Você me desculpa?

Levante a mão e jure que você nunca fez nada de que tenha se arrependido. Ninguém consegue. O erro, a falha, a pisada de bola são características de nossa mutilada condição humana. Ninguém escapa.
O pedido de perdão nem sempre é absolvição, não garante que o cristal quebrado possa ser colado e abrigue flores novamente; mas ele é necessário. Quando o erro é reconhecido, discutido, arrependido, é a hora de falar e seguir pela difícil tarefa de entregar ao outro as expectativas do momento. O negócio é criar coragem, puxar fôlego e explicar tim-tim por tim-tim.
Se você fica sem palavras em momentos assim, aproveite as dicas dos poetas da MPB e faça das deles as suas.

A começar por Tim Maia, que nem disfarçava o pedido e ia logo assumindo todas as responsabilidades pelas mancadas da relação, um Réu Confesso: “Venho lhe dizer / Se algo andou errado / Eu fui o culpado, rogo seu perdão / Venho lhe seguir, lhe pedir desculpas / Foi por minha culpa a separação / Devo admitir que sou réu confesso / E por isso eu peço / Peço pra voltar”.

Vinícius de Moraes. Foto: Reprodução/site viniciusdemoraes.com.br

Vinícius de Moraes. Foto: Reprodução/site viniciusdemoraes.com.br

Vinicius de Moraes, que tinha latim para todos os assuntos, contou (a seu favor, claro) que a mulher foi feita para o amor e o perdão. O disparate tem graça nos versos do poeta e ele abusa do tema, e dos perdões. Uns exemplos: com Jobim o clássico da Bossa Nova, Insensatez: “Vai, meu coração, pede perdão  / Perdão apaixonado  / Vai, porque quem não pede perdão / Não é nunca perdoado”; com Baden Powell, a tristeza em Apelo: “Ah, minha amada, me perdoa / Pois embora ainda te doa / A tristeza que causei / Eu te suplico não destruas / Tantas coisas que são tuas / Por um mal que já paguei” e com Toquinho, o entendimento das palavras de Shakespeare, de que nada encoraja tanto ao pecador como perdão; e todo mundo sabe que isso também acaba, chega um dia que a paciência se esgota; em Regra Três, os dois trataram disso: “Depois perdeu a esperança / Porque o perdão também cansa de perdoar ”.

E aqueles que fazem papelão terrível quando o sangue ferve? Que gritam, pintam o diabo e depois se arrependem? Para esses a MPB empresta solução. Para Rita Lee e Roberto de Carvalho, vale até a promessa de esforços intergalácticos: “Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você/ Foi ciúme sim/ Fiz greve de fome/ Guerrilhas, motins/ Perdi a cabeça/ Esqueça[…] Nosso amor vale tanto/ Por você vou roubar/ Os anéis de Saturno”.

Cuidado! Quando o mal causado não tem perdão, não adianta chorumelas, um coração realmente ferido nem sempre está disposto à generosidade da outra face. Foi o que nos ensinou Cartola: “Basta de clamares inocência/ Eu sei todo o mal que a mim você fez/ Você desconhece consciência/ Só deseja o mal a quem o bem te fez/ Basta não ajoelhes, vá embora /Se estás arrependido/ Vê se chora”.

O bandolim de Jacob tocou Doce de Coco, João Pacífico colocou versos (essa primeira versão é da década de 1950): “Vem meu amor / Oh, meu doce de coco, adoçar a minha boca / vem me amar, me querer, me beijar / Se os teus lábios quisessem matar meu desejo louco / Como eu seria feliz, oh, meu doce de coco!”.

Depois, Hermínio Bello de Carvalho tascou-lhe letra como último recurso de um belíssimo pedido para reconsideração e essa é a versão que mais conhecemos nos atuais dias: “Venho implorar/ Pra você repensar em nós dois/ Não demolir o que ainda restou pra depois […] Se o problema é pedir, implorar/ Vem aqui, fica aqui/ Pisa aqui neste meu coração/ Que é só teu, todinho teu”.

E quem não ouviu Nelson Rodrigues quando ele disse “não se apresse em perdoar, a misericórdia também corrompe”, desculpou de pronto e depois não encontrou eco em sua ação? Para esse tipo de situação, Carlos Coqueijo e Alcyvando Luz emprestaram composição: “Madrugada já rompeu /Você vai me abandonar/ Eu sinto que o perdão / Você não mereceu /Eu quis a ilusão / E agora a dor sou eu”.

Nelson Rodrigues. Foto: J. Antonio/CPDOC-JB. Rio de Janeiro, 1965

Nelson Rodrigues. Foto: J. Antonio/CPDOC-JB. Rio de Janeiro, 1965

Tem também quem se arrependa de ter se arrependido. A triste constatação em que chegaram Dolores Duran e Fernando Cesar é de cortar o coração. Ora bolas!, até o remorso deve ter limite e motivo claros: “Maldita hora em que eu pedi perdão/ E tanto me humilhei/ Maldito pranto do arrependimento/ Que tanto chorei/ Agora eu sinto as horas que passei/ Acusando a mim mesma /E querendo morrer/ Quando eu devia apenas não pensar/ Sorrir e não sofrer”.

Se esta coluna tratasse de enumerar tipo Top 10, as mais mais de cada tema, certamente seria lá na obra de Chico Buarque que encontraria a primeiríssima colocada. Mil Perdões, escrita em 1983 para o filme Perdoa-me por me traíres, de Braz Chediak, baseado em texto de Nelson Rodrigues, ganha em todo tipo de quesito. Ironia e paciência, inteligência e sarcasmo, atenção e indiferença, generosidade e perversidade ficam ali, lado a lado, a figurar pedido e aceite tudo ao mesmo tempo. A coluna se despede com o revirar de causas e consequências de Chico: “Te perdoo / Por fazeres mil perguntas / Que em vidas que andam juntas / Ninguém faz / Te perdoo / Por pedires perdão / Por me amares demais […]Te perdoo / Por contares minhas horas / Nas minhas demoras por aí / Te perdoo / Te perdoo porque choras / Quando eu choro de rir / Te perdoo / Por te trair”.

 

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