Se ela dança, eu danço

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Jorge Ben Jor. Foto: Reprodução/site crisguerra.com.br

 

Muitas possibilidades: sedução, exercício, autoconhecimento, início de conversa, convite para o flerte, passatempo, exibicionismo, diversão, elevação. A dança é ritual para muitas situações e de alguma maneira agrada todo mundo. Quem não tem a desinibição de espírito ou as habilidades corporais necessárias, ruim da cabeça ou doente do pé, para rodopiar no salão, acaba munido de inveja ou transbordante de admiração.

Já ouvi de muitos sobre oportunidades perdidas por conta de não arriscar uns passinhos na pista – enquanto a testa escorria em suores e o corpo tremia em timidez, aparecia um bonitão, meio canastrão, mas com os sapatos a brilhar e a mão estendida para conduzir dama aos embalos do corpo.

A MPB sabe dessas coisas e gosta de olhar para gafieiras, pagodes, rodas, salões e qualquer lugar onde role um bom som e os corpos estejam com vontade de flutuar no espaço, porque como dizia Sebastião Rodrigues Maia ou, antes dele Noel Rosa, quem não dança segura a criança.

Quem inaugura a edição deste mês não é propriamente um pé de valsa, mas um observador encantado que aconselha, sugere, quase pede que sua musa requebre um pouquinho: Jorge Ben Jor, que no suingue da mão direita quase sempre nos faz convite para levantar da cadeira. Em Balança Pema essa vontade festiva fica declarada. A música foi lançada em 63, no Samba Esquema Novo, seu disco de estreia, e até hoje arranca liberdades quando toca: “Balança Pema / Balança sem parar / Arrasta a sandália / Arrasta até gastar / Quando você sambalança / Sambalança meu coração também / Ele sambalança certinho / Juntinho com o seu vai e vem”.

Roberta Sá, Marcelo Camelo, Adriana Calcanhoto, Marcelo D2, Fernanda Takai, João Donato. Foto: Lourival Ribeiro/Ag. News

Roberta Sá, Marcelo Camelo, Adriana Calcanhoto, Marcelo D2, Fernanda Takai, João Donato. Foto: Lourival Ribeiro/Ag. News

Embora as mãos sempre estejam ocupadas com teclas e os pés sapateando em pedais, João Donato jura, na letra de Paulo André, que veio ao mundo para se acabar em salões. O ritmo? Isso não é importante, ele nasceu para bailar: “Abri veredas e cancelas pra poder passar / Porque nasci, nasci para bailar / Danço bolero, danço samba, danço chá-chá-chá / Por que nasci, nasci para bailar”.

Tem gente que tem passos exclusivos, são fiéis a um ritmo. Caso de Tom Jobim: “Já dancei o twist até demais / Mas não sei / Me cansei / Do calipso ao chá chá chá / Só danço samba”, e de Janet de Almeida: “Eu não sambo para copiar ninguém / eu sambo mesmo com vontade de sambar / porque no samba eu sinto o corpo remexer / e é só no samba que eu sinto prazer”.

E tem dança que acaba com a festa, com a festa do coração. É quando o conjunto ataca que os pares se desfazem ou que fica claro quem é quem na relação. Geraldo Pereira viu isso acontecer: “Você só dança com ele / E diz que é sem compromisso / É bom acabar com isso / Não sou nenhum Pai-João / Quem trouxe você fui eu / Não faça papel de louca / Pra não haver bate-boca dentro do salão”.

E qual música embalaria a cena de “Rua Ramalhete”, de Tavito? Não se sabe, mas dá para desconfiar das palavras sussurradas entre um passo e outro; difícil acreditar que alguma dama negaria o convite do estranho que se apresente com excitante promessa: “Muito prazer, vamos dançar / Que eu vou falar no seu ouvido / Coisas que vão fazer você tremer / Dentro do vestido”.

Como não faz parte desta coluna se esconder sob o tapete do preconceito, dá para citar os versos do Mc Leozinho. Mas se você for ouvir, procure por versão bem acabada, não me refiro a que Roberto Carlos gravou num daqueles especiais de final de ano, tem coisa melhor: Celso Fonseca tratou a composição e lhe deu ares do que hoje a gente entende como lounge. “Se ela dança eu danço / falei com DJ / Pra fazer diferente botar chapa quente pra gente dançar / Me diz quem é a menina que dança e fascina, que alucina querendo beijar”.

João Bosco. Foto: Reprodução/site kalinekloster.com

João Bosco. Foto: Reprodução/site kalinekloster.com

Você não se identifica com John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite? Você não comprou DVD do Carlinhos de Jesus? Não se matriculou na academia de dança de salão do seu bairro? Mesmo assim se arrisque, quem sabe você consegue encontrar um par generoso que te ensine a contagem dos passos. Aldir Blanc escreveu os versos para música de João Bosco: “Sentindo frio em minha’lma / Te convidei pra dançar / A tua voz me acalmava / São dois pra lá, dois pra cá / Meu coração traiçoeiro / Batia mais que o bongô / Tremia mais que as maracas / Descompassado de amor”. Atenção! Não acredite que encontrar um bom guia, ou uma boa guia, de dança garante sucesso em outras áreas, o fim de “Dois pra Lá, Dois pra Cá” é trágico, cita Luiz Demetrio em hit de Luis Miguel: “Dejaste abandonada la ilusión / Que había en mi corazon por ti”.

Na cultura hindu, significa paz e tranquilidade, para o candomblé também tem belo significado. Na criação de Caetano Veloso, a cíclica Odara (lançada lá na segunda década de 1970, no álbum Bicho) traz mensagem, na música e na letra, meio hippie, meio relax, meio de bem com a vida, sobre a liberdade de deixar o corpo entregue para transformar o estado de espírito, é, ao mesmo tempo, pedido de licença para fazê-lo (na letra) e convite para aderir (na música) “Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara / Minha cara, minha cuca ficar odara”.

Um pouquinho do nosso Brasil, iaiá, também está na dança; na dança como fatia da cultura popular que se desenvolve em regiões ou comunidades específicas; na dança que encontra identidade na formalidade da profissão; na dança de roda, temas específicos, que conta histórias; na dança que aparece nos passos de nosso ritmo maior de Norte a Sul do país. A dança é também um pouco dessa raça, Ary Barroso sabia: “Olha o jeito nas cadeiras que ela sabe dar / Olha só o remelexo que ela sabe dar / Morena boa que me faz pensar / Bota a sandália de prata e vem pro samba sambar”.

E como tratar edição com esse tema sem lembrar da construção de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar? “Sá Marina” tem graça e beleza contagiantes, é um retrato de uma delicadeza brasileira quase esquecida, trancada, lá pelos 1960, só quem viu é que pode contar: “Roda pela vida afora / E põe pra fora esta alegria / Dança que amanhece o dia de se cantar / Gira, que essa gente aflita / Se agita e segue no seu passo / Mostra toda a poesia do olhar”.

Não vem ao caso se você é Fred Astaire ou Ana Botafogo, se se sacode ao som do fox-trote ou do samba-canção, se tem par garantido ou sai em busca de parceiro ou parceira de pista, se machuca pés alheios ou flutua feito pluma; o palco da dança é lugar de respeito, Billy Blanco anunciou o estatuto:

 

“Moço
Olha o vexame
O ambiente exige respeito
Pelos estatutos
Da nossa gafieira
Dance a noite inteira
Mas dance direito
Aliás
Pelo artigo 120
O distinto que fizer o seguinte:
Subir na parede
Dançar de pé pro ar
Debruçar-se na bebida sem querer pagar
Abusar da umbigada
De maneira folgazã
Prejudicando hoje
O bom crioulo de amanhã
Será distintamente censurado
Se balançar o corpo
Vai pra mão do delegado
Tá bem, moço?
Olha o vexame, moço!”.

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