O estupro

Mukhtaran Bibi. Foto: Divulgação

É profundamente intrigante e indecifrável o ódio que parte do universo masculino tem em relação às mulheres. Não se pode negar que costumeiramente o homem se abala com a beleza, a sensualidade, a inteligência e, sem dúvida, com a astúcia feminina. No entanto, sexualmente desejáveis ou não, causam em muitos um absurdo sentimento de desprezo, revanche e violência. E de toda essa violência, a pior delas é o estupro, quiçá quando praticado de forma coletiva. É onde esse ódio incontido encontra o seu auge na barbárie.

Há algum tempo o mundo vem se envergonhando dos sucessivos estupros coletivos praticados com assustadora frequência em países como o Paquistão e a Índia, que ainda vivem no sistema de castas e desprezam as mulheres. No entanto, os países considerados desenvolvidos, incluindo aí os ingleses e os tão civilizados nórdicos, têm um alto índice de estupro e violência contra as mulheres, o que aparentemente é inexplicável. O exemplo prático veio recentemente da cidade inglesa de Rotherham, considerada a capital do estupro na Grã-Bretanha, e as barbáries praticadas contra Lucy, em uma perturbadora reportagem publicada no New York Times, chocou a todos. Essa prática cruel tem levado muitas vítimas ao suicídio ou devastam suas vidas para sempre. Os índices alarmantes do aumento mundial desse tipo de violência têm perturbado os cientistas que não conseguem decifrar essa misoginia atávica mesmo nos países com grande avanço civilizatório.

Há alguns anos fiquei perturbado e reflexivo com a história da paquistanesa Mukhtaran Bibi ou Muktar Mai, como ficou conhecida posteriormente e que significa “grande irmã respeitada”. Sua história se encontra narrada no livro Desonrada (Ed. Best Seller). Eis aqui um resumo da barbárie.

O Paquistão é um país muçulmano com uma divisão de castas nos moldes da Índia. Suas divisões tribais obedecem a preceitos desumanos que vão muito além da idade média, relegando à mulher um papel assustadoramente inferior. Mukhtaran Bibi foi notícia por um breve momento em 2002 e obviamente esquecida até recentemente. Ela foi estuprada por um grupo de homens de um poderoso clã pertencente a uma casta superior à sua na Província do Punjab. O estupro, represália a um suposto flerte entre seu irmão de 12 anos (posteriormente violentado pelo clã) e uma mulher da tribo Mastoi, foi público e nenhum dos 150 homens presentes atendeu aos seus apelos por piedade. Após o último estuprador daquela selvageria depravada, Muktar Mai teve de percorrer a cidade até a sua casa, completamente nua, exposta ao ridículo público. Esse fato era a repetição de outras situações semelhantes e já se esperava que ela, como as outras vítimas anteriores, se suicidasse. No entanto, diferentemente das demais, Mukhtaran não se matou, e, embora analfabeta, procurou reparação na Justiça e obteve uma indenização de U$ 8.300 que usou para construir duas escolas para mulheres. Sua tenebrosa história foi relatada à jornalista francesa Marie-Thérèse Cuny e divulgada pelo jornalista do New York Times Nikolas Kristoff, e recebeu extensiva cobertura mundial. Abaixo, um pequeno trecho da resenha publicada na época do lançamento do livro pelo site Veja.com e que reflete um pouco do calvário de Muktar Mai e de todas as mulheres que passaram por tamanha degradação.

002“A paquistanesa Mukhtar Mai apertou seu exemplar do Corão contra o peito quando ouviu, na presença de mais de 100 homens, a sentença que o conselho de sua aldeia acabara de lhe impor: um estupro coletivo. Integrante de uma casta inferior, Mukhtar fora até lá apenas para pedir clemência para o irmão mais jovem. Era ele o réu no julgamento. Estava prestes a ser condenado à morte por ter se envolvido com uma mulher de um clã superior, fato nunca inteiramente esclarecido. O líder tribal – que era o chefe do tal clã – ignorou o pedido de Mukhtar, então com 28 anos, e ordenou a punição. Ela foi imediatamente arrastada por quatro homens armados, como “uma cabra que vai ser abatida”, segundo sua própria descrição. Eles a agarraram pelos braços e puxaram suas roupas, o xale e o cabelo. Indiferentes a seus gritos e súplicas, levaram-na para dentro de um estábulo vazio e, no chão de terra batida, violentaram-na, um após o outro.”. “Não sei quanto tempo durou essa tortura infame, uma hora ou uma noite. Jamais esquecerei o rosto desses animais, conta a paquistanesa.”

A menos que a comunidade internacional se mobilize para forçar os países tolerantes dessa verdadeira cultura de ódio às mulheres a mudar suas leis e a punir severamente a prática permanente do estupro, novas ignomínias e suicídios continuarão ocorrendo por esse mundo afora e que avança pelo século 21, mostrando decapitações cada vez mais perigosas pelas redes sociais. Porque se assim não for, é melhor então colocar uma grande placa no mundo com a célebre frase de Dante no seu Inferno: “Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança…”.

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