Trem

veronica

Percorri todas as estações com o olhar dele em cima de mim. Na metade do caminho, ensaiei um sorriso. Correspondeu, mas virou a página do jornal e eu fiquei sem saber se era pra mim ou para a notícia.

Depois de um tempo eu já nem prestava mais atenção na paisagem que corria lá fora e meus pensamentos estavam fixos dentro do vagão. O jeito que ele me procurava denunciava o desejo da carne, mas parecia mais, parecia que o mundo inteiro havia se concentrado naqueles castanhos.

Mesmo na distância de umas sete fileiras de poltronas, ele me envolvia e me libertava para vontades inéditas. Fervor no rosto, pelos na contramão da pele, pernas trêmulas.
Eu não sabia o que queria, mas tinha certeza que aquele flerte era convite irresistível.
A cidade se aproximava e com ela o tormento de me despedir daqueles olhos que não tinham nome ou voz.

Na última estação, ele caminhou em direção à porta. Continuei sentada, olhos fixos e quando parecia que estávamos no ponto final da jornada, ele jogou bilhete que escorreu do colo às coxas. A letra, trêmula pelo deslizar do trem, só denunciava endereço. Nenhum nome, nenhum horário, nenhum telefone.

Agarrei a mala, saí do trem e me sentei. Fiquei no meio do movimento, pensativa e quieta, na tentativa de decidir o que fazer. Essa reflexão durou um tempo que não sei precisar. Quando me levantei estava decidida, agarrei o papelzinho e caminhei.

Subi os lances de escada como se fossem um degrau. No terceiro andar, a porta entreaberta. Entrei. Foi com meu vestido no chão que tranquei a realidade no lado de fora.

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