Inúteis preciosidades

Decanter-Bono

Tenho um armário repleto delas, essas traquitanas pensadas para supostamente facilitar a vida do apreciador de vinhos.Vieram, em sua maioria, de amigos e parentes bem intencionados, mas nem sempre atentos à praticidade dos artefatos. Nas datas em que se costuma presentear chovem, entre uma infinidade de eteceteras, cortadores de cápsulas, champanheiras, decantares, saca-rolhas, funis, insólitos tampões destinados a conservar ad aeternum o vinho que sobrou na garrafa. A volúpia de agregar sofisticação e zeros ao preço desata o labor criativo dos fabricantes. Ricamente ornado com metais preciosos, o saca-rolhas vira joia. E já vi decantares assumindo o formato de cisnes, patos, corcéis, um deles com o longo pescoço do bocal se retorcendo em laços e nós, peça que arrancaria invejosos suspiros até mesmo da enlouquecida imaginação de Dali. É muito capricho na forma, nos acabamentos, e a função que se lixe.

Ninguém precisa disso. O arsenal pode ser mínimo e básico. Veja o caso do saca-rolhas. Ganhei um, imenso, repleto de botões e engrenagens de ajuste que tornam o ato de abrir a garrafa uma insensata exibição tecnológica. Pois não destrona o antigo utensílio manual sabiamente preferido pelos profissionais. Dispensa cortador de cápsula, já que traz uma lâmina embutida na lateral. Nele o importante é que a espiral metálica seja robusta para aderir bem à cortiça, e que a aba de apoio da alavanca tenha dois estágios – o primeiro apenas desloca a rolha; o segundo, agora com a espiral inserida por inteiro, completa a operação. A inserção parcial, pela metade, causa muitas vezes o rompimento da rolha. Aí, sacar a metade que ficou no gargalo é um perrengue. Parte sai e parte afunda no vinho, poluindo-o com seus fragmentos.

Decânteres não podem faltar, mas que sejam funcionais, bojudos na base para permitir a boa aeração da bebida. Nos vinhos velhos, a passagem pelo decanter aviva aromas e sabores até então adormecidos; nos jovens, a oxigenação, por breve que seja, atenua exuberâncias próprias da idade. Champanheira também é prioridade. Há vários modelos, alguns em plástico ou acrílico, leves e bem acessíveis. Mas o investimento maior, e justificado, é nos copos. Um erro achar supérfluo ter copos especiais para cada estilo de vinho. Está exaustivamente provado que tintos velhos, austeros, expressam melhor seus dotes quando servidos em taças adequadas, de corpo amplo, diferentes das usadas para vinhos mais simples. Vale o mesmo para os brancos, espumantes e fortificados.

No mais, utensílios não são essenciais. O anel metálico posto no gargalo na hora de servir salva a toalha das infalíveis gotas que sempre escorrem para fora. Tem quem não dispense o termômetro para aferir a temperatura da bebida. Já o funil com coador embutido ajuda na filtragem das borras ou de fragmentos resultantes de algum desastre com a rolha. A propósito, apetrecho útil para descolar rolhas de vinhos antigos, que criam forte aderência, é aquele dotado de duas finas hastes laterais. Introduzidas entre o gargalo e a cortiça, elas ajudam a liberá-la com um movimento de torção, facilitando depois a ação do saca-rolhas. Copos à parte, essas traquitanas não chegam a lotar um armário. Basta uma prateleira.

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