Cada macaco no seu galho

Patrícia Moreira. Foto: Reprodução/site brasilpost.com.br

 

Ela perdeu o emprego, teve a casa apedrejada e depois parte incendiada, sua matrícula de sócia do Grêmio foi suspensa, responde a processo e virou perambulante entre casa de amigos e familiares. O país acompanha desde o dia 28 de agosto o drama protagonizado por Patrícia Moreira, que foi filmada pelo canal ESPN Brasil chamando o goleiro Aranha, do Santos, de macaco.

Os detalhes do ocorrido e de como a história se desenvolve estampam os noticiários e não precisam novamente ser explicados. No entanto, o fato nos leva a outros desdobramentos e para eles é importante ter atenção e chamar à discussão.

Racismo nunca, nunca mesmo, deverá ser tolerado. Para quem ainda consegue manter no caráter e na atitude comportamento tão selvagem, temos o rigor da lei e algumas indicações terapêuticas, porque a prática do preconceito e da discriminação é coisa de quem não se enquadra na civilização e de quem tem séria patologia.

A tratar dos gritos de Patrícia Moreira numa arquibancada de futebol, lugar em que as emoções estão à flor da pele, tanto contra como a favor, podemos julgá-la, isoladamente, como racista? As imagens do canal de TV mostram parte da torcida, em movimento para desestabilizar o goleiro do peixe, com substantivos que viraram adjetivos ofensivos; são todas essas pessoas racistas? O racismo se mede a partir da intenção ou do recebimento do ato? Se Aranha não tivesse se sentido ofendido, os gritos seriam ainda tratados como racistas? O que se fala é a mesma que coisa que se ouve? Quem quer insultar pessoa específica é mesmo racista?

As perguntas não têm fim e quem sente na pele (quem traz na pele) um xingamento e tudo que ele pode significar avalia com as devidas dores da história e das próprias experiências o significado de meia dúzia de palavras, que às vezes podem momentaneamente ofender, às vezes ferir profundamente e às vezes subjugar a um passado de sofrimentos de um povo inteiro. Por isso, o reclamante tem a seu favor a lei, para enquadrar os casos, e a Justiça, para avaliar os propósitos.

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Foto: Edison Vara/Gremio FBPA

O que não dá também para aceitar é o outro lado da moeda do caso Patrícia x Aranha. O linchamento pelo qual a torcedora passou, e ainda passa, as humilhações públicas e a maneira como tem sido tratada são tão perigosos quanto qualquer outra forma de discriminação; faz lembrar a Ku Klux Klan, que subia tochas de fogo e queria sangue e humilhação dos que não admitiam – dessa vez com as cores em lados contrários. Quem acredita na atitude da moça como racista e por isso se revolta em atos que violentam o Estado Democrático de Direito acaba por colocá-la como vítima de uma sociedade ignorante e enlouquecida por uma justiça primária, feita com as próprias mãos. Todas essas ações tiram o foco do possível racismo para lançar luz na intolerância do intolerante. Causa e consequência se fundem de tal maneira que em pouco tempo algoz vira vítima e vice-versa.

Há muito que os clubes de futebol de várias nações se organizam em campanhas de marketing para estender bandeiras contra o racismo. Vemos isso nos campeonatos nacionais, internacionais, pequenos, médios e grandes. Depois da Resolução de Buenos Aires em 2001, a Fifa estabeleceu o Dia Contra a Discriminação e desde então promove ações como as que vimos na Copa do Mundo aqui no Brasil, em que jogadores recitaram frases de igualdade racial e telefones e atendentes foram colocados à disposição para denúncias durante o torneio.

Se um esporte, que desperta tantos olhares do mundo, se dedica ao assunto, só pode ter explicação no fato de que campo e arquibancada espelham parte do comportamento das sociedades, correto? Até pode ser. Mas talvez, talvez!, haja nessas iniciativas algum tipo de equívoco também sobre o que é discriminação ou preconceito ou exaltação de uma raça em detrimento de outra ou só alvoroço de torcida.

Um torcedor de futebol, inflamado por sua paixão descontrolada, é capaz de dizer coisas que não diria em situações fora do esporte. O vale-tudo verbal que acontece dentro dos estádios não se multiplica nas ruas, nas casas, nos escritórios. É catarse, explosão emocional do momento. Xinga-se a mãe do juiz, mas não a Dona Maria, verdadeira progenitora. Utiliza-se de orientações sexuais de forma pejorativa, mas ninguém pensa sexualmente no assunto. Grita-se “macaco”, mas não há intenção de ofender ou subjugar uma raça inteira do planeta.

Há um certo aborrecimento em concluir que o que aprendemos como politicamente correto acaba tendo mais importância do que os fatos propriamente ditos. Por exemplo, se uma pessoa não suportar a cor ou religião ou qualquer característica de outra e repudiá-la em ações, mas nunca em palavras, parece que o problema não existe ou existe de forma mais branda. Nessa balada, se temos um problema sociocultural e não tratarmos dele verbalmente, é como se ele não houvesse.

Coibir gritos identificados como racistas pode ajudar a não dar coro a um tipo de pensamento, mas nunca vai fazer com que o processo de discriminação se esgote. Para isso, é preciso que a igualdade entre raças, religiões, opções sexuais e qualquer outra aconteça num processo mais amplo que o verbal. O entendimento de igualdade da grande família humana não acontece nas palavras, é fruto de como as sociedades se toleram e, principalmente, se misturam umas às outras.

Foto: Edison Vara/Gremio FBPA

Foto: Edison Vara/Gremio FBPA

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