Música Erudita. Ed. 157 – Hildegard von Bingen, doutora, santa, compositora

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Foto: Reprodução/site rentrer.fr

Ela viveu na Idade Média, período considerado das trevas, mas trouxe a luz. Dizem que, aos três anos, sofreu o que chamou de visio, “reflexo da luz viva”, e isso lhe deu um conhecimento intuitivo. A partir daí, sua vida mudou.

Hildegard von Bingen (1098-1179) nasceu em Mainz, Alemanha. Oferecida pelos pais como “dízimo”, foi na ordem beneditina que tomou conhecimento das primeiras letras, lendo o Livro dos Salmos e da música sacra pelos cânticos.

Ao longo do tempo, as visões de Hildegard passaram a chamar a atenção da Igreja e de reis, que, a princípio, a condenaram, mas cederam, ante as assertivas de muitas dessas profecias.
Sua história é rica e farta, mulher de múltiplas facetas, foi profetisa, poeta, naturalista, teóloga. Tornou-se abadesa, e hoje a Abadia de Santa Hildegard, em Eibingen, guarda suas relíquias mortais.

Em sua vivência como freira não pode se dedicar aos estudos dentro dos padrões educacionais considerados elevados na Idade Média, e privilégio masculino, mas era sempre “intuída” a aprofundar-se nas mais diversas áreas. As vozes que lhe sussurravam conhecimentos a incumbiram de registrá-los numa obra intitulada Scivias (Saiba o caminho), que mais tarde foi reconhecida pelo Papa Eugênio 3° como palavras de Deus. Mas Hildegard, em sua humildade, assim se pronuncia em seus escritos:
“As palavras que digo não provêm de mim, mas eu as vejo em uma suprema visão […]. Conservo um lugar na memória para as coisas que apreendo na visão […].
Vejo, escuto e reconheço no mesmo instante e no mesmo instante apreendo. Mas não entendo aquilo que vejo, porque não estudei […]. Assim não acrescento outras palavras minhas àquilo que escutei na visão e me exprimo num latim não refinado […].
As palavras que escuto são como uma chama ardente, assemelhando-se a nuvens que se movem no ar. E no mesmo céu vejo o brilho, mas não frequentemente, de uma outra luz, que chamo luz vivente, que não sou capaz de explicar, nem como e nem quando.”
Mas aqui é para a sua música que quero chamar a atenção, pois compôs algumas das músicas mais belas que a Igreja católica conhece, em especial adoração à Nossa Senhora. Estilo próprio, diferente, que já nos primeiros acordes trata de nos aproximar do divino. Difícil ficar imune ao ritmo proposto, às palavras sagradas, à explosão de sentimentos, que nos catapultam à nossa centelha divina. Dizem que suas composições são baseadas nos cânticos celestes que ela ouvia dos anjos [acreditar em anjos é livre arbítrio].

A primeira música dela que ouvi foi O Euchari in Leta Via, com arranjo de Toni Castells e cantada pela soprano Rebecca Nelsen, especialista também em bel canto. A música veio até mim meio que por acaso, obra do destino. A impressão que tive ao ouvi-la foi de sublimidade, mas também de espanto, ao perceber na intensidade da música o alcance que exerceu.
Hildegard dizia que a música nos aproxima de Deus. E certamente a gênese de suas composições perpassa essa comunhão com o divino, para nos ser dada a posteriori como remédio para o corpo e para a alma. É o tipo de música que, mais do que ouvir com o coração, é preciso ouvir como se ouve a si mesmo, mas com complacência, com todo cuidado, pois não seremos mais os mesmos.

Há uma lenda que conta que “seu espírito, rejuvenescido, foi visto várias vezes andando e cantando pela capela, com uma doce expressão de júbilo no rosto. Ela cantava a sua mais conhecida canção: O virgia ac diadema (O ramo e a diadema).
A discografia é farta, mas é preciso garimpar nos sebos ou encomendar pelos sites confiáveis.

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