No meio do caminho tinha uma pedra

CRACK9422

Foto: Lina Faria

Hoje os usuários de crack são tão discriminados quanto os leprosos em tempos medievais, mas eles existem e compõem um cenário urbano que queiramos ou não faz parte do nosso caminho

 

“Quer saber por que, quer comprar?”, assim fui recebido por Juliano, quando perguntei ao Haroldo onde ele comprava crack.
Todos os nomes são fictícios para preservar a imagem dos envolvidos na matéria e a minha vida e a da Lina Faria, a fotógrafa. Depois de longo papo, o Juliano me disse que se o nome verdadeiro dele saísse em alguma matéria eu ia visitar o “cativeiro”. E como não estou interessado em conhecer o cativeiro, inventei os nomes.

O Haroldo é um rapaz de dezoito anos, maltrapilho, usuário de crack, perambula pelo centro, sempre fissurado, anda a balançar os braços, feito boneco de Olinda. Quando o encontrei, já sabia seu nome, a Lina já tinha conversado com ele e me deu a letra. “Você que é o Haroldo?”, ficou assustado e respondeu “como você me conhece, quer o que comigo?” Ingenuamente, pedi que tivesse calma – ninguém que usa crack continuamente tem calma.

Perguntei há quanto tempo ele estava na rua, e pelo que ele se lembra, desde quando nasceu. É um rapaz baixo, a droga ainda não consumiu todos os seus músculos, diz que usa de tudo, “tudo que é de fumar, eu fumo; tudo que é de cheirar, eu cheiro”, lamentou que ultimamente só anda a usar crack, mas gosta de cocaína e de maconha. Imperativo, exige: “Dá um cigarro, aí.”

Questionei onde ele compra a pedra, “Quer saber por que, quer comprar? Toma aqui Haroldo, faz essa correria pra nós, confio em você, hein”. Foi quando o Juliano entrou na conversa, foi grosseiro, intrometido, de cara saquei qual era a fonte do Haroldo. Apresentei-me como jornalista, que não ia denunciar ninguém, era tudo curiosidade e perguntei se o Haroldo sempre estava por ali e se era ele que vendia. “Ah, esse é doido, sempre por aqui. Não sou traficante, não.”

O Juliano é articulado, bem vestido, com roupas de marca e etc. Diz que não é traficante, estava quebrando o galho pra um parceiro, questionei se trabalhava, balança a cabeça negativamente, curioso, insisto, e pergunto o que ele faz, “sou assaltante”. Me espanto – quem não se espantaria? Ele confirma se sou mesmo jornalista, pede minha ficha numa conversa leve e descontraída, pede minha idade, “22”, gaba-se de sua experiência de vida e de sua profissão e apresenta seu código de ética, “é fio, você é novo ainda. Na minha casa eu tinha tudo do bom e do melhor, perdi tudo pra cadeia e pra mulher; e não assalto pobre, nem trabalhador”. Aparentemente ele é um rapaz jovem, diz ter 26 anos, mas desses viveu livre só 23 e 8 meses. Foi preso por roubo, ficou dois anos e quatro meses em cana.

A Lina pergunta quem é a Aline, o nome que carrega no antebraço direito. É uma das ex-mulheres. “E agora, como vai fazer?” Diz que vai cobrir com outra tatuagem. Outra marca que tem é uma cicatriz de uns cinco centímetros no rosto, “esta foi a Fabíola”. Nem a Fabíola, nem a Aline são as atuais, diz ter várias, mas clama, “vamos parar de falar de mulher, tenho mais medo delas que da polícia”.

Nós dois estávamos sentados e em quarenta minutos de conversa cansei de ouvir, “dá um galo”, “passa dez”, “tenho só cinco”. A negociação quem faz é ele, a palavra final é dele, vende quanto quer e pra quem quiser. Um galo é 50 reais, uma perna 100. Um galo dá para cinco pedras; dez reais de crack, de acordo com o Juliano, é pouquíssimo, dá pra duas tragadas ou “duas bolas”. Na negociata não tem agressão, nem grosseria, viciado e viciante se tratam como lordes, cordialmente.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

Ele pede pra ver a câmera da Lina, ela hesita, mas empresta. Diz que sempre quis ser fotógrafo e lembra entusiasmado de um sequestro que fez, “a câmera valia mais que tudo, valia 19 mil, vendi por 7”.

Isso tudo acontece por volta das 18 horas, do dia 20 de outubro, transeuntes se espantavam com o tráfico à luz do dia e num lugar movimentado. Pelas tantas, chega um rapaz, conhecido de um camarada do Juliano, pede uma pedra, mas estava sem dinheiro, de garantia deixa um cartão-transporte, “se não pagar amanhã a conversa vai ser diferente quando eu te encontrar”. Tudo numa boa, era como falasse “se não pagar até o dia 7 tem juros de 2%”.

Em seguida chega uma moça, ele apresenta, é a cunhada. Pergunto o que faz e ela responde em tom de brincadeira “profissão atual: traficante”. Eles parecem se divertir, parecem viver num mundo lúdico. Ela a se afastar grita: “vou tomar um chá e fazer um lanche, quando conseguir os cenzão do aluguel me avisa”. Os problemas deles são reais e cotidianos, não se incomodam como vivem, a vida deles é como de qualquer outra pessoa, “só tem que acordar mais cedo que a polícia”.
E quando a Lina ousou a chamá-lo de bandido, ele se ofendeu e a corrigiu, “bandido não, sou criminoso”.

 

De Cristo

Cristiel também se ofendeu, este é seu nome verdadeiro, quando o chamamos de justiceiro. “Sou correto, justiceiro é quem ganha pra matar”, gritou entre perdigotos e revolta.Orgulha-se em ter boa índole. “Você fuma crack?” Nega, mas as mãos denunciam.
Encontrei-o na trincheira da Rua Augusto Stelfeld, tinha acabado de apanhar da polícia, uma cena assombrosa, estava no pico de rebeldia, xingava os homi, culpava a sociedade. Há intrínseco nele a vontade de insurreição, sabe como as pessoas o enxergam na rua. “Eu não sou nada pra vocês, sou como lixo, não existo”.

Ele tem 29 anos, diz que seu nome deriva de Cristo, assim como o Haroldo está na rua desde quando nasceu. Tem uma mulher e uma filha de um mês. Contou sua história. “Viver na rua é uma guerra.” A Lina pergunta se ele tem amigos, fala ter um único amigo. “É Jesus Cristo, converso com ele todos os dias.”

Tem paralisia na perna direita e bronquite, me mostra suas bombinhas, que o auxiliam a respirar. Lamentou, esbravejou e xingou deus e o mundo durante toda nossa conversa. Começou com a polícia, quando o vi a descer a trincheira fui até ele perguntar o que tinha acontecido. “São tudo covarde, vem fazer isso de dia, a noite é no mano a mano.” Mano a mano? Ué, um rapaz com paralisia na perna partir pro mano a mano com um policial armado parece um pouco surreal, foi quando perguntei se fumava pedra, mas o que ele queria mesmo era falar da polícia. “Eles pegam nós e batem, aí todo o dinheiro que a gente juntou cuidando de carro eles jogam no bueiro.” Acreditar, eu não! Recomeçar, quantas vezes forem necessárias. Insisto e questiono se ele não usa crack mesmo e ele insiste em negar. “E as mãos? Por que estão queimadas?” Gagueja e começa a falar da filha.

A andar entre os usuários de crack percebi que nem tudo que eles falam é verdade, porém isso não significa que seja mentira. Pode ter acontecido uma vez de policiais terem atirado suas moedas no bueiro, pode ser também que o universo paralelo em que vive o faça crer nisso.

De começo, diz que a filha é recém-nascida, “preciso comprar Hipoglos, frauda, leite”. Eu e Lina remoemos a bolsa, tinha 50 ou 4 reais, escolho pelos 4, ele não aceita de imediato e diz, “sabe, minha filha toma um leite especial”, querendo dizer que precisava de mais. Lamento, mas só tinha aquilo, tento achar mais, “só tenho isso mesmo, cara!”.

Ele já tinha me dito que tinha nascido em Curitiba, num hospital no Cabral, mas se perde em seus pensamentos, entristece a voz e diz que tem que voltar pro Rio de Janeiro, pois ele e a sua mulher eram de lá. “Ué, não era ali do Cabral?”

Se cansa de conversar conosco, a Lina insiste que ele vire de costas para a parede para fazer uma foto, ele nega, “os homi vão me ver aí e vão me achar”. Começa a se queixar do mundo mais um pouco e pergunto por que ele não vai até a FAS (Fundação de Ação Social). E ele encerra a conversa soberbo e triunfante, “Se a FAS fosse boa não teria ninguém morando na rua, deixa esse isqueiro aí comigo”. Ele vai, obviamente, com os quatro reais e mais meu isqueiro.

São muitos que vivem nessa fissura em busca da pedra, em como obtê-la e são diversos os jeitos de como caem nesse pedregulho. Conversei com a Ana, uma moça formada em administração, tinha casa, comida, roupa lavada, tinha também o apetite por álcool e drogas, “comecei com a maconha, uma amiga me apresentou a “farinha” (cocaína) numa festa e curti, de lá pra cá só piorei”. Ela diz que ainda gosta de cocaína, mas é cara, encontrou uma mais baratinha, só que desta vez não foi ela que usou a droga, a droga que a usou. “Já roubei dinheiro da minha mãe, objetos lá de casa, quando sumiu o DVD e o telefone fui expulsa de casa, agora faz cinco anos que estou na rua.”

Ela define a vida de moradora de rua como uma guerra, assim como falou Cristiel, e também é muito lúcida quanto ao seu futuro. “Você, nem ninguém, precisa me dizer que eu tô acabando com a minha vida, sei que a pedra mata a gente.” Por que ela não larga se sabe disso tudo? Ela ri e diz: “você já fumou pedra alguma vez?” Digo que não. “Então você não sabe a loucura que é isso aqui.”

Uns fumam por tristeza, outros fumam para passar a fome, outros para passar o frio, uns caíram por acaso e outros sabiam onde estavam se enfiando. Os que permanecem nas ruas ainda estão perdendo para o crack, há os que ganham com ele, como o Juliano, que forra a carteira às custas de viciados.

Não é um caminho sem volta, muitos já se recuperaram, é um caminho difícil, este em especial com mais pedras do que qualquer outro, o jeito é chutá-las e seguir em frente.

Foto: Lina Faria

Foto: Lina Faria

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