Lado A

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A discoteca da Rádio e-Paraná, um ano após seu tombamento

 

O vinil tem seu charme para muitos, dizem que a qualidade do som é melhor, não é tão comprimido quanto um arquivo digital ou CD e, sobretudo, tem o ritual: tirar o vinil do encarte, ler o encarte, colocar o bolachão no toca-discos e acertar a agulha na faixa desejada, fazer tudo isso é tão bom quanto a própria música. Ele é tão sedutor que artistas entraram numa moda de lançar álbuns em vinil: Criolo, Fernanda Takai, Cachorro Grande, Nação Zumbi e Pitty são alguns. Mas, convenhamos, quando vamos fazer a faxina na casa é muito mais fácil ligar o computador, abrir a pasta samba e pôr no aleatório. Em duas ou três horas de limpeza viajamos de Noel Rosa a Paulinho da Viola, de Cartola a Hamilton de Holanda sem ter que parar de varrer para pôr o lado A ou o lado B.

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Foto: Lina Faria

Os próprios CDs já estão a se tornar difíceis de se escutar; em um pen drive de 4GB cabe uma porção de músicas. O pen drive é, como diz o Caetano, “mega bom, giga bom, tera bom”. Os que insistem em permanecer agarrados à velha tecnologia deveriam abrir os corações para a coisa nova, ela é boa, ela é prática. Podemos ser programadores da nossa própria rádio, só é preciso ter um Ipod ou um pen drive.

Os vinis, no entanto, indiscutivelmente têm seu valor histórico e documental, grande parte da produção musical brasileira, por exemplo, foi feita no Long Player. Têm também o valor decorativo, para quem possui vários e os coloca na estante de casa fica tão bonito quanto livro. Para quem não dá muita importância e trata como coisa velha só serve para ocupar espaço no quartinho dos fundos.

Porém, não podemos nos desfazer deles como lixo, aliás, pessoas comuns até podem, cada um faz o que quer com suas coisas. Mas há lugares que não podem simplesmente digitalizá-los e depois deitar fora, seria como digitalizar documentos e moê-los no triturador de papel, pois há um compromisso com a história e que não pode ser deixado à margem. Por isso que há discotecas.

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Foto: Lina Faria

Aqui na terra tupiniquim temos algumas relevantes, como a Oneyda Alvarenga, que tem como destaque de seu acervo os documentos da Missão de Pesquisas Folclóricas, idealizada e organizada por Mário de Andrade, quando estava à frente do Departamento de Cultura de São Paulo, e tinha como objetivo registrar as manifestações culturais e folclóricas do Norte e Nordeste do país. A Missão visitou cinco cidades em Pernambuco, dezoito na Paraíba, duas no Piauí, uma no Ceará, uma no Maranhão e uma no Pará.Oneyda Alvarenga era aluna de Mário de Andrade e coube a ela catalogar todo o material, que incluía objetos, fonogramas, filmes e fotografias, além de transcrições de anotações em cadernetas e documentos. Tudo isso garantiu à discoteca o reconhecimento como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mas ela também tem discos de música clássica e popular, estrangeira e nacional. Sem contar que está aberta ao público para audições.

Outra de considerável destaque é a discoteca da Fundação Padre Anchieta. A fundação conta com a TV Cultura e as rádios Cultura (FM) – que trabalha com o repertório clássico – e a Cultura Brasil (AM) – voltada à programação popular. A discoteca da FPA tem 225 mil suportes de áudio (LP, CD, DAT). Não à toa, ambas as rádios são referências em todo país. E há também a rádio MEC do Rio de Janeiro, que tem considerável acervo, porém um tanto sucateado.

 

E-Paraná

Aqui no Paraná uma das mais significativas discotecas que temos é a da rádio pública, hoje e-Paraná, mas ela já teve vários outros nomes e caras.
Tudo começou em 1953 quando o governador Bento Munhoz da Rocha Neto decretou a criação da rádio pública na comemoração do centenário da emancipação política, o caráter seria cultural e didático. Ela só veio ao ar, no entanto, dois anos depois, em setembro de 1955, com Aluízio Finzetto como responsável, se chamava Rádio do Colégio Estadual do Paraná, obviamente porque suas instalações estavam dentro do colégio. Eram duas salinhas, operava das 8 às 19 horas e podia-se ouvir música clássica e aulas de línguas: inglês, alemão e italiano.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Finzetto permaneceu à frente da rádio até a década de 1970, quando passou a bola para Sérgio Mercer. Na década de 1980, o diretor José Maria de Azevedo abriu espaço, ainda que pouco, para o repertório popular. Em 1992, sob o comando de Débora Yankilevitch, a rádio teve mudanças, ganhou espaço no dial FM, lá pros finalmentes com o prefixo 107.9 e passou-se a chamar “Educativa”. Nessa altura, a programação jovem e pop foi inserida na programação.

Em 1994, após negociações, a Educativa conseguiu passar para o meio do dial e adotou o prefixo 97.1, utilizado até hoje, e José de Melo foi escolhido para a direção artística. Nessa época a Rádio Educativa conseguiu diversificar sua programação, porém voltada à música, informação, educação e cultura, a honrar o nome “Educativa”. Foram criados dezoito programas que se multiplicaram em mais de cinquenta e na sua programação era possível ouvir de Pixinguinha a Bach.

Em 2003, Paulo Chaves assumiu as rádios (AM e FM) e deu mais espaço para artistas locais, coisa que fez com quase exclusividade Fernando Tupan em 2011. No entanto, Tupan ficou no cargo por pouco mais de um mês, nesse período a rádio passou a receber muitas críticas de seu público, que estava acostumado com determinada programação, que ele mudou do vinho pra água.

Mas em março de 2011 Adriana Sydor assume a direção das rádios e volta com a sua programação. Ela diz que na época como diretora ouvia a rádio 48 horas por dia, 24 para a FM e 24 para a AM. Nesse período houve maior proximidade com os ouvintes, com a criação dos programas de auditório, que eram abertos ao público e transmitidos simultaneamente na rádio. A programação voltou a atender os amantes de música clássica e de choro, com breves noticiários no meio da programação. Atualmente a direção artística da rádio está por conta de Darci do Espírito Santo.

 

Acervo

Durante as gestões foi adquirido um vasto acervo na rádio, de vinis, CDs e arquivos digitais. Ora de doações, ora distribuição ou material de divulgação. Darci do Espírito Santo viu de perto a construção desse acervo pelo menos desde 1980, e se tornou o “dono” da discoteca, cuida para serem devidamente catalogados, preservados e guardados – se um vinil é guardado no escaninho errado, esqueça, só achará por acaso em outra ocasião ou nunca mais se terá notícia dele.

Para cada novo funcionário que chega à discoteca Prof. Alceu Schwab, Darci passa um tutorial de como ela deve ser usada. Lembro que em 2 de fevereiro de 2010, quando cheguei, ele me disse “nunca deixe o disco assim, senão ele rola e cai, sempre virado para cima”. Nos dois anos em que lá trabalhei, ele mostrou o valor que tem um vinil bem cuidado.

O nome da discoteca foi uma homenagem a um antigo colaborador da rádio. Em tempos difíceis, onde a internet não imperava e não era possível “googlar” o álbum de determinado disco, o professor Alceu foi um dos responsáveis pela contribuição com várias informações (recortes de jornais, encartes de discos, discos, etc).

O acervo da discoteca conta com quase 30 mil suportes (vinis, CDs e arquivos digitais) e não poderia correr o risco de ser violado – como aconteceu uma vez de um diretor que com o ego inflado pelo cargo quis retirar os vinis da discoteca para fazer lá seu gabinete. Uma coleção tão expressiva, uma das maiores do Estado, merecia um tratamento ainda melhor.

 

Tombamento
Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Em 2012, Adriana Sydor, diretora das rádios na ocasião, percebeu o valor da discoteca, deu início ao processo de tombamento e fez o pedido junto à Coordenação do Patrimônio Cultural. O historiador do órgão, Aimoré Índio do Brasil Arantes, disse que ficou satisfeitíssimo com o pedido, salienta que muitas rádios não têm o devido cuidado com seu acervo e essa era uma oportunidade para não deixar acontecer com a e-Paraná. Não sabia, no entanto, que lá já havia a noção de cuidado com o bem público e já tratavam a discoteca como patrimônio.

Aimoré disse que o pedido de tombamento feito por Adriana foi aceito pelo conselho por unanimidade, e em novembro de 2013 a discoteca tornava-se oficialmente um Patrimônio do Estado do Paraná.
Um ano depois, a Ideias voltou lá para ver o que tinha mudado. Darci disse que basicamente nada, mas isso não é uma má notícia, pois os vinis já ficavam em salas refrigeradas e devidamente catalogados. Ele falou também que o que está faltando é mais uma prateleira ser feita, pois chegaram muitos vinis e não tem onde pô-los, porém, de acordo com ele, já está a ser providenciada. E, por fim, o catálogo do acervo está 100% digitalizado, anteriormente tinha-se que procurar numa pasta.

 

Público

Anos atrás se cogitou abrir a discoteca para audição pública, como faz a Oneyda Alvarenga, porém o projeto não foi muito bem recebido pelos funcionários da rádio, o argumento era: se o volume de pessoas que visitassem a discoteca fosse demasiado grande, os vinis com o tempo poderiam se deteriorar e eles não estão lá de enfeite apenas, os programadores, técnicos de som, produtores, etc., os usam na labuta diária. Caiu por terra, a audição pública não foi aprovada, mas como patrimônio do Estado, está aberta para o público, ninguém será barrado na entrada.

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