Entre dunas e abismos

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Vinhedos de Colares. Foto: Reprodução/Site alemdovinho.com

 

Alguns vinhedos, pouquíssimos, rompem o monótono padrão das disciplinadas colunas de plantas ocupando campos e encostas a perder de vista. É o caso do Douro e da Ilha da Madeira, lugares que surpreendem a cada curva do caminho pelo radical cenário das vinhas escalando precipícios em patamares escavados na rocha a golpes de picareta e cinzel. Douro e Madeira são vinhedos portugueses, assim como o de Colares, outro exemplo da tenacidade desse povo. Mas, se nos primeiros é da pedra que tiram vinho, neste é da areia que ele sai.

Colares fica às portas de Lisboa, entre a Serra de Sintra e o oceano. Com apenas 23 hectares, é a menor das zonas vitivinícolas europeias. Sua fama se deve à natureza do terreno, coberto por dunas de areia, motivo pelo qual plantar a vinha foi desafio oposto ao de talhar degraus paredões acima. Em Colares é preciso ir fundo, escavar o areal em busca do solo argiloso e aí “unhar” a raiz da muda. Tais buracos chegam a dez metros de profundidade. Misturam, depois, a areia com adubo e vão repondo na medida em que a planta cresce, até que os ramos se espalhem pela superfície.

Ramisco, a uva predominante, subsiste praticamente só lá, proporcionando vinhos densos na cor, tânicos, de alta acidez, que requerem longo tempo de afinamento nas adegas. Tintos raros porque a produção é mínima e absorvida pelo mercado lusitano. Provei, em dias recentes, o Colares Visconde de Salreu, colheita 1955, garimpado nas prateleiras da Garrafeira Nacional por um amigo que andou por Lisboa.Quase sexagenário, o vinho estava na ponta dos cascos, aromático (alcatrão, cedro, frutas secas), macio e elegante no paladar. Nada de extraordinário, porém autêntico, peculiar, sabor que só caldos radicalmente artesanais logram expressar.

Um diferencial de Colares é estar livre da filoxera, o microscópico inseto que devastou os vinhedos do Velho Mundo no século 19. Ele se propaga em todos os terrenos, exceto nos arenosos. As parreiras de Colares conservam, por isso, o enraizamento original, ao contrário das demais da Europa, que só sobrevivem enxertadas em raízes da vinha americana, resistente à praga. Já a proximidade do oceano complica. A umidade traz riscos sanitários e os vendavais marítimos obrigam os produtores a instalar paliçadas e a manter as plantas rentes ao chão, onde ficam menos expostas. Os cachos, ao se formarem, são suspensos com estacas, um a um, para evitar o contato com a areia escaldante.

Essa região merece a visita de quem gosta de vinhos, sem contar que é a oportunidade de apreciar, também, o valioso patrimônio histórico e cultural de Sintra e Cascais, seus palácios, museus, estreitas ruelas, velhos casarões, e, imperdíveis, os pratos do Fortaleza do Guincho, entre os melhores restaurantes de Portugal. Como bônus, ainda, o famoso Cabo da Roca, ponto mais meridional do continente europeu, “o lugar onde a terra se acaba e começa o mar”, na descrição de Camões. De Lisboa a Colares são 30 quilômetros, proximidade que, aliás,é outra ameaça. As terras valorizaram tanto que os produtores hoje avaliam se ceder à especulação imobiliária não seria mais lucrativo e menos, muito menos trabalhoso.

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Vinhedos do Douro. Foto: Divulgação

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