Elogio da sombra

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Jorge Luis Borges, escritor argentino que ficou cego com o passar dos anos, falou de sua cegueira em uma conferência que deu no Teatro Coliseu em Buenos Aires em 1977. Era a sétima e última conferência. Abordou assuntos que lhe eram caros: a Divina Comédia, o pesadelo, as Mil e Uma Noites, o budismo, a poesia, a cabala e, finalmente, a cegueira.

Reuniu-os num livro que teve o título de Sete Noites. Borges falou da sua doença hereditária, da sua cegueira. Disse que a dele não era uma escuridão total, mas antes uma neblina verde-azulada. Talvez azul-esverdeada. O amarelo também não lhe era infiel. As cores vermelho e preto não as via jamais. Seu mundo era um mundo sombrio. Escreveu um belo livro a que o deu o título de Elogio da Sombra.

O fotógrafo Nicola Iannuzzi fez, com suas fotografias, seu próprio elogio da sombra. Foi ao Instituto Paranaense de Cegos para documentar a vida dos internos. Depois de conversar com a assistente social encarregada e explicar seu projeto foi-lhe permitida a tomada de fotos.

Porém, antes de ir com seu equipamento fotográfico, passou vários dias a conversar com as pessoas que moram lá. Ouviu suas histórias, seus dramas, suas angústias, suas inquietações, suas escassas esperanças.Conversou com elas, compartilhou seu tempo, sua compreensão, sua solidariedade. Explicou o projeto que tinha em mente e alguns deram permissão para as fotografias que nunca verão. Outros se negaram a ser fotografados. O fotógrafo respeitou a vontade de cada um. Viu e documentou cenas tocantes. Uma em especial é a cena em que fotografa um jogo de bola e um que tem cegueira parcial venda os olhos para não se aproveitar de sua vantagem frente aos totalmente cegos. E a cada foto, no dizer de Nicola, sentia uma angústia, um incômodo difícil de suportar. Aquelas pessoas fotografadas, seu instante de vida registrado, sua intimidade, jamais verão as fotografias.

À parte a força e a dramaticidade do tema, Nicola deu grandeza às fotos com um preciso enquadramento e percepção da luz. Por uma ironia, as instalações, tanto internas como externas, são abundantes de luz solar. Soube aproveitar a incidência da luz pelas janelas do Instituto e, com o jogo de luz e sombra, compôs quadros de uma beleza assustadora. Seu registro, ainda incompleto, permanecerá como uma documentação de um momento daquelas pessoas que vivem num mundo sombrio.

O paulistano Nicola Iannuzzi mora há muito tempo em Curitiba. Cursou publicidade e propaganda na PUCPR e trabalhou em várias agências de publicidade. Mas nenhuma das atividades das agências o agradava. Quatro paredes eram um espaço muito limitado para o desenvolvimento de sua criatividade. Fez um curso de fotografia, pegou sua câmera e saiu para fotografar. Do que vi de suas primeiras fotos até este trabalho seu crescimento artístico foi enorme. Hoje trabalha como fotógrafo freelancer, cobre eventos corporativos e, principalmente, desenvolve projetos documentais. Esperamos que Nicola nos traga mais trabalhos fotográficos tão densos como este.

 

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