Uma consciência culpada

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Basta uma tragédia, seja por acidentes naturais como deslizamentos (área atingida no primeiro ano de gestão atual não cicatrizada no litoral como também nas encostas do Rio) e as mais recentes enxurradas ou episódios chocantes como o da boate incendiada de Santa Maria, para assistirmos o espetáculo de sempre: autoridades prometendo aquilo que jamais cumprirão em matéria preventiva, prisão dos presumíveis culpados e, é claro, demonstrações de solidariedade como as que tomaram conta do país, o que pelo menos preserva a nossa humanidade, agredida e impotente.

Muito antes da queda de edifícios no Rio, provocadas por reformas que minaram o equilíbrio da construção, os bombeiros do Paraná tinham um plano, quatro anos atrás, para inclusive interditar prédios. Bastou o aceno para que interesses corporativos ligados ao mercado imobiliário achassem as medidas inadequadas para um momento de demanda aquecida. O emergente capitalista é sempre um estorvo na perspectiva da ciência e do planejamento.

 

Caos no Centro Cívico

O Palácio Araucária é exemplo dessa desídia: a construção visava o Fórum Cível mal acomodado no edifício da Cândido de Abreu, caricaturado de Idi Amin e Máscara Negra, em cujo andamento tivemos diversas trombadas entre o órgão estadual de controle (Decom) e a empreiteira, o que não impediu que a obra fosse concluída depois de paralisação e com defeitos que a submeteram a um corte de vários andares. Iniciada no governo José Richa, foi imobilizada com Requião e só no terceiro mandato do mesmo personagem transformada no Palácio Araucária, que substituiu, por algum tempo, o Iguaçu.

Temos um histórico de sinistros como os do porto: dos anos quarenta, século passado, com o incêndio do setor de madeiras por mais de uma semana, a explosão do silão em tempos recentes e também a do navio chileno Vicuña; obras comprometidas, como a da residência do governador no Centro Cívico, retirada do plano original. Em tudo a imprevisão e o desperdício e a não cobrança de responsabilidades, isso para não falar em obras inviáveis como a da Usina Hidrelétrica de Cotia, onde simplesmente não havia água. O histórico não autoriza confiabilidade nas autoridades, embora tenham pressa em se mostrar sensíveis.

E vimos recentemente o quanto o Paraná tem se mostrado vulnerável a acidentes naturais como os que atingiram agora a Região Metropolitana, e, mormente, Campo Largo, com mais de 110 mil pessoas atingidas.

 

Da emergência à rotina

Aliás, tenho insistido na necessidade de editar, atualizando-a, a obra de Reinhard Maack Geografia Física do Paraná, que cataloga geadas, nevascas, vendavais e tornados ao longo dos anos e fazendo referência a situações caóticas como a de um vendaval que formou uma estrada de dezenas de quilômetros em pinhais nativos de Guarapuava. Nesse relato ganham relevo as geadas que ciclicamente atingiram os cafezais até dizimá-los em 1975.

No governo Lupion e no que se seguiu de Ney Braga, o Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas – IBPT fez experimentos com geradores artificiais de neblina, uma forma desesperada de botar a ciência a serviço da proteção do nosso então principal produto, o café, agredido pelas geadas. O aparato era usado para proteger laranjais e também em operações bélicas no exterior.

Para mostrar como tivemos uma retaguarda tecnológica mais apta, basta lembrar que na epidemia de gripe asiática o IBPT chegou a produzir a vacina e a fazer a respectiva campanha de imunização com seus cientistas e técnicos operando junto aos centros brasileiros em ação comandada por Astolfo de Souza.

O pior é que essas evidências, algumas das quais derrubam o mito ufanista do país que não tem terremotos (e esses já apareceram, inclusive nos abalos sísmicos das nossas represas hidrelétricas como as do Capivari-Cachoeira e Capivara no rio Paranapanema), mas é rico em acidentes naturais, exigem estruturas de prevenção e correção. E isso tanto é verdadeiro que a Defesa Civil deixou de operar em emergências pelo fato de estas terem se transformado em rotina. O convívio com a calamidade está expresso em nosso Noroeste, com o anúncio permanente de uma desertificação que procuramos adiar com o câncer geológico da erosão, por vezes indicando metástase.

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