Política, só de dois em dois anos

Foto: Elza Fiuza/ABr

 

O que nos faz de dois em dois anos no primeiro domingo de outubro ir às urnas? Acreditar que somos cidadãos? Acreditar que mudar o nosso voto passado irá alterar o cenário político futuro? A obrigação? (Que direito obrigatório é esse?) Por onde anda o compromisso com as ideologias políticas e por anda a política em nossa vida? Como poderemos entender o que é política, se ela está próxima de nós só de dois em dois anos e se apresenta muito mais como ferramenta publicitária? Política não é ação na pólis, política é “prometo blá-blá-blá”, “no meu governo blá-blá-blá”, etc., etc.

Política para os brasileiros vai de escândalo de corrupção que passa no Jornal Nacional à propaganda eleitoral divertida de vereador, não passa disso, como é que diz o palhaço, “pior que tá não fica”. Política é sinônimo de qualquer coisa asquerosa, políticos são asquerosos. Vivemos distantes da vida política coletiva, queremos vantagens para nossa vida privada e alguém que vive entre o Palácio das Araucárias, Palácio do Planalto e Palácio de Buckingham tanto faz, tanto fez, não muda em nada no ônibus cheio, no furto do trombadinha, na fila do postinho. Não muda? Deveria.

Política é uma invenção das antigas, é milenar, ela é anterior à cidade. A instituição mais antiga do mundo – a família – praticava, e ainda pratica, política. Não há como datar a prática política, já sistemas políticos são mais possíveis, como a invenção da democracia por Sólon e Clístenes em Atenas, na Grécia Antiga; o absolutismo na idade moderna; o feudalismo, que se confunde como sistema econômico, porém há uma ordem política bem definida entre vassalos e suseranos, na Idade Média; etc.

A maneira de ver e de se fazer política muda de acordo com o tempo e lugar, cá no Brasil política é distante do grande público, porém não deixa de ser um grande espetáculo circense. Em tempos de eleição as pessoas se aproximam, passam a conhecer candidatos e se esforçam para acertar o número da legenda. Pesquisa Datafolha realizada entre os dias 25 e 26 de setembro, ou seja, pouco mais de uma semana das eleições, revelou que 35% dos eleitores não souberam o número do seu candidato à Presidência da República, 41% acertou. Dilma Rousseff, candidata pelo PT, partido que está há 12 anos no poder, foi a que teve maiores acertos em sua legenda, a chegar em 57%; seguida de Aécio, com 45%. Marina Silva foi a mais prejudicada, suas andanças de partido em partido fizeram com que apenas 37% acertassem seu número. A acreana também teve índice negativo entre as pessoas que não souberam seu número, 38%; seguida de Aécio Neves, com 32%; e Dilma Rousseff, 24%.

Os números mostram o distanciamento das pessoas da política. Os candidatos à Presidência são os que possuem mais visibilidade, a menor quantidade de dígitos e o número é a própria legenda partidária. Já para os candidatos ao Senado, dificulta, são três números, os dois da legenda e um terceiro qualquer. Deputados federais carregam quatro e os estaduais cinco, são muitas combinações. Para pessoas que mal sabem o número do seu candidato ao Palácio do Planalto, como fica o da Assembleia estadual? A ver navios…

 

Desinformado
caldeirao

Montagem: Carlos Garcia Fernandes/Revista Ideias

Eleitores que não sabem números talvez não saibam funções. Existem esses eleitores. É a massa silenciosa que se aproxima da política apenas no horário eleitoral e olha lá, estar com a televisão desligada, para muitos, senão para todos, é mais interessante do que ouvir candidatos blasfemar.

Esses eleitores decidem o voto pelo “santinho” que possui o melhor design, que tem o candidato mais bonito, o número mais fácil. De última hora praticam o glorioso ato do voto obrigatório. Esses eleitores são também em maior número. Não veem a política pública como ferramenta que interfere diretamente na vida privada, que pode diminuir a fila do postinho, o ônibus lotado e os assaltos.

O número de partidos dificulta essa proximidade, são registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) trinta e dois, somente após a eleição passada surgiram cinco: PSD, PPL, PEN, PROS, SD. Como o eleitor saberá diferenciar ideologias e tendências políticas do Partido Social Cristão (PSC), Partido Trabalhista Cristão (PTC) e Partido Social Democrata Cristão (PSDC)? Ou aqueles que levam qualquer referência à democracia? São seis. Os trabalhistas são oito, o que chega a ser uma piada, pois o número de dias de recesso parlamentar da Câmara dos Deputados gira em torno de cinquenta, o tempo de trabalho vai de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto até 22 de dezembro.

Os que estão a ímpar da política brasileira comumente confundem os candidatos e a que estão a se candidatar. Nos bares, lanchonetes, ruas e em outros lugares da cidade não é incomum ouvir diálogos do tipo: “vai votar em quem pra deputado?”, “ainda não sei, estou em dúvida entre a Dilma e o Alvaro Dias”, mas o que supera esta confusão é a frase “não sei, você troca um pelo outro e tudo continua igual”, isto quando os adjetivos de baixo escalão não acompanham para definir as “virtudes” dos políticos.

 

O próprio umbigo

Quando vamos às urnas, elegemos os futuros administradores públicos, aqueles que guiarão os rumos; o político, por sua vez, apresenta determinada “bandeira de campanha”, uns se abraçam na saúde, outros segurança, etc., etc., são como carros, uns se vendem pelo tempo de garantia, outros pelo espaço interno, etc., etc., é a propaganda que vale, e se ela é enganosa ou não, só será sabido depois da aquisição do produto – ou do político.

Para além desses que votam no santinho mais formoso, há os que votam na bandeira de campanha que mais lhe agrada, mais lhe convém. A necessidade da coisa pública não é o que determina o voto, o que é mais conveniente para a vida privada do sujeito o faz dar seu voto ao candidato. Por exemplo, há agora uma forte campanha para a ciclomobilidade, porém o que as cidades precisam de fato é uma boa rede de transportes, no caso de Curitiba se aplica, pois é uma cidade com o relevo acidentado e chove mais que Londres, logo dificulta andar de bicicleta. Porém, aquele sujeito que anda de bicicleta não pensa que para a maior parte da população o melhor é o deputado que apoia o transporte público em vez do que apoia a ciclomobilidade. E depois de tanto apoio os políticos ficam à mercê, a população não acompanha seu trabalho, ver se está a fazer o que propôs. O dono do bar esquece que além do bar tem aquele deputado para quem tanto fez campanha e que irá encontrá-lo só daqui a quatro anos.

Praticar política vai além das urnas, é necessária uma percepção de um mundo à sua volta que vai além da ciclomobilidade, do transporte público, etc., etc.

 

Depois das urnas

Não necessariamente, após as eleições e o tempo de mandato, o candidato eleito foi o “certo”. Em abril deste ano a presidente Dilma Rousseff não estava muito bem vista pelo seu eleitor. Quando ele foi questionado sobre o que ela fez pelo país, 63% disseram que menos do que o esperado e apenas 12% mais. Recentemente, na última semana de setembro, o número dos que ficaram insatisfeitos com seu governo caiu para 58%, entretanto, também caiu o número dos que se surpreenderam, foi para 11%.

Candidatos eleitos são aqueles que têm o melhor João Santana ou Duda Mendonça. Santana em outubro de 2013 afirmou à revista Época:”A Dilma vai ganhar no primeiro turno, em 2014, porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer, lá embaixo, e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo”. Essa é a função do marqueteiro, fazer o candidato planar no Olimpo, quem tem o melhor plana. E muitas vezes, como se assiste em 2014, quem tem o melhor marketing político não é o melhor político.

Enquanto estivermos próximos da política de dois em dois anos, a propaganda vai ser soberana e a ideia subalterna.

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