A curva econômica mundial e o Brasil

Passados seis anos desde o começo da crise financeira deflagrada com a quebra do segmento hipotecário de segunda linha dos Estados Unidos (EUA), conhecido como subprime, a economia internacional permanece caminhando a passos de cágado e com flagrante heterogeneidade geográfica, identificada por moderada reativação na América do Norte, algum vigor na Ásia e fragilidade na Europa, América Latina e África. O pior é que as perspectivas revelam-se pouco animadoras para 2015, afora os EUA, acrescentando restrições ao funcionamento do combalido aparelho de negócios brasileiro.

Inferências do Fundo Monetário Internacional (FMI), apresentadas no World Economic Outlook, publicado em outubro de 2014, apontam incremento de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2014, contra prognóstico de 3,4% feito em julho, e 3,8% em 2015, versus os 4% estimados anteriormente (ver tabela).

É a terceira vez no ano que a entidade multilateral modifica para baixo as suas extrapolações, incorporando os componentes geopolíticos brotados das tensões no Leste Europeu (Rússia e Ucrânia) e no Oriente Médio, com chances de precipitação de choques de oferta e de interferência decisiva nos preços do petróleo e de outras matérias-primas. Frise-se que o Banco Mundial (Bird) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também reduziram as previsões de evolução do PIB mundial.

A variação do PIB para os estados avançados foi apurada pelo Fundo em 1,8% e 2,3%, respectivamente, para 2014 e 2015. O destaque nesse grupo cabe à economia americana, que deve subir 2,2% em 2014, em vez de 1,7%, conforme projeção realizada em julho, e 3,1% em 2015. O Japão, ainda arredio ao ingresso em uma rota ascendente, depois do terremoto, tsunami e acidente nuclear de 2011, devido ao elevado desequilíbrio das finanças públicas e a problemas no segmento bancário, deve acusar acréscimo do PIB de 0,9%, em 2014, e 0,8% em 2015.

Para o FMI, a atividade econômica da Zona do Euro deve registrar incremento de apenas 0,8% no presente exercício, contra previsão anterior de 1,1%, realizada em julho, e de 1,3% para o exercício de 2015, mesmo com a prática de juros nominais negativos por parte do Banco Central Europeu (BCE), no afã de conter as pressões deflacionárias. O produto regional por pessoa situa-se 3% abaixo do verificado em 2007, antes do surgimento dos sintomas de instabilidade global, delineando os contornos de uma década de estagnação, recessão e deflação no continente europeu, com taxa de desocupação de quase 12% da força de trabalho.

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O PIB dos emergentes deve experimentar ampliação de 4,4% e 5%, em 2014 e 2015, respectivamente, puxada pela China, embora em embalo desacelerado (7,4% e 7,1%), por conta do fim do boom imobiliário e de endividamento (ancorado em um aparato bancário paralelo), e Índia (5,6% e 6,4%). O patinho feio da história é a América Latina (1,3%, em 2014, e 2,2% em 2015) e o papel de monstrinho é encenado pelo Brasil (0,3%, em 2014, ante 1,3% em julho, e 1,4% em 2015), melhor apenas que Argentina e Venezuela, na América do Sul, e que a Rússia, no time dos em desenvolvimento.

Essencialmente, em um contexto de lenta e díspar recuperação da produção e do comércio mundial, o Brasil simplesmente reproduz um comportamento prevalecente há mais de duas décadas, marcado pela ocupação de posições aquém da curva de dinamismo da economia global e, particularmente, dos emergentes.

A título de ilustração, o PIB do país variou 2,3% ao ano, entre 1995 e 2002, contra 3,5% a.a., para a economia mundial, e 4,3% a.a. para os emergentes. No intervalo 2003-2010, o embalo expansivo foi de 4% a.a., para o Brasil, 4,2% a.a. para o mundo, e 6,7% a.a. para as nações em desenvolvimento. Já no período 2011-2014, o produto brasileiro girou 1,6% a.a., menos da metade do mundial, que subiu 3,5% a.a., e um terço dos emergentes, que observou acréscimo de 5,1% a.a., retratando a terceira pior performance da história, empatando com a década perdida dos anos de 1980.

Essa incômoda localização repousa em distúrbios fabricados fora e dentro das fronteiras do País. No conjunto dos obstáculos externos, emerge a moderação do ímpeto comercial e a fragilização dos termos de intercâmbio, representada pela perda de poder de compra das exportações frente às importações, motivada pelo declínio das cotações internacionais das commodities (de quase 12%, no biênio 2012-2013, e de mais de 7% no intervalo 2014-2015), especialmente com o encolhimento da demanda chinesa, desde o segundo semestre de 2012.

Acrescentem-se as prováveis alterações nos fluxos de capitais, provocadas pelo maior fôlego da reação dos EUA, e a inevitável normalização da estratégia monetária pelo Federal Reserve (FED) – após polpudas alocações mensais de haveres –, com a elevação dos juros e a valorização do dólar. Apesar de o desemprego americano ter rompido o piso de 6% da População Economicamente Ativa (PEA), em setembro de 2014, o menor patamar desde agosto de 2008, a inflação persiste em níveis reduzidos (1,5% a.a.), indicativos da existência de apreciáveis margens de ociosidade na indústria.

A aplicação de ferramentas de austeridade monetária pelo governo dos EUA, a partir do segundo semestre de 2015, deve resultar em compressão da liquidez global e subsequente depreciação generalizada de moedas e de bônus financeiros, afetando, de modo mais acentuado, a matriz de transações brasileira, já suficientemente castigada pelo processo de deterioração dos fundamentos econômicos desde o princípio de 2011.

Trata-se das barreiras domésticas, sintetizadas nos elevados e crescentes déficits externo – cobrindo predominantemente as despesas de consumo em detrimento do investimento –, e público – alargado por subsídios pouco eficazes –e na inflação alta e ascendente, superando os padrões fixados pela orientação macro que, por sinal, explicam a entrada do sistema produtivo do País em um estágio recessivo. Em doze meses até agosto de 2014, o buraco nas transações correntes do balanço de pagamentos atingiu 3,5% do PIB (1,9% do PIB na média dos emergentes), contra ingressos de investimentos diretos estrangeiros líquidos de 3% do PIB.

No mesmo sentido, o desequilíbrio nominal das contas públicas ultrapassou 4% do PIB, e a dívida governamental bruta alcançou 65% do PIB, versus 41,4% do PIB para os países do G20 e 51,2% para a América Latina. Enquanto isso, a inflação acumulada em um ano encerrado em setembro de 2014, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, chegou a 6,75%, acima do teto da meta anual de 6,5%, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

No fundo, a conjugação de aspectos desfavoráveis – como os impactos defasados do aperto financeiro, ou da majoração dos juros, sobre a demanda agregada, o câmbio apreciado, a dramática retração dos investimentos e dos ganhos de produtividade, a diminuição do consumo das famílias e a exacerbação da desconfiança dos agentes privados em relação ao governo, notadamente no tocante à orientação econômica (ou falta dela) – constitui a fonte primária da montagem de um cenário tão adverso para a economia brasileira.

Contudo, a constatação da rápida multiplicação dessas patologias aumenta a relevância e a premência a ser conferida à tarefa de casa, centrada nas modificações e correções de rota, a serem formuladas e executadas pelo novo governo, desprovido de obstinações ideológicas, na direção da restauração dos requisitos ao crescimento econômico sustentado.

Por essa perspectiva, parece oportuno implantar, de imediato, providências austeras, ligadas à contração estrutural dos dispêndios públicos correntes e financeiros e à revisão criteriosa e racionalização dos mecanismos de concessão de crédito. Igualmente prioritários serão o encaminhamento e a negociação política das reformas institucionais capazes de assegurar a minimização do custo Brasil – por meio da desobstrução dos gargalos na infra-estrutura econômica e social, com mobilização de capitais privados e resgate da capacidade gerencial do Estado – e a inserção plena da nação em um planeta com exigências de expansão mais moderada, sustentável e com maior competitividade no interior das diferentes cadeias produtivas.

Como exemplo do atraso infra-estrutural, pesquisa recente, da Fundação Dom Cabral, constatou que as empresas industriais brasileiras sacrificam 11% do faturamento com gastos logísticos, fatia que suplanta o esforço das corporações dos EUA (8,5%) e chinesas (10%).

 

Gilmar Mendes Lourenço é economista, diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) e professor da FAE Centro Universitário.

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