Festival de pernadas

Nos bastidores, o festival de pernadas e rasteiras que se convencionou chamar, na linguagem eufêmica dos políticos, de disputa de cargos no governo. Longuíssima hibernação autoritária criou vícios na política desta área do planeta. Desacostumou a saudável postulação pública dos cargos, ao transformar a escolha em um rodízio de churrascaria onde as mesmas carnes são servidas ao freguês, em rodadas sucessivas.
Não se trata de lamentar a quantidade, largamente excessiva, de candidatos. Desde que haja correlação entre o número e a qualidade, entre o fervor das ambições e o espírito público.

Antes de discutir nomes e currículos, é bom questionar o método. Começa pela dança dos dossiês e a contradança das responsabilizações levianas que a imprensa não inventa, simplesmente registra por dever de ofício. Nossos políticos, mesmo aqueles que se querem apenas técnicos, estão a se estapear na escuridão das cavernas da cupidez e da vaidade. O passado certamente deixou fortes vestígios nos corações e mentes.

Lançar mão destes expedientes para excluir o concorrente é, no mínimo, um gesto de primitivismo político, estágio que pretendemos superado a esta altura da vida democrática.
No Paraná, o cargo mais disputado no novo governo de Beto Richa é o de chefe da Casa Civil. Considerado chave para todos os acontecimentos políticos, administrativos e de encaminhamento dos projetos em todas as áreas, propicia enorme poder, quase o de um primeiro-ministro. Ao menos é o que esperam os pretendentes ao cargo.

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Valdir Rossoni. Foto: Divulgação

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Deonilson Roldo. Foto: Reprodução/site pedrodaveiga.blogspot.com.br

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Eduardo Sciarra. Foto: Reprodução/site psdcamara.org.br

Hoje são três os candidatos: o deputado Valdir Rossoni, recém-eleito federal, presidente da Assembleia Legislativa, presidente do PSDB, marcaria seu trabalho pelo viés político. Entre as suas ideias, a do fortalecimento do PSDB e especialmente a do grupo político que segue Beto Richa. Tem pretensões político-eleitorais de disputar uma eleição majoritária em 2018. Ao Senado ou a vice-governador.

O segundo candidato é doméstico. Deonilson Roldo é chefe de gabinete de Beto Richa nos últimos quatro anos. É quem filtra informações, audiências, articulações e faz a antessala do governador. Função que assumiu com grande espírito centralizador e que se aproveitou da ineficiência de todos os chefes da Casa Civil que se sucederam no primeiro governo desde que Durval Amaral se afastou para assumir um cargo de conselheiro no Tribunal de Contas.

O terceiro é Eduardo Sciarra, deputado federal que não concorreu à reeleição e se pôs a serviço da campanha de Beto Richa como coordenador. Tem a simpatia do governador, que teme um chefe com pretensões políticas e não aprova de todo o espírito centralizador de Roldo. Mas sofre com a reação dos tucanos que acreditam que o posto é do partido e de mais ninguém. Sciarra é o presidente estadual do PSD.

A escolha do novo chefe da Casa Civil pode interferir inclusive na posição do governo na disputa da presidência e dos demais cargos na Assembleia Legislativa. Rossoni e Deonilson Roldo trabalhariam por Ademar Traiano, o tucano, Sciarra prega a neutralidade do governo diante de duas candidaturas da base de apoio do governador.

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Orlando Pessuti. Foto: Renato Araújo/ABr

O que já está certo é que o PMDB, depois do episódio da derrota para Requião dentro do partido, não terá secretaria nenhuma. Embora o esforço da bancada e principalmente do primeiro suplente, Reinhold Stephanes Junior, que ficou na planície. O apoio e a lealdade do ex-governador Orlando Pessuti, do PMDB, serão retribuídos com o convite para a direção do Banco Regional de Desenvolvimento Econômico – BRDE.

As demais secretarias passam por uma reengenharia política e administrativa. Richa, com a experiência do primeiro governo, sabe agora que a equipe econômica é vital. Não quer repetir o erro de entregar a Fazenda para compor uma situação política da vida interna do PSDB, como fez com Luiz Carlos Hauly, que o trouxe a profunda crise de caixa que continua a enfrentar. Nem deve entregar o Planejamento segundo o mesmo critério, como fez com a nomeação de Cássio Taniguchi. E quer rever a eficiência da Secretaria de Administração, que nos últimos anos permitiu que a folha do funcionalismo atingisse níveis insuportáveis.

 

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Luiz Eduardo Sebastiani. Foto: Ricardo Almeida/ANPr

O atual secretário da Fazenda, Luiz Eduardo Sebastiani, é homem da cota pessoal de Beto Richa. Estará no governo em qualquer circunstância, mas pode ser deslocado para outra área importante se aparecer um nome procurado por Richa que lhe dê sustentação e trânsito melhor na República, para evitar os boicotes que sofreu durante todo o seu primeiro governo.

Na Segurança Pública, Beto tende a confirmar o atual secretário, Leon Grupenmacher, que se saiu com ótimos resultados, superou crises internas e enfrentou desafios como os da rebelião em presídios sem criar qualquer situação indesejável. Assim evitaria o debate em torno de vários candidatos, que vão do deputado federal Fernando Francischini ao coronel Malucelli, antigo pretendente.

No restante, a tendência é manter o maior número de auxiliares. Richa considera os resultados de seu primeiro governo muito bons, o que lhe teria dado a reeleição no primeiro turno contra dois adversários de peso: o senador Roberto Requião, do PMDB, e a senadora Gleisi Hoffmann, do PT.

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Leon Grupenmacher. Foto: Reprodução/site folhapr.com.br

De qualquer maneira, só anunciará o novo governo, com a possibilidade de redução do número de secretarias, no final deste dezembro. Até lá, muita ansiedade, promessas e orações dos pretendentes, que não são poucos. Todos os dias, uma penca graúda se posta em seu caminho ou encaminha lobistas, na maioria deputados, para convencê-lo a nomear.

Richa não tem pressa. E costuma decidir sozinho, depois de ouvir todos os interessados de todos os grupos, com a esperança de vencer alguns pelo cansaço. O que não tem sido fácil. Quando se trata de um cargo de alto coturno, a tigrada vai até o último instante pedindo nomeação.

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