Enciclopédia chinesa

A ideia de que a escolha da nova equipe do governo deve seguir os mesmos métodos com que se escala um time de várzea é ridícula. Mas é mais ou menos isso que pretendem muitos de nossos políticos, empresários e intelectuais. Nada para o mérito. Tudo pela corriola.

Pois, pois, essa fórmula abstrusa só pode caber na cabeça de quem formou seu pensamento na famosa enciclopédia chinesa de Jorge Luis Borges, o Empório Celestial de Conhecimento Benevolente. Toda e qualquer semelhança dos animais enumerados a seguir com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Mas reparem bem e verão que as coincidências são muitas. Basta encontrar a classificação adequada para cada um dos pretendentes a cargos de alto coturno.

No exótico compêndio do fantástico Borges, os animais se dividem assim: a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo; l) et coetera; m) que acabam de quebrar a bilha e n) que de longe parecem moscas.

Conheço candidatos a sinecuras e prebendas que de longe parecem moscas prestes a pousar num monturo. Outros se agitam como loucos. Pois bem, eles sabem o que fazem para alcançar o seu prêmio e passar a chafurdar como os suínos.

Quanto aos intelectuais nativos, ou que assim se intitulam, parecem em desespero com a possibilidade de perderem as benesses das leis de incentivo e outros institutos criados pelo poder para manter em sossego cabeças pretensamente pensantes, em troca de um cabide, de isenções, de uma verba.

Domesticados, lembram leitões, norvejos e sereias à porta do Estado Mecenas a pedir o amparo rápido, abrupto, seguro, do Príncipe, do Senhor, do Pai. O que não fazem por uma benesse?
Quem prefere ficar de cabeça acesa, vive grande depressão.

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