Abraçar o diabo ou ser comido pelo capeta

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“Abu Bakr al-Baghdadi, o que vamos fazer amanhã à noite?”, ouviu Abu de seu auxiliar. Convicto, ele respondeu, “o que fazemos todas as noites, tentar dominar o mundo.”
Autointitulado califa de sua criação, o Estado Islâmico, Abu ainda não chegou à sua conquista mundial, mas já causou reboliço no Iraque e na Síria. Em seu espaço – entre os dois países – ele tem 31,5 mil integrantes, 15 mil são de fora – de oitenta países –, dois mil são ocidentais.

O grupo jihadista surgiu a partir de um desmembramento da Al-Qaeda (grupo fundamentalista fundado por Osama Bin Laden, sendo a ela são atribuídos diversos ataques, dentre os quais o atentado de 11 de setembro. Atualmente é liderada por Ayman al-Zawahiri), chamado Estado Islâmico do Iraque – ele era a representação da Al-Qaeda no país. Em abril de 2013, Baghdadi anunciou o EI (Estado Islâmico) e a Frente Al-Nosra, grupo jihadista sírio. Com a fusão de ambos surgiu o Estado Islâmico do Iraque e Levante. Após desentendimentos, a Al-Nosra não se submeteu ao movimento e passou a agir em território sírio independentemente até janeiro de 2014, quando houve uma guerra entre ambos.

O EI não se importa muito para o que a Al-Qaeda diz, ela, por sua vez, havia pedido que o grupo iraquiano permanecesse em seu lugar de origem, a deixar a Síria para a Frente Al-Nosra. Charles Lister, pesquisador do Brookings Doha Centre, constatou, no entanto, algo em torno de 7 mil combatentes do EI em território sírio.

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Abu Bakr al-Baghdadi. Foto: Reprodução/Internet

Baghdadi escolheu a dedo seus homens, são experientes profissionais no que diz respeito à guerra, alguns são ex-oficiais de Saddam Hussein, caso de Fadel al-Hayali e Adnan al-Sweidawi. Por serem macacos velhos, o sucesso nas operações militares é frequente, sabem manejar zonas de conflito.

Desde já é importante deixar claro que não são simplesmente mais um grupo terrorista que assistimos há tempos. Citados por José Antonio Lima, na Carta Capital, Jessica Lewis, analista do Instituto para o Estado da Guerra, e William McCants, do Instituto Brookings, afirmam que não são terroristas. Lewis diz que “É um exército em movimento no Iraque e na Síria, e eles estão tomando território”.

O Estado Islâmico possui vários inimigos, comprou briga com deus e o mundo, literalmente, para defender suas verdades, seus fundamentalismos e territórios – estes nem tão seus assim. Isso fez com que pusesse lado a lado inimigos históricos, a Casa Branca prometeu que treinará rebeldes sírios para combater o EI, mas a prioridade desses é combater Bashar al-Assad. A Arábia Saudita anda em dúvida sobre o que é mais prejudicial: se unir com as milícias xiitas iraquianas ou ver Abu Bakr al-Baghdadi e sua trupe a conquistar o Oriente Médio.

Todos têm um inimigo em comum – o Estado Islâmico – mas todos também são precavidos ao abraçar o inimigo, seria como dar a mão ao diabo. Pois se derrotarem o EI, o que viria depois? Quais conflitos? Eles tornar-se-iam amigos? Situação complicadíssima. Essa quantidade de inimigos faz com que o EI venha a ter dificuldades, manter todos os fronts será tarefa árdua, para tolher seu avanço será preciso que todos trabalhem em um objetivo comum.

Concordar que essa matança não seja imediatamente combatida é algo que fica reservado à presidente Dilma Rousseff. De acordo com relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), no mês de setembro pelo menos 9.347 civis iraquianos morreram; 17.386 ficaram feridos.

O presidente dos Estados Unidos disse, no dia 10 de setembro, que “Esta campanha contra o terror será um compromisso sólido e inabalável, com o intuito único de destruir o EI – onde quer que esteja”, disse Obama. “Os Estados Unidos vão liderar uma ampla coalizão para encurralar essa ameaça terrorista. O ‘Estado Islâmico’ não é islâmico, pois mata e aterroriza, e também não é um Estado”, afirmou o presidente que agiu com bombardeios aéreos.

Em resposta à ofensiva aérea americana, o EI divulgou vídeos da decapitação de dois jornalistas estadunidenses, James Folley e Steve Sotloff, e um voluntário britânico, David Haines. A atitude gerou espanto e repúdio no mundo ocidental, e também algumas dúvidas, pessoas chegaram a questionar se isso não seria uma produção hollywoodiana para incitar a violência em território árabe. O que os ocidentais não viram, porém, foram os inúmeros esquartejamentos e decapitações que o EI realizou e divulgou em praça pública para todos estarem a par do que acontece com quem vai contra sua ideologia – o grupo chegou a obrigar crianças a assistirem. A história de Tiradentes torna-se pífia com a crueldade dos jihadistas.

A ONU pediu para que o governo iraquiano integre o Tribunal Penal Internacional, a Corte de Haia foi criada para tratar de abusos como esses cometidos pelo EI, contudo o próprio governo e seus aliados estão a ser vistos com desconfiança pelas Nações Unidas, uma vez que, de acordo com relatórios, o Iraque não está a fazer distinção de alvos civis e militares.

A Missão de Assistência da ONU para o Iraque (Unami, na sigla em inglês) chegou a dizer que 1,8 milhão de iraquianos abandonaram suas residências devido ao caos instalado na região. “A gama de violações e abusos perpetrados pelo Estado Islâmico e grupos armados associados a ele é estarrecedora, e muitos de seus atos podem equivaler a crimes de guerra ou crimes contra a humanidade”, disse o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al Hussein.

Propor o diálogo com o EI talvez não seja uma saída, porém apoiar determinadas ditaduras para acabar com ele pode ser arriscado, pessoas apoiam a sua existência, pessoas se sentem representadas pelo Estado Islâmico, isso faz com que ele exista e continue a praticar suas crueldades. Há de se ter uma receita para o fim desse conflito, que não coaja iraquianos e sírios e não faça se sentirem mais protegidos sob a tutela desses terroristas.

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