Adeus

Foto: Reprodução/site freeimages.com

Eu só saí. Não nos despedimos, não nos terminamos, não tivemos a última conversa. Nem, ao menos, nos foi permitido entender que era o fim. Apenas nos enfiamos cada um em sua casa, cada um em sua vida, cada um em seu silêncio.

O tempo foi tratando de fazer o resto e nos ensinar, em conta-gotas, nosso novo jeito: separados. No começo não acreditava. Achava que os dias iam se acumular em filas e antes que trocassem de semana, o telefone tocaria e combinaríamos novo encontro, que seria, como sempre, o da cama. E seria, como sempre, a renovação de um amor sem explicação, sem saúde, sem futuro e sem fim.

Difícil acreditar na vida assim. Talvez eu não devesse ter ido embora. Melhor seria gastar tudo o que tínhamos, levar nossa experiência, tão única e indizível, às últimas consequências; deixar que o amor se consumisse até virar um trapo velho, um fiapo de nada, um resto irreconhecível.

Devia ter ficado até odiar ao assassinato; devia ter ficado o tempo que meu coração levasse para esvaziar tudo e se tornasse fruta seca de sentimento. Eu devia ter ficado até não sobrar nada que pudesse me trazer à boca o gosto daquelas madrugadas insanas. Devia ter ficado até não existir mais madrugadas.

Mas eu fui embora. Não nos despedimos, não acabamos, não enxugamos prantos. Se nunca nos despedimos, será que ainda estamos juntos? Somos par? Formamos dupla que tem compromisso e haverá de saciá-lo a qualquer momento? E se ao dobrarmos uma esquina e nos encontrarmos, enlaçaremos as mãos e seguiremos com a naturalidade de quem nunca disse adeus?

Nas minhas noites de solidão tento te adivinhar os caminhos e aperto contra o nariz o lenço que ficou comigo, já não tem mais o seu perfume, mas suficientemente me ilude pensá-lo seu. Continuamos juntos, não houve fim.

Mais triste que a despedida definitiva, é não ter despedida alguma. A vida parece que flutua dois metros acima da realidade e nada é tão concreto e certo como aquilo que não aconteceu.

É essa ausência de adeus que permite o recorrente pensamento da dúvida se eu deveria mesmo ter ido embora. E se fui, por que não disse? E se fui, por que continuo tão presa, tão sua? Nunca te disse adeus porque sei que não suportaria viver, por escolha e consciência, longe de você; sem o marco final me é permitido saber que de algum jeito ainda é possível voltar, que você espera que eu volte, que o fel que derrama em rodas é o amargor de quem, esperançoso e apaixonado, me espera. É bom ter para onde voltar tanto quanto é bom ter quem lhe volte.

Não cortamos nossos laços. Resolvemos enfrentar a vida a partir de um silêncio que não explicou e não nos contenta até hoje. De alguma maneira, ainda seguimos juntos. Somos um, estamos ligados até que tudo se desfaça na palavra que nunca falaremos.

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