Afinal, era preciso deixar claro que a última palavra seria sempre de Roma: “Roma locuta, causa finita”.

 

Mente arejada

Cassiana Lacerda, a enorme personalidade da vida cultural do Paraná – “a qual os governos não convocam, porque ela sabe demais e é dona de um amplo espírito crítico”, como a define Fábio Campana, não se conteve, depois da fala de dom Pedro:
“Ele está vendo além de seu tempo, sem dogmatismos. Incrível sabedoria”. Com a observação concorda Hélio de Freitas Puglielli.

Eu, velho amigo de Pedro, recolhi com satisfação a mensagem, que calou muito junto a todos. Um dos mais afetados foi o jornalista Szyja Ber Lorber, filho de judeus poloneses (ele mesmo nascido no pós II Guerra, tendo vivido em campo de refugiado na Alemanha): “É a encarnação do espírito de diálogo do Papa João XXIII”, exclamou, depois da objetiva observação do arcebispo de que os cristãos devem viver novos tempos.
“Alguns aqui se lembram, as missas, antes do santo João XXIII, condenavam os ‘pérfidos judeus…”. Uma linguagem inconcebível para os dias de hoje, acentuou o arcebispo.

 

No espírito de Francisco

Engenheiro, empresário, presidente da Casa dos Pobres São João Batista, de Curitiba – Rafael Pussoli é fiel escudeiro de dom Pedro Fedalto, de quem às vezes, pode ser o motorista. Naquele 2 de agosto, o arcebispo, conduzido por Pussoli, estava cumprindo seu quarto compromisso, o da bênção.

Pedro é um bom exemplo de quem conhece a sociedade curitibana: foi ordenado padre na Capital em 1953, depois foi bispo auxiliar de seu mestre, dom Manuel da Silveira D’Elboux, a quem sucedeu na Arquidiocese. Viu a cidade livrar-se de provincianismos e acompanhou suas grandes mudanças – para o bem e para o mal – políticas e sociais. Uma delas, a perda da hegemonia católica avassaladora no Brasil, embora declínio, menos lento, também no Paraná. Eu me lembro dele no começo dos 1960, entregando – em folhas datilografadas por ele mesmo – noticiário da Arquidiocese. Ia aos jornais, rádios e às televisões entregar as notícias, com a humildade de um mero estafeta.

Pedro conhece bem os chamados poderosos do Estado, transitou nos centros decisórios políticos do Paraná nos últimos 50 anos, conviveu com democratas e espíritos ditatoriais. Mas se manteve inteiro, às vezes mesmo enfrentando paradas difíceis, como quando acolheu, na Cúria, a perseguida política esquerdista Juracilda, uma estudante; ou quando providenciou junto ao comandante da Região Militar para que Tereza Urban cumprisse sua pena por “subversão” numa casa de freiras, nas Mercês. Ou, ainda, quando, contra muitas vozes à direita, criou a Comissão de Direitos Humanos da Arquidiocese de Curitiba, de que fazia parte, por exemplo, Newton Freire Maia.

É bom lembrar ainda, como exemplo de sua capacidade de acolher o ser humano, que o hoje muito controvertido Gilberto Carvalho, depois de ter deixado o seminário, já casado, foi apontado por Pedro Fedalto como dirigente da Pastoral Operária.

Até recentemente, pelo que me contaram, Pedro vivia com pouco mais de R$ 1 mil por mês, morando, com conforto, é verdade, em duas peças no interior do Seminário São José. Mas sem ter nada de seu. A Arquidiocese, é certo, providenciou-lhe um “luxo”, um carrinho popular (dirigido por seu sobrinho Pedro) com que se desloca para atender uma farta agenda diária de compromissos pastorais.

Discreto ele é. Ninguém o faz falar e opinar sobre temas que causem embaraços a alguém. Mas poucos conhecerão, como ele, os meandros dessa instituição com a qual nasceu a Nação brasileira, a Igreja. Até por isso se aguarda a edição de seu livro seminal – História da Igreja do Paraná.

Não se esperem, no entanto, revelações surpreendentes, embora, estou certo, ele seja receptáculo de muitas confidências do mundo secular e do entorno eclesiástico. Não poucos figurões do Paraná fizeram de Pedro seu conselheiro. Um deles, Ney Braga.
Cassiana Lacerda, perspicaz como só ela, numa frase, naquela noite da bênção de dom Pedro, foi definitiva e correta: “Ele consegue ter pitadas de bom humor crítico em suas observações”.

A expressão da mestra a mim só confirmou o que sei há tempo ser capaz de sair daquela alma astuta, dona de memória e capacidade ímpar de computar fatos.
Ah, diga-se em apoio a Cassiana: o “senso de humor” de Pedro pode ser cortante. Como foi quando, me lembro, em diálogo que tivemos um dia, eu e o arcebispo, dois anos passados, sobre a crise de vocações religiosas.

Ele fez longas digressões, apontou má interpretação de certas decisões do Concílio Vaticano II, a secularização da sociedade, as gerações de arreligiosos que se vão formando, como causas da falta de religiosos. E saiu-se com essa observação lapidar, para concluir suas análises:
– Hoje, até para ser freira, a candidata ao hábito já não precisa mais ser virgem…

 

A reconciliação
Luiz Fernando Pereira, Hélio de Freitas Puglielli e dom Pedro Fedalto.

Luiz Fernando Pereira, Hélio de Freitas Puglielli e dom Pedro Fedalto. Foto: Felipe Rosa

Saudável, Pedro pode surpreender alguns, mas não a velhos conhecidos que o sabem um legítimo ‘oriundi’, de que é marca, a forma moderada como aprecia bom vinho de qualidade. Deu mostra naquele encontro, em que dividiu a mais loquaz mesa da noite, com Fábio Campana e Luiz Fernando Pereira.

Com Fábio falou de um sem-número de paranaenses com que os dois conviveram, especialmente na vida política do Estado. Nesse capítulo, a mim não me surpreenderam: eles são raras espécies – no bom sentido – de arquivos da vida paranaense.
Com Pereira, houve um momento de reencontro alegre, que o advogado importante de hoje disse ter sido oportunidade “para receber perdão do arcebispo”. O alegado ‘perdão’ teve um motivo: as contrariedades com que Pereira, Ricardo Gomyde e outros universitários inquietos contemplaram o reitor de então da PUCPR, Euro Brandão, na maior greve estudantil da instituição.

– Não sou eu quem perdoa, mas Deus, disse o arcebispo, esquivando-se de provocação que lhe fiz, pedindo-lhe que desse absolvição ao hoje cidadão exemplar Luiz Fernando Pereira.

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