Outra receita

Joaquim Levy. Foto: Reprodução/site fernandonogueiracosta.wordpress.com

 

Nada do que Dilma Rousseff pregou em sua campanha eleitoral combina com o que ela faz hoje. Tampouco combina com o país cor-de-rosa que o PT mostrou no horário eleitoral da tevê. Mas Dilma Rousseff, que assim como o ex-presidente Lula nunca sabe de nada, sabia que tudo era de mentirinha. Para arrumar a casa, pôr as coisas em ordem e tirar o país do atoleiro, Dilma chamou Joaquim Levy para ser ministro da Fazenda e colocar em prática tudo o que seus adversários pregavam.

Em seu curto discurso de estreia, Joaquim Levy foi mais do que claro: sinalizou os tempos apertados que virão e que obrigarão a presidente Dilma Rousseff a engolir uma receita contra a qual guerreou até agora para evitar fuga de investimentos. Não haverá pacotes. As medidas serão tomadas gradativamente: redução de gastos, equilíbrio fiscal, aumento de impostos, juros, menos empréstimos de bancos públicos à indústria e, muito provavelmente, a volta do Cide e, numa segunda etapa, da CPMF – com outro nome. Ainda em seu discurso, Joaquim não agradeceu sua nomeação a chefe do Governo e tampouco citou seu nome. Quem ouviu, ficou com a impressão de que ela é que deveria agradecer Joaquim Levy de aceitar essa parada indigesta.

Ainda na apresentação do triunvirato que cuidará da economia do país, perguntado sobre sua autonomia no Ministério da Fazenda, Joaquim Levy fez um único comentário: “A autonomia eu acho que está dada. O objetivo é claro e os meios a gente reconhece”. Nas entrelinhas, há quem enxergue um outro recado dele, ou seja, que não irá tolerar intromissões ou mudanças políticas de rota. Já saiu do governo uma vez, pode sair a segunda. Para ele, importante mesmo é sua biografia.

A entrada de Joaquim Levy em cena, que deverá aplicar, ao lado de Nelson Barbosa e Alexandre Tombini, o mesmo receituário defendido por Aécio Neves na campanha, deixa o tucanato apreensivo, diante da perspectiva do Planalto conseguir equilibrar as contas em dois anos, tirando proveito do discurso do PSDB. Por outro lado, tão apreensivos estão os petistas. Acham que, como o arrocho será grande, o partido poderá perder densidade eleitoral. Antes, vendiam uma economia sob controle; agora, enfrentarão difícil situação que fatalmente comprometerá investimentos públicos.

Ora, pois, o país está à beira da recessão. A herança deixada por Dilma para Dilma no segundo mandato é assustadora. Reajuste dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica, alta de juros, suspensão de créditos subsidiados. Tudo feito de pronto. Até cortes em salvaguardas trabalhistas, que na campanha a presidente reeleita jurava de pés juntos que não faria e acusava seu adversário de querer fazer, estão por vir.

“A inflação sob controle”, ladainha repetida por ela nos debates eleitorais, foi substituída pela necessidade de fazer o “dever de casa” para impedir a fúria do dragão. Os sempre condenados cortes em benefícios sociais já não são imexíveis. Os gastos públicos recordes, agora, promete a presidente, serão administrados.

Nada disso combina com o país cor-de-rosa que o PT mostrou no horário eleitoral da TV. Mas Dilma Rousseff, que assim como o ex-presidente Lula nunca sabe de nada, sabia que tudo era de mentirinha. E boa parte ainda é.

Há uma profunda crise moral que afeta o governo. O patrimônio do país foi tomado de assalto. Petrobras, Correios, IBGE. Maltratadas pela ingerência do governo, instituições que até pouco tempo eram sinônimos de orgulho, confiança e credibilidade, foram postas na berlinda. Roubadas, abusadas e desrespeitadas, elas sofrem as consequências do perverso modus operandi do PT que, em seu benefício, se apossa do patrimônio do país.
Vítima de contratos escandalosos de bilhares de dólares, a maior estatal brasileira agoniza desde que vieram à tona as esquisitices da compra da refinaria de Pasadena (EUA) e o superfaturamento das obras de Abreu e Lima. Agora, com o ex-diretor Paulo Roberto Costa entregando operadores e políticos envolvidos na roubalheira, a petroleira está no olho do furacão.

Não serão poucos os problemas que Joaquim Levy terá que enfrentar. As relações entre o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com funcionários do segundo e terceiro escalões de várias dependências do governo certamente não serão das mais agradáveis – e ele sabe disso. Quando ele saiu do Tesouro Nacional no primeiro governo de Lula, muitos deles já estavam alojados em áreas ligadas aos órgãos financeiros do governo e poderão cruzar com o mesmo Levy que destrataram no máximo, a ponto dele renunciar ao cargo. O staff que Joaquim está montando, contudo, tem uma ordem: quem atrapalhar ou fizer corpo mole, será transferido.

Mesmo com a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, a economia brasileira não retornará ao mesmo nível de crescimento do período do ex-presidente Lula. É o que prevê o economista e engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros. No último ano de mandato de Lula, em 2010, o Produto Interno Bruto cresceu 7,5%. No terceiro trimestre de 2014, a economia brasileira cresceu 0,1%. E o mercado prevê crescimento zero para este ano – o último do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

Na opinião do economista, Dilma errou no primeiro mandato quando incentivou a expansão dos gastos do governo, levando a um cenário de descontrole das contas públicas. Ex-presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no governo de Fernando Henrique Cardoso, Mendonça de Barros afirma, no entanto, que houve um reencontro do governo Dilma com o mercado privado.

Ele acredita em harmonia entre Dilma e Levy, que têm visões antagônicas sobre o funcionamento da economia. Levy é formado pela ultraortodoxa Universidade de Chicago, enquanto Dilma defende o modelo de gastos públicos. “Quando se chega à beira do precipício, a política faz coisa que até Deus duvida”, disse Mendonça de Barros.

Números do Ipea que apontam aumento dos miseráveis em 2013 são tratados pelo primeiro escalão do governo como “não oficiais” ou “margem de erro”. Dados oficiais do governo apontando o risco de racionamento de energia no Sudeste “não valem nada”.

Desfaçatez não falta. O Ibama chegou a dizer que não contou ao país que o desmatamento da Amazônia aumentou 122% em agosto e setembro para impedir a ação de bandidos. Posto assim, o órgão ambiental teria auxiliado continuamente a bandidagem e só deixou de fazê-lo nos meses pré-eleição. É de dar vergonha.

Deixe uma resposta