Às pesquisas

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Murilo Hidalgo, diretor do instituto Paraná Pesquisas

 

O diretor do instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, comenta sobre as pesquisas de intenção de voto das eleições de 2014

 

As eleições deste ano causaram variados reboliços. Nunca depois da redemocratização uma votação havia sido tão apertada, nunca tivemos três candidatos capazes de se eleger e sempre as pesquisas erraram.
As pesquisas sempre foram alvo de críticas por parte de políticos, jornalistas e eleitores mais atentos. Também estão na mira de mal intencionados que insistem em dizer que os institutos são comprados pelos políticos, partidos ou empresas interessadas, essas informações não são certas, mas a pulga fica atrás da orelha.

Algumas coisas se confirmam, outras não. Depois do resultado do primeiro turno, os institutos de pesquisa, sobretudo Ibope e Datafolha, tiveram que dar melhores explicações para o equívoco entre os números apresentados nas urnas e os números apresentados nas pesquisas.

Um dia antes das eleições, sábado, 4 de outubro, Ibope e Datafolha publicaram pesquisas de intenção de voto para os presidentes. Dilma Rousseff (PT) aparecia na liderança, de acordo com o Ibope, com 46%. Aécio Neves (PSDB), que estava praticamente morto, foi reacendido na reta final do primeiro turno, marcava 27%. E Marina Silva, que fez um ótimo desempenho na corrida eleitoral desde agosto, quando tomou o lugar do falecido Eduardo Campos, teve o efeito contrário do tucano, um dia antes era preferida por 24% do eleitorado.

 

“O maior problema dos políticos quando aparecem mal nas pesquisas não é nem o resultado da eleição, é financeiro, se cair nas pesquisas a fonte começa a secar.”

 

O Datafolha trazia basicamente os mesmos números, Dilma com 44%; Aécio com 26%; e Marina com 24%. Dentro da margem de erro, que em ambos os institutos oscilava dois pontos percentuais para mais ou para menos, os resultados eram iguais.
Tais pesquisas trazem uma confiabilidade de 95%, mas se tem gente que não acredita em Deus, deve haver quem não acredite em pesquisas, para esses existe uma margem de 5% que garante o argumento.

Se nas eleições fôssemos depender da existência ou não do soberano criador, deus, como disse Nietzsche, estaríamos mortos. Os resultados não estavam dentro da margem de erro. Dilma Rousseff fez 41,59% dos votos válidos. Aécio, como apontavam as últimas pesquisas, foi para o segundo turno, porém com uma porcentagem deveras maior, marcou 33,55%. Marina Silva atingiu 21%. Ou seja, nenhum dos percentuais estava dentro da margem de erro. Os institutos erraram, fato consumado.

Murilo Hidalgo, diretor do instituto Paraná Pesquisas, que entrou pela primeira vez em âmbito nacional realizando pesquisa de intenções de voto junto à revista Época, não considera um erro a enorme diferença no caso de Aécio Neves, muito criticado pela imprensa nacional e por cientistas políticos. De acordo com ele, “Aécio veio numa curva muito ascendente que não conseguiram captar”.

O que se deve ter em mente é que pesquisas retratam uma possível realidade e não uma realidade de fato. Hidalgo observa que “no segundo turno os institutos acertaram nas pesquisas, ninguém falou em erro de metodologia, só falam em metodologia quando esta erra. Acho que ela é correta, porém pesquisa é a fotografia daquele momento em que você está pesquisando”.

 

“O Eduardo Campos me falou antes de morrer, ‘Murilo, com essas pesquisas eu não consigo dinheiro pra nada’.”

 

Hidalgo considera o erro do Ibope no segundo turno, quando apontou uma diferença de 8% para Dilma em relação ao tucano, muito mais prejudicial do que o do primeiro. “O erro do Ibope no segundo turno foi muito maior do que no primeiro, o que a Veja fez lá, o Ibope fez aqui”, disse a fazer referência entre a capa da Veja que começou a circular na sexta-feira pré-eleições, com a foto de Lula e Dilma dizendo “Eles sabiam de tudo” (sobre o caso Petrolão), e os 8% que o Ibope “deu” para Dilma.

Com os erros das pesquisas e os boatos de fraude não foi incomum ouvir o discurso de que se deve proibir pesquisa eleitoral. “Não adianta proibir pesquisa, o boato é pior que a pesquisa”, afirma o diretor do Paraná Pesquisas. E conclui: “A pesquisa é algo que alimenta a política […] quem mais nos critica é quem mais nos contrata, que são os políticos. Quando a pesquisa é favorável é bom, quando não é, não presta”.

Hidalgo também prefere não acreditar em fraude e zomba do assunto, “eu nunca fraudei e pretendo não fraudar, mas quando me perguntam se eu posso fazer uma pesquisa fraudada, em tom de brincadeira eu digo: ‘se é pra fraudar não vamos fazer, não subestime minha inteligência’”.

Nunca antes no Paraná houve um instituto que chegasse a ter representatividade nacional em pesquisas eleitorais como teve o Paraná Pesquisas, Hidalgo fala que é difícil furar a bolha onde estão Ibope e Datafolha, mas que há espaço para novos institutos. “O Brasil clama por mais empresas de pesquisas, o Ibope e o Datafolha estão muito desgastados.”

O que perpetua os dois na linha de frente são os órgãos em que são vinculados seus resultados, se ambos passarem a veicular suas pesquisas em sites, jornais ou emissoras de menor credibilidade, inevitavelmente perderão o “monopólio”. Sobre isso Hidalgo fala que “o eleitorado não dá mais credibilidade pro Ibope e pro Datafolha, isso está provado, ele dá credibilidade ao órgão que divulga. A credibilidade não é do Ibope nem do Datafolha, é do meio de comunicação. O instituto não é forte, forte é quem dá a notícia”.

E também não tem nem porque dar mais motivo a um ou a outro instituto, pois os entrevistadores são basicamente os mesmos, as tecnologias são as mesmas, a metodologia usada também.

Mas Murilo Hidalgo está entusiasmado com a repercussão de sua pesquisa. “A pesquisa realizada por nós bateu recorde em compartilhamentos [no Facebook] da revista Época (veículo que divulgou). Foram 18 mil compartilhamentos.”

 

“Pra entrar no jogo nacional de pesquisas você tem que estar muito bem estruturado psicologicamente. Apanhei muito, o jogo é muito pesado.”

 

O outro lado é que após as eleições os institutos de pesquisa não têm mais demanda de trabalho, empresas não possuem interesse, nem caixa disponível para esse tipo de gasto. “Eu tinha em média quatorze funcionários [durante o período eleitoral], hoje tenho dois, o que isso significa? Falta de demanda. Não tem meio de comunicação capaz de contratar uma pesquisa, exceto a Globo, Record, a Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo. Quem paga as pesquisas eleitorais é o próprio instituto. As cinco primeiras pesquisas do Ibope e as cinco primeiras do Datafolha foram eles que pagaram.”

Além da experiência em âmbito nacional, Murilo Hidalgo percebeu outras coisas nesta corrida eleitoral. As mídias sociais estão a ganhar cada vez mais espaço, talvez o maior espaço. “Não se faz mais campanha na rua, nesta eleição ficou muito claro isso. Ou as pessoas aprendem a fazer campanha pelo computador ou elas estão lascadas. O próximo cavalete vai ter que ser eletrônico”, afirmou.

O fato é que acreditamos em pesquisas com o pé atrás, mas elas tornam-se necessárias, não só para alimentar a política, como disse Hidalgo, mas também para aumentar a expectativa e dar mais emoção ao eleitorado brasileiro.

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