O país dos burricos

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Uma caravana de mulas se desloca de Santos em direção a São Paulo. A cena lembra tropeiros tocando o gado em seu árduo trabalho pela sobrevivência. A diferença é que a turma está fardada como soldados da corte brasileira. Sobre um burrico, montado garbosamente, vem à frente o príncipe D. Pedro I. O sacolejar das ancas do animal provocam no montador uma estranha e ridícula dança lateral, além de assaduras inevitáveis. Devido a uma refeição pantagruélica no almoço, os intestinos reais sofrem de cólicas insuportáveis.

Pedro I sente que não vai aguentar muito tempo para aquilo desandar. De repente, vê um córrego à sua frente e que soube se chamar Ipiranga. Para, dá um berro e manda a tropa de burricos estancar. D. Pedro está de saco cheio. Tudo conspira contra si naquele sete de setembro. Pensa em José Bonifácio, o Boni, como o trata carinhosamente, está a lhe tirar do sério com essa história de independência e convocação de uma constituinte. Foi ele o responsável por essa viagem maldita. Pensa então numa maneira de puni-lo ao voltar à corte. Agachado, ouve ao longe os gritos de seu valet, que acabara de chegar uma carta de seu pai direto de Portugal. Malditos! Esbraveja Pedro. Nem nessa hora me deixam em paz! Enraivecido, abre a missiva e lê impaciente que seu pai exige seu retorno imediato às terras lusitanas. Solta imediatamente um palavrão português e emenda um Não aguento mais esse velho sovina! Informa aos oficiais sobre o pedido. Está atônito, não sabe o que fazer. A notícia já correra pela soldadesca. Ouvem-se gritos aqui e acolá sobre independência ou morte. D. Pedro sua frio. Não sabe se em decorrência da dor de barriga ou de medo. Alguém lhe cutuca e pede uma decisão. Os gritos se sucedem. Tremendo como uma vara verde e vendo-se sem saída, gaguejando, balbucia a frase que vem sendo repetida pela turba: “Independência ou…” demora-se, e agora? – pergunta-se. Encurralado, murmura… Morte! Gritos se sucedem, os burricos se agitam e rincham como a comemorar. Alguém já fala em festa, comilança e dança o dia todo. Se possível, três dias. Está criado o Brasil, o país dos burricos.

Depois desse fato, os burricos ou mulas, como queiram, resultado do cruzamento do jumento com a égua, fizeram enorme sucesso no Brasil, quiçá no Nordeste, onde são mais utilizados. Em vez de linhas férreas e navegação de cabotagem, que nada! Ledo engano, pois foram eles que trouxeram o “desenvolvimento” à nação. Foi sobre o lombo desses resistentes muares que ao longo da história se transportavam alimentos, mercadorias diversas e, até mesmo, armas e munições. Seu papel foi extraordinário para a exploração das nossas riquezas: o ouro das minas, o açúcar dos engenhos e o café das fazendas. Os burricos sempre foram a fonte da fortuna e do poder dos mandatários do Brasil. Todas as espécies de burricos, diga-se de passagem, estão em alta como nunca. Continuam a gerar poder e riquezas, a promover novos coronéis e a decidir eleições. Com eles não precisamos da infra-estrutura que esse pessoal da oposição diabólica sempre propaga por aí. Golpistas do inferno! Os burricos são contra aeroportos modernos, estradas de ferro eficientes, rodovias expressas conservadas, universidades equipadas, hospitais e escolas em quantidade e qualidade para atender a população. Só os idiotas não percebem que o país tem burricos sobrando e produzindo como nunca. Pra que gastar com bobagens?

Viva D. Pedro I, o herói português, o primeiro pai do Brasil. O primeiro de uma série de papais pátrios que adorava burricos. Mas é chegada a hora de se ter mãe. Serão novos tempos para os burricos, e tal qual como naquele sete de setembro de 1822, os burricos festejam e rincham sem parar mais do que nunca.

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