Paz, ainda que breve

Vinho

Pedir que a humanidade passe a viver em concórdia é quimera na qual só os cartões natalinos fingem acreditar. Fiquemos, assim, com um voto mais modesto e factível: que ao menos nas comemorações destes últimos dias de dezembro prevaleça a harmonia, bandeiras brancas hasteadas, e que o peru com farofa, incontestável rei da festa, receba a companhia dos vinhos certos. Ceias de fim de ano são o reino da diversidade. Ao lado de sua majestade o peru, saladas, lombinho, bacalhoada, pudins, uma infinidade de sobremesas – mais o cunhado, tias sonolentas, o corre-corre das crianças, agregados, parentes em todos os graus.

Tal cenário requer do anfitrião algum jogo de cintura, sobretudo na escolha dos vinhos, e o segredo, aqui, é não complicar, seguir direção oposta ao do muito de tudo. Ao invés de garrafas em excesso, poucas e simples, das que abraçam sabores diversos. Rótulos de nível elevado requerem opções gastronômicas pontuais, cuidadosas, por isso estão barrados. Cedem lugar aos vinhos jovens, frutados, que vão amaciar, por exemplo, a habitual secura do lombinho ou das carnes de aves.

Na pole position, um bom Malbec argentino, artigo que não falta nas prateleiras, assim como tintos portugueses do Alentejo ou do Douro, sempre suculentos, de bom corpo. Pense também em Tempranillos espanhóis da região de Ribera del Duero, ou da vizinha Rioja, de preferência da categoria crianza, menos marcados pelo estágio em barricas de carvalho. Cabe, igualmente, um Merlot nacional, uva que vem se destacando na Serra Gaúcha.

Vinhos assim são polivalentes nas harmonizações. Todos, por exemplo, se darão bem com o tradicional prato de fim de ano, o bacalhau, embora, aqui, outro ajuste preciso seja um Chardonnay pouco amadeirado, branco, que o Chile produz com competência.
E é preciso levar em conta os convivas que se inclinam por paladares levíssimos. Um Beaujolais Villages cumpre a função, sem esquecer que, a preço muito acessível, e feito pelo mesmo método e com a mesma uva, há o Gamay 2014 da Miolo, vinho fácil de beber, de baixo teor alcoólico (12°).

Outra ideia: apostar na antiga fórmula espanhola conhecida como sangria ou ponche, agradável e refrescante bebida de preparo doméstico. Para uma garrafa de vinho tinto, usam 250 ml de suco de laranja, meia maçã e meia pera picadas em pedaços miúdos, uma laranja em rodelas, açúcar a gosto. Juntam tudo e deixam por algum tempo na geladeira, para que as frutas se impregnem. Vai à mesa em vasos largos, sendo retirada com uma concha e servida em pequenas canecas.

Mas as festas não começam nem terminam à mesa. O momento do brinde, das borbulhas, é o ponto de partida. Seja champagne ou espumante nacional, cai melhor o estilo seco, brut, apesar de muitos preferirem um demi-sec, ligeiramente adocicado, companheiro também das sobremesas. E ao fim, para segurar o moral da ala que não arreda pé, um Porto é tudo de bom. Tawny ou Vintage, não importa. Potentes, licorosos, revigorantes, eles serão um antídoto, mesmo que efêmero, ao baixo astral inevitável diante das adversidades que este ano novo nos promete.

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