Depois da vitória, a tempestade

01-ec

A reeleição de Dilma Rousseff, do PT, contrariou uma tendência universal na política. Ela venceu com inflação, estagnação econômica e desmoralizante sequência de escândalos de corrupção em seu partido e em seu governo. Venceu, é verdade, nos grotões e nos fundões. Perdeu nas grandes cidades, nas áreas de economia desenvolvida, onde devem viver as porções da população mais informada e mais sensíveis aos descompassos na economia.
Mas venceu. Passou a campanha eleitoral sem dizer o que fará para recuperar a economia. Nem sequer admitiu que há dificuldades gritantes. Jamais admitiu a necessidade de retificar os rumos da política econômica. Apenas demitiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que continuou no cargo.

Os fatos desmentem seu otimismo. Um exemplo emblemático: a meta de economizar 1,9% do PIB para o pagamento de juros não será cumprida. Dos R$ 81 bi que cabem ao governo central, Dilma Rousseff sabe que só conseguiu salvar R$ 300 milhões. Uma porcentagem ridícula e vexatória para quem se supõe a grande condottiere de um país de cerca de 200 milhões de habitantes, boa parte ainda a viver em condições de precariedade, o que não deixa de ser uma parte da explicação para o resultado eleitoral.

As ações da Petrobras despencam ao sabor dos acontecimentos e do entendimento de que o papel está caro ou barato. O problema é que essa instabilidade no valor dos ativos cria a sensação de que o país está vulnerável. O dólar sobe e trava o comércio exterior. Quem exporta, por exemplo, espera para saber até onde vai a cotação. Mesmo com a atuação pesada do Banco Central, a moeda americana está muito volátil. É muito ruim para a balança comercial, que está com déficit.

Ora, pois, há quem diga que a execução dos programas sociais deram a Dilma a confiança das populações mais carentes. Mas também neste item seu governo não foi exemplar. Basta ver o estudo feito pelo Conselho Federal de Medicina revela que o Ministério da Saúde deixou de aplicar, desde 2003, inicio do governo petista, até agora, cerca de R$ 131 bilhões no Sistema Único de Saúde (SUS).

O valor é equivalente ao que Estados e municípios gastaram no setor durante todo o ano passado – cerca de R$ 142 bilhões. Para o Conselho, os dados comprovam em detalhes os resultados da falta de qualidade da gestão financeira em saúde. Com esse dinheiro, seria possível construir 320 mil Unidades de Saúde (com Equipe de Saúde em Família), edificar 93 mil Unidades de Pronto-Atendimento (com capacidade de atender 450 pacientes por dia) ou ainda aumentar em quase três mil o número de hospitais públicos de médio porte.

Tudo bem, como costuma repetir as almas parvas e os fanáticos do petismo. Afinal, o povo que vota em Dilma nem considera os números e suas consequências. E Dilma está pouco se importando com a falta de confiança dos setores mais altos da pirâmide social, que ela trata como se fossem vilões e responsáveis pela situação. Como se vê, uma grotesca inversão de papéis.

Pois, bem, os índices de confiança do empresariado estão em níveis muito baixos. Isso trava investimentos em construções e contratações. Confiança, acreditar que o futuro será melhor, é matéria-prima fundamental para o crescimento econômico, e ele vai ajudar a vencer os problemas do crescimento zero e da inflação alta.

O governo repete em mantra os números de repasses do BNDES, mas o fato é que nem isso tem sido capaz de segurar os investimentos, que caem há muitos trimestres, como mostra o IBGE. Há também um vácuo na economia. O ministro não será o Mantega. Ninguém sabe quem assumirá em seu lugar.

Alguns nomes que circulam significam mais do mesmo, por estarem muito próximos às políticas adotadas até agora. Mas dependendo de quem for escolhido, pode restabelecer a confiança do mercado, da economia real.

A inflação pode dar uma pequena trégua no fim do ano, inclusive porque o indicador de dezembro de 2013 foi muito alto, em 0,92%. Uma queda na margem, entretanto, não deve enganar o governo. A inflação segue persistente com o nível de atividade baixa. Aumentar o juro assim pode derrubar mais ainda a economia. Aprisionado nesse dilema, o Copom se reúne entre terça-feira e quarta-feira dessa semana.

Há muito trabalho a ser feito para que 2015 seja melhor do que esse ano, que foi muito ruim na economia. Quanto mais rápido o governo acertar, mais fácil será passar pelo ajuste e retomar o crescimento.
O problema é que a presidente Dilma Rousseff e seu governo, cercado por todos os lados pela turma de Lula e o PT, não quer mudar de atitude e de comportamento. A Bolsa de Valores cai. Dilma dá de ombros. A dissimulação da crise pode ser péssima para os negócios. Mas foi eficiente para a reeleição, diante de uma oposição que não conseguiu fazer críticas mais contundentes e claras. No último debate, o máximo que Aécio Neves conseguiu foi evocar uma notícia que lera no jornal sobre o renascimento do hábito de estocar alimentos para provar que o medo da inflação está de volta. Não mais.

O otimismo das parcelas que reelegeram Dilma Rousseff não encontra amparo nos fatos. Em setembro, puxada pela alta dos alimentos, a inflação bateu em 6,75%, acima da margem de tolerância do governo, que é de 6,5%. Mas metade do eleitorado enxergou em Dilma a solução, não o problema. Dilma demitiu seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, que trabalha na Esplanada em regime de aviso prévio. Ela dispensa porta-vozes econômicos. Em matéria de economia, prefere o silêncio. Não tem muito a dizer. Apenas repete o seu mantra: vivemos em situação de pleno emprego.

Aécio prometia restabelecer o tripé instituído no governo de Fernando Henrique Cardoso: metas para a inflação, taxa de câmbio flutuante e superávit nas contas públicas. Dilma mandou o tripé às favas faz três anos. Como dizia o finado Eduardo Campos, madame entregará um Brasil pior do que o país que recebeu de Lula. Mas ela se comparava a FHC, não ao antecessor.

A quatro dias da eleição, o mutismo econômico de Dilma estabeleceu um dilema. Metade dos brasileiros estão nervosos porque Dilma diz que a economia vai bem mas sabe que ela está mentindo e prepara ajustes para o caso de ser reeleita. A outra metade está nervosa porque Dilma diz que a economia vai bem e sabe que ela acredita mesmo nisso e não preparou nenhum ajuste.

Antes de obter a vantagem numérica sobre Aécio, Dilma também estava nervosa. Não sabia se dizia que faria ajustes que ainda não preparou ou se preparava os ajustes e não dizia. Ou vice-versa.

O anúncio de que o Brasil se encontrava no que os especialistas denominam de “recessão técnica” apareceu em todos os jornais e telejornais, em 29 de agosto, e desde então foi um assunto recorrente para os opositores de Dilma Rousseff. Neves lembrava a presidente em cada debate que o país cresceu, em média, ao longo dos quatro anos, uma magra porcentagem de 1,6%, muito longe das taxas que assombraram o mundo há uma década. E que agora o país encontra-se estancado, com a indústria relutante e os investidores sem confiança.

Repeti com insistência que o modelo que Lula iniciou em 2003 e que Rousseff continuou está esgotado e que é necessário mudar para impulsionar a economia. Rousseff defendeu-se dizendo que a conjuntura internacional prejudicou os interesses brasileiros; e sempre lembrou que o desemprego está em 5%. Não apenas os empresários olham constantemente para a economia. Também a economia está olhando constantemente para os seus atores: cada vez que Rousseff subia nas pesquisas, a bolsa caía e o real se desvalorizava. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) opera em queda nesta segunda-feira (27), reagindo ao resultado das eleições presidenciais da véspera, que mostraram a reeleição da presidente Dilma Rousseff, por uma margem apertada.

 

Saiba mais

02-ec

No dia seguinte à vitória de Dilma, na segunda feira, 26, o dólar operou em alta e passou dos R$ 2,50. As ações da Petrobras despencavam perto de 12%. As ações da Eletrobrás também tinham queda acima desse patamar.

As ações do Banco do Brasil, por sua vez, caíam mais de 7%, após terem despencado 12% mais cedo.
Ações do setor imobiliário e dos bancos privados Itaú e Bradesco também apresentavam queda acentuada com a definição do próximo governo. Uma das principais insatisfações de operadores e analistas vinha do que consideram como intervenção excessiva nas estatais que, em sua visão, deve persistir com a continuidade de Dilma no Palácio do Planalto.

O analista Marco Aurélio Barbosa, da CM Capital Markets, disse em nota que há vários pontos na agenda econômica (política fiscal e monetária) e política (reforma política e combate à corrupção) que devem nortear as ações do governo nessa virada de mandato, e podem ser decisivos para o mercado financeiro.

“Se o governo agir rápido, pode retomar um certo nível de confiança reduzindo a volatilidade e abrindo espaço para a retomada dos investimentos”, escreveu a clientes. Mas, todos sabemos, até aqui velocidade não é o forte do PT quando se trata de revisar políticas e métodos de gestão. É aguardar, torcendo para que o pior não se consume. Prova disso é que um dia após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, o encarregado de dar os primeiros sinais sobre a política econômica no segundo mandato foi o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que não permanecerá no governo. Enquanto Dilma não anuncia quem será o comandante da economia a partir de 2015, Mantega assumiu o papel de porta-voz e disse que a vitória da presidente mostra que a população aprova a atual política.
— Estou feliz com o resultado das eleições. Isso mostra que a população está aprovando a política econômica que nós estamos praticando — disse o ministro.

Segundo ele, o mercado financeiro brasileiro está reagindo mal nesta segunda-feira devido não apenas às eleições, mas a um problema internacional, pois há uma queda nos preços das commodities que afeta todas as bolsas. Mas, para Mantega, o quadro tende a melhorar:
Mantega afirmou que o governo Dilma está comprometido com os fundamentos da economia, especialmente o fortalecimento da política fiscal e o combate à inflação:
O ministro disse que novos incentivos serão adotados ainda este ano, mas não citou quais serão eles: O ministro também evitou dar detalhes sobre o que será feito na área fiscal para reequilibrar as contas públicas. Ele se limitou a dizer que o superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) será mais alto em 2015. E disse que, em 2014, o governo fará o maior resultado possível. Embora a meta de primário deste ano seja de R$ 99 bilhões, o resultado acumulado no ano é de apenas R$ 10,2 bilhões.

Mantega também foi questionado sobre quem deveria ser o próximo ministro da Fazenda. Ele afirmou que essa decisão não cabe a ele, mas que o mais importante é a política e não a pessoa:
— Para além do nome, o importante são as políticas. Isso é o que importa. Eu acabei de mencionar os passos que precisam ser dados. Não cabe a mim falar em nome de ministros.
Pois, pois, aos brasileiros resta orar e torcer pelo melhor.

Leia mais

Deixe uma resposta