Vivendo cada vez mais

Oscar Niemeyer. Foto: Reprodução/site museuoscarniemeyer.org.br

 

Uma senhora chamada Billy Jones comemorou seu aniversário de 90 anos pilotando um pequeno avião Cessna de quatro lugares, em companhia de duas filhas, uma neta e seu instrutor de voo. Foi na Flórida o voo de meia hora, com decolagem e pouso no aeroporto do Condado de Flagler e naturalmente não foi um voo clandestino, uma travessura: depois dos atentados de 2001 contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, não houve mais, nos Estados Unidos, negligência nem falta de verbas para o rigoroso controle de qualquer voo e de todos os aviões e respectivos pilotos e passageiros. A Sra. Billy Jones, portanto, devia estar com tudo em ordem – brevet, documento de identidade, plano de voo etc. Ao desembarcar de volta, ela comentou: “Foi maravilhoso”. O instrutor Kurt Schneider, que deu aulas de pilotagem à Sra. Jones nos últimos meses, declarou que ela é muito atenta e que todo mundo gostaria de ter tanta energia aos 90 anos.

Para quem já conhecia a Sra. Jones, não foi surpresa ela escolher esse modo de comemorar o aniversário. Quando fez 80 anos, sua festa foi saltar de paraquedas. Aos 85, voou de planador. O que também não foi surpresa. Ela gosta dessas emoções e já fez um safári na África, voou de balão e nadou ao lado de focas nas Ilhas Galápagos. No cotidiano, para manter a forma, caminha pelo menos três quilômetros por dia e sempre sobe as escadas de seu apartamento numa casa de idosos (que deve ter elevador).

Outra informação que o noticiário registra é que a Sra. Jones casou com um militar americano e viveu em muitos países, entre os quais o Brasil. Fico pensando se no Brasil a Sra. Jones teve conhecimento da longevidade de Oscar Niemeyer, que viveu 104 anos e morreu em 2012, quando a Sra. Jones estava com 88, e de Barbosa Lima Sobrinho, o maior dos jornalistas brasileiros, que morreu no ano 2000, com 103 de idade, quando ela tinha apenas 76.

Eles não pilotavam Cessnas, não voavam em balões e não nadavam ao lado de focas, mas foram ótimos exemplos de como é possível, hoje, chegar a um século de idade com lucidez plena e em plena atividade.

Até bem perto de morrer, Oscar, com mais de cem anos, trabalhava nas obras do belo Caminho Niemeyer, em Niterói, com seu amigo e parceiro no projeto, o prefeito Jorge Roberto Silveira. E ainda concebia outro projeto, um aquário submarino em Búzios, de vidro translúcido, sobre o qual explicava: se as pessoas têm o direito de ver os peixes que estão dentro do aquário, por que os peixes não terão o direito de ver as pessoas que estão do lado de fora?

Barbosa Lima Sobrinho trabalhou até a última semana de vida, com 103 anos. Sua principal ocupação era a presidência da Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, da qual ele fora o presidente mais jovem e depois o presidente mais velho. Participando, como 1º secretário, da diretoria por ele presidida, eu ia frequentemente à casa dele. Um dia encontrei-o com várias equimoses no rosto e num dos braços. Tinha levado uma queda do último degrau da escada que usava para alcançar livros em sua biblioteca: o livro que queria estava na prateleira mais alta de uma das estantes e a tosca escada de madeira não tinha corrimão.
– Mas dr. Barbosa – reclamei –, como é que o senhor deixa acontecer uma coisa dessas, existem escadas com apoio para as mãos? Ou o senhor podia pedir que alguém apanhasse o livro.
– O tombo não tem importância – respondeu ele. Joguei futebol até os 90 anos, aprendi a cair…

Ele improvisara, no grande quintal de casa, um campinho de pelada, e até os 90 jogou com os netos, uma geração depois de jogar com os filhos. Na ABI nós comentávamos: é, não se pode esperar que com 100 anos ele tenha a mesma agilidade dos 90.

Não era só a capacidade de cair e ficar inteiro, apenas com equimoses no rosto e no braço. Era também a capacidade intelectual, intacta, que ele preservou até o fim. Seu último artigo de uma longa colaboração para o Jornal do Brasil, iniciada nos últimos anos da década de 1910, foi escrito dias antes e publicado dias depois de sua morte – morte que ele pressentiu e acolheu com a serenidade e o humor de sempre. Sentindo dificuldade de respirar, pediu ao motorista Ênio que o levasse ao hospital. E foi despedir-se da mulher, sua paixão de pelo menos setenta anos, a quem podia dizer o que disse porque ela já não estava em condições de compreender o alcance da despedida:
– Maria José, vou até o hospital. Não sei se volto.
Não voltou, sua vida estava completa.

ABI_alexandre

Barbosa Lima Sobrinho. Foto: Reprodução/site abi.org.br

Deixe uma resposta