Na intimidade de um cinema pornô

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Foto: Lina Faria

Da antiga Cinelândia curitibana sobram os atuais espaços de exibição de filmes adultos no centro da cidade. Os últimos cinemas de rua apreendem um ecossistema peculiar, obscuro e que guarda pouco de épocas gloriosas

Uma subida escura com 47 lances de escada e doze reais de ingresso – sem meia-entrada – separam o espectador de Boas de B… Corpo a Corpo 6, um dos dois filmes da programação semanal do Cine Lido, na Rua Ermelino de Leão, centro de Curitiba. Na projeção, um homem de pênis avantajado (e excessivamente orientado à direita) galga uma loira razoavelmente bonita, de talvez uns trinta anos, de todos os modos possíveis – embora seja difícil esperar algo muito diferente disso em matéria de roteiro, interpretação e disposição física: estamos a falar do movimentado, pitoresco e um tanto acinzentado universo dos cinemas pornô de rua. Acredite: o filme é o de menos na composição dos ambientes.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Para os não iniciados no mundo da pornografia em tela grande, algumas dicas são importantes, embora os habitués percebam de longe quem nunca veio ao local. Dá para sacar no jeito de andar e observar os estímulos visuais da entrada. Não deixe seu celular visível. É expressamente proibido fotografar. Não pergunte muito, pois, de modo geral, os proprietários não gostam da imprensa e de cosplayers de jornalistas. Se estiver com mochila, sempre há um guarda-volumes. No Lido, fica no primeiro corredor, atrás da bilheteria. Há também, por ali, um bom american bar, com cervejas de latinha a três reais e batidas com potencial estomacal destruidor, mas que podem ser salvadoras. Portanto, não custa se informar dos custos. Ao lado do bar, mesas com cadeiras estofadas e uma jukebox com clássicos da dance music dos anos 1990. Se você gosta de Corona, provavelmente atingirá o orgasmo antes mesmo de chegar à sala de cinema propriamente dita. Na única mesa ocupada do bar, às 13h57 de uma quinta-feira, um vendedor de rua apresenta sua coleção de meias a uma mulher com cara de quem bebeu sete Cataratas do Iguaçu em forma de Ypioca no dia anterior. Tem promoção: três por dez reais. A mulher fica com um kit: vai servir bem no filho de sete anos, alega.

O público que frequenta cinema pornô é heterogêneo. São senhores de terno, trabalhadores braçais de calção e chinelo, homens jovens que fazem questão de expor suas genitálias quando passa alguém novo, muitos gays e garotas de programa, curiosos, estudantes, raras mulheres solteiras, turistas, gente fugindo do estresse do trabalho, como Fernando, que trabalha como bancário na agência da esquina. [Desculpe-me, Fernando, você pediu para que eu usasse um pseudônimo, mas me lembrei que o seu banco me cobrou algo que não eu não devia na fatura do mês passado.] Sempre há prostitutas dando expediente; algumas circulam de um endereço ao outro. Segundo as garotas, as casas não ganham nada com o trabalho na vertical ou na horizontal, dependendo da elasticidade da pessoa nas cadeiras e banheiros, mas é preciso autorização prévia dos donos dos estabelecimentos para que elas façam seus truques. Pagam o mesmo ingresso que todo mundo. Quando o ventilador não está ligado, suam em bicas.

Inaugurado em 17 de setembro de 1959, com Guerra e Paz, superprodução de Henry King baseada no romance de Liev Tolstói, o Cine Lido passou a assimilar programação “adulta” em 2007. Desde então, todos os dias, das 10h às 22 horas, o espaço exibe dois filmes. Nunca fica vazio, nunca, sendo os horários mais concorridos os de almoço e de fim de tarde. O Lido tem também uma segunda sede, o Lido II, na Rua Riachuelo, esquina com a Tobias de Macedo. A sucursal assumiu os espólios do antigo Cine Scala, menos prestigiado que a matriz. Numa terça-feira, 16 horas, sete pessoas se distribuem num cinema plano um pouco insalubre, para 165 lugares, ainda mais feérico que o Lido. Apenas uma mulher, uma prostituta de 59 anos, atende os cinéfilos. O telão passa Impulsos Sexuais, a história de um homem que chega para trocar o encanamento de uma casa e, de repente, é atacado.

De fato, a sinopse aqui também é secundária. Na primeira fileira, um homem com camiseta do System of a Down se masturba e espanta a prostituta velha que oferece auxílio. Ao canto, no fundo, um gordo careca chupa freneticamente um homem de calção do Corinthians e chinelo de dedo. Encosto-me na parede com minha ecobag para ver o cinema com mais angulação e reparar nas performances acrobáticas da morena no projetor. Enquanto devaneio se a posição da moça não causaria lombalgia – tenho problemas de lombalgia, preocupo-me com a saúde de meus semelhantes no que tange a este aspecto –, um senhorzinho de boné de candidato, ajeitando involuntariamente a dentadura, me cutuca e pergunta se pode me chupar. Seu olhar é enternecedor e patético ao mesmo tempo.

Pergunto novamente o que quer. Ele faz um movimento característico com as mãos. Dou um passo para o lado e abaixo a cabeça. O senhor lamenta, vai até o canto onde o gordo chupa o corintiano, encosta no ombro do torcedor que está de pé, faz o mesmo movimento manual a pouco executado, recebe um ok e começa a dividir o pênis com o gordo.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Os atuais cines pornô de rua já viveram dias de estrelato. O Cine Morgenau, na Rua Conselheiro Laurindo, por exemplo. Atualmente para 90 lugares, passou por várias sedes e atravessa de forma marcante a história do cinema paranaense. Foi fundado em 1919. Seu proprietário atual, Jorge Luis de Souza, o Jorginho, assumiu o negócio do pai, o maior cinemaníaco que Curitiba já conheceu. Seu acervo é de mais de cinco mil títulos e conta a história de mais de quatro décadas de tradição e glamour. Porém, desde meados dos anos 1980, o local se dedica exclusivamente ao pornô, com uma média de 40 frequentadores por dia. O início do empreendimento sexual coincide com a abertura do regime militar às fitas de conteúdo erótico, a chegada da indústria norte-americana – e do arrasa-quarteirão Garganta Profunda, aquele com a Linda Lovelace e a célebre frase: “Seu clitóris está escondido no fundo de sua garganta” –, a crise das salas populares e a constituição do chamado Circuito do Orgasmo na capital. Nesta época, além do Morgenau, o movimento compreendia as salas do Cine Glória I e II, na Praça Tiradentes; o Cine Rui Barbosa; o Cine Scala e o Cine São João, na Rua Desembargador Westphalen.

A bilheteira Amélia não está muito feliz com minhas perguntas e quer saber o que tanto olho. Digo que O Exibidor é um grande filme. Ela não me responde. O documentário, de pouco mais de vinte minutos, dirigido por Artur Ratton, conta a trajetória de Jorge de Souza através de declarações do proprietário e projetista. É bonito. É de chorar. É comovente. São tempos de matinês, faroestes, filmes do Mazzaropi e a tradicional semana da Sexta-Feira Santa, em que Souza sempre exibia A Paixão de Cristo. Estamos diante de um personagem melancólico e cândido engolido pelo tempo.

Enquanto percorro antigos cartazes e matérias de jornal coladas na parede do atual Morgenau, uma senhora sentada, amarga, me pergunta: “Você vê essas porcarias?”. Digo que não tenho nada contra os filmes pornográficos. Ela me corrige: “Estou falando das matérias. Essas porcarias”. Digo que sou jornalista e ela faz um “Ah…”. “Acontece o seguinte: os jornalistas inventam muito. Dizem que acontecem coisas que não acontecem.” Sei.
O Lido tem capacidade para 260 lugares. Naturalmente, não lota. São 13h45 e aproximadamente quarenta pessoas circulam como morcegos desenvoltos, em seu habitat natural. Sento na última fileira, na subida, próximo aos dois banheiros, que são unissex. Na parede, seis homens se masturbam, às vezes sozinhos, às vezes contando com o auxílio do transeunte ao lado, numa prova evidente de camaradagem e espírito esportivo. Lá embaixo, vejo uma loira dando uma surra de bunda em um sujeito que mal consigo distinguir, eclipsado pelos contornos da moça. Numa das cadeiras laterais, uma mulher boceja e checa a timeline do Facebook. “Não há aqui nenhum tipo de preconceito físico, não, moço. Se a pessoa gosta de sexo e quer sexo, não faz diferença se é alta, baixinha, não tem dente, é pobre. Ela vai fazer sexo”, enfatiza Scheila, que alega trabalhar no escurinho do cinema há trinta anos.

Enquanto penso se devo arriscar ir sozinho ao banheiro, uma mulher se aproxima, sussurra e pergunta se quero ser chupado “gostosinho”. No que penso em recusar a oferta, ela se joga na poltrona, pega no meu cinto e começa a chupar minha orelha. Invade-me um odor de cerveja e de perfume doce, que logo me embrulha. Encolho-me na poltrona, intimamente constrangido e ouço agora com mais vigor: “Tá gostando, cabeludo gostoso”? A voz, inconfundível: é um travesti. Se chama Renata.

Apesar da abordagem mais roots e de seu visível estágio alcoólico, “tomei seis latinhas só”, Renata resolve conversar calmamente comigo depois que explico o que estou fazendo. “Num mês mais ou menos bom, tiro quatro mil reais.” Mas as coisas não andam muito pacíficas na região. Renata, a única travesti com alvará informal para trabalhar no estabelecimento, se irrita com algumas mulheres que cobram muito barato, como Cléia, que tem 23 anos e é, de fato, uma delícia. “É uma varejeira.”

As varejeiras, como se percebe, atrapalham os negócios de Renata, e não pela pouca idade e certos atributos físicos. Acontece que Cléia cobra muito barato. Enquanto o programa médio de Renata sai por sessenta reais, Cléia cobra trinta reais o pacote completo, correspondente ao combo de sexo oral, vaginal e anal. “E tem meninas que ainda fazem no pelo, sem camisinha”, entrega. “E são bem sujas. Não sei como os homens conseguem pegar elas.”

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Apesar da concorrência desleal e anti-higiênica – que carece de fonte e checagem –, Renata não reclama do trabalho. “Eu era gerente de um hipermercado. Trabalhava das 8 às 18h, ouvindo sermão de chefe e sendo pouco valorizada. Sempre gostei de me vestir de mulher. Um dia, uma amiga disse que eu tinha jeito para ser travesti, mas não travesti de rua, não, travesti de cinema. Estou aí. Tenho dois vícios nesta vida: homem e cerveja.” Ela conta que um cliente regular, de meia-idade, a paga para que ouça os problemas de sua vida afetiva.

O negócio do cine pornô foi o que restou da cultura curitibana de cinemas de rua. O tradicional Cine São João, na Westphalen, fechou em 2006. Construído da sociedade entre herdeiros da família Bettega e a tradicional empresa fotográfica David Carneiro, foi aberto em setembro de 1960 com a exibição do filme Volta ao Mundo em 80 Dias, de Michael Anderson. Não resistiu ao espírito do tempo. Três cinemas, responsáveis pelas grandes produções dos anos 1940 aos 1970, o cerne da Cinelândia curitibana, todos na pequena Avenida Luiz Xavier, de 145 metros, também fecharam: os Cines Palácio, Avenida e Ópera. Um pouco mais à frente ficava o Cine Ritz. Havia ainda o Plaza, o pulgueirão Curitiba, o América, o Luz… A decadência dos cinemas de rua da capital começou a ficar evidente em meados dos 1970, com a aceleração da economia nacional, a migração de público para outros espaços de entretenimento, como os shopping centers, as disputas fratricidas entre os pequenos cinemas de bairro e os grandes exibidores, e a difusão da televisão.

Preciso me despedir da Renata. “Só uma chupetinha, moço…” Digo que não tenho atração sexual por travestis. Gosto mesmo das varejeiras, especialmente da Luciana, e reitero a minha incredulidade com o custo baixo do programa completo. “É mesmo? Só gosta de mulher? Então por que ficou excitado quando eu te toquei?”

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