Editorial. Ed. 158

Naufrágio impávido

 

Nada ocorre por acaso, inclusive partidos de esquerda. Resta checar o destino do PT, que surgiu há duas décadas no cenário sindical e de jovens lideranças não comprometidas com o peleguismo tradicional.

O país chegou a acreditar que surgia um forte e inteligente partido de esquerda, capaz de cumprir por aqui o mesmo papel que fortes e inteligentes partidos de esquerda desempenharam em outros países, hoje na liderança do mundo. O Trabalhista inglês, o Socialista sueco, por exemplo. Não somos ingleses, italianos ou suecos, mas os homens se parecem muito, ainda que as circunstâncias possam ser bem diferentes.

Tanto acreditou que entregou o poder ao PT, que há 12 anos se autoproclamava único partido honesto e protetor dos interesses da população mais humilde.

Foi um teste decisivo. Hoje o PT naufraga no mar de lama dos escândalos de corrupção e perde completamente a credibilidade entre a população que pensa e que não depende de uma benesse do tipo Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida ou do ProUni, três dos principais programas sociais que garantiram a sobrevivência do PT no poder nas eleições de outubro.

Da esperança de um partido forte e inteligente restaram escombros. O tempo transformou o PT de partido dos oprimidos, com pretensões à contemporaneidade do mundo, em referência de desvios de dinheiro para enriquecer seus membros e garantir campanhas eleitorais caríssimas para se reproduzir no poder. Ninguém mais acredita nos brados petistas de honestidade. O que restou para o partido de Lula, Dilma et caterva, são os programas sociais de distribuição de benesses. E um crescimento espantoso da máquina pública para abrigar compadrios de toda a espécie.

As ideologias não existem para o prazer de alguns intelectuais ou o encantamento místico dos fanáticos do Apocalipse. Elas informam a linha partidária, até o momento em que convém renová-las. A consciência proletária não é o destino do trabalhador, a miséria e a opressão não são a condição definitiva da maioria.

O PT naufragou ao aderir, sem pejo, sem constrangimentos, ao jogo político da falsa mudança. Aquele de que falava o príncipe de Salina, “muda alguma coisa para não mudar coisa alguma”. Aí está a presidente Dilma, recém-reeleita com uma campanha em que acusou os adversários, Marina Silva e Aécio Neves de tudo o que lhe ocorreu e de boa parte do que passou a fazer no governo. Entre outras, compor um ministério nitidamente contrário às teses que Lula et caterva defendem quando vão aos comícios pedir os votos da multidão pela causa.

Agora, pretendendo ser guiada pela prudência, Dilma Rousseff, o PT, PMDB e seus assemelhados só conseguem conceber a saída pela direita, como o Leão da Montanha, inolvidável herói das histórias em quadrinho.

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