A fortuna sexual do sábado para casais

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Na noite para troca de casais da Venus, o jogo é direto. Algumas mulheres chegam a sair cansadas de tanto fazer sexo

 

Jorge tem 26 anos, é moreno, atlético e veste apenas sunga vermelha e botas. É um dos gogo-boys da Venus Swing Club, casa localizada ali nos arredores do Atuba. Jorge e mais dois homens de porte físico semelhantes dançam em um dos sete postes de pole dance da pista principal, cheia de luzes extravagantes e mulheres enlouquecidas de uísque. Mas Jorge não é o centro das atenções: inclusive, depois das duas da manhã, ele chega a dançar sem ser assediado – um gogo-boy solitário é uma cena especialmente triste, acredite.

Na Venus, sábado é a noite de troca de casais. Por R$ 90 (isso se você conseguir entrar em uma lista de reserva, concorridíssima) pode-se usufruir de tudo o que o espaço oferece. A casa recebe uma média de 300 pessoas por noite, que se distribuem em 14 espaços de interação. A pista principal é bem iluminada, mas imperam mesmo os becos escuros, onde o sexo pode ser concretizado em condições inimagináveis.

A programação do dia é voltada para casais liberais, mas mulheres solteiras podem entrar. E de graça. E sempre. Aliás, a cada quatro solteiras, a casa dá de presente uma Smirnoff ou uma Big Apple com mais duas Citrus. Diferentemente das noites para solteirões, no sábado a equação é até similar entre homens e mulheres. Cada dia tem uma espécie de chamariz. As quintas-feiras são reservadas para o sushi erótico, quando as mulheres que trabalham na casa, geralmente com os seios à mostra, se ornam com iguarias espalhadas pelo corpo e “servidas” em seguida. O saquê é liberado.

Como se vê, a putaria obedece a uma certa lógica e segue alguns códigos. Para um swinger de primeira viagem, é recomendável ter em mãos algumas camisinhas e balas para inibir uma eventual halitose – as noites se estendem das 22 horas até seis da manhã. Recomenda-se beber com certa moderação, até porque uma long neck custa R$ 13, e se isso não é problema pra você, ótimo, mesmo assim, é sábio não se estragar cedo no copo. É apropriado levar lenços umedecidos para enxugar as partes íntimas, um gel para lubrificação e, sobretudo, bom senso: são as mulheres que determinam, na maioria dos casos, o que vai ou não acontecer.

Logo na entrada, a promoter, uma loira algo estupenda,alerta sobre algumas regras básicas, como a proibição do uso de celular, e faz algumas perguntas sobre nossa frequência em locais de tal temática– eu e Débora, minha amiga-namorada da noite, fingimos intimidade e nos tratamos por vocativos carinhosos. A loirona fala das saídas de emergência, mas não nos importamos com isso, até porque passam duas mulheres de vestidos bem curtos e uma aura de profissionais de outro segmento análogo, o que nos emociona.

De modo geral, ela relembra, os homens vestem calça jeans e camisa social. Não é permitido entrar de bermuda, chinelos, bonés e camiseta do Corinthians (adendo meu). Quase todas as mulheres usam vestidose saltos altos mesmo. Ela vai rapidamente apresentando os diversos quartos públicos para trocas de carícias, onde a coisa é realmente movimentada. Em apenas um corredor é possível ver, através de espelhos, uma mulher um tanto obesa, de quatro, fazendo sexo com um rapaz bem magro, nu, de boné – quem está dentro não consegue ver quem está no papel de voyeur no lado de fora. No quarto a seguir, um senhor trajado somente de meias sociais marrons é chupado por uma morena excepcionalmente curvilínea. No terceiro cômodo, é possível conferir um bacanal digno de uma página da Casa dos Budas Ditosos, com seis pessoas em funções diversificadas. Um se masturba sozinho no canto, e parece o mais feliz.

Na maioria, os casais têm mais de dez anos de união estável e, no mínimo, um filho. As mulheres geralmente são as responsáveis pela aproximação, conversando primeiramente com a mulher da outra relação. E elas são bem desenvoltas e criteriosas e quebram bem o gelo, escolhendo as “melhores” parceiras para os maridos, que mal disfarçam os cabelos brancos e são breves estereótipos dos vídeos de sites pornôs gratuitos.

Em menos de meia hora, três casais se aproximam de nós, ainda mais depois que a Débora subiu no poste e ficou apenas de corpete e calcinha. O beijo que ela deu na ruiva do homem de bigode gerou alguns tímidos, porém honestos, aplausos. Um casal começa a conversar conosco e pergunta sobre nossas aptidões. Eles, na faixa dos 40 anos, têm três filhos, sendo o mais velho de 18, e frequentam casas de swing há sete temporadas, ao menos uma vez por mês.

Armando fica realmente aficionado por Débora e me questiona amigavelmente se há problema em falar umas sacanagens para ela. Digo que não, imagina. Ele pede, então, com alguma salivação, para que minha “esposa” beije a sua mulher, Fátima. Elas se beijam, Débora com mais desenvoltura do que Fátima, que parece um pouco tímida. Vamos todos para o quarto após o aval das duas signoras.

 

Lapada noturna

No quarto, parecido com qualquer cômodo de motel que custe menos de cem reais, Débora começa a ser chupada por Fátima, que apresenta, então, uma perda de timidez repentina. Fico nu, observando tudo. Armando, com um olhar transtornado, também está nu, do outro lado, dizendo coisas como: “Chupa ela gostosinho, vai”, “Veja que carnuda que ela é”, “Isso, lambe ela toda todinha”, “Que tesão isso tudo… Que tesão…”.Tento não focar nos diálogos e me concentrar apenas na movimentação. Fátima colabora com a minha estratégia ao começar ame chupar,ainda em marcha lenta. Todavia, como é uma volante que vai aos poucos ganhando confiançapara subidas mais audaciosas ao ataque, logo ela engrena na grande área e assume de vez sua vocação ofensiva. Então, a cena fica assim. Fátima deitada me chupando e sendo chupada pela Débora, que, por sua vez, está de quatro, sendo “trabalhada” por Armando, que não para de falar umas coisas abaixo da crítica pornográfica.

Fico com um pouco de raiva dele, mas parece que o homem calvo e com jeito de bancário está se divertindo muito, pois baba um pouco.
Ao fim de tudo, Débora troca números de telefone com o casal e o sujeito me agradece pelo desempenho da minha “mulher”, o que me parece uma congratulação desmesurada.[Esbarramo-nos mais três vezes durante a noite, não sem que Armando repetisse, com seu ar um tanto ridículode devasso-maroto: “Gostosa…”]

 

Onde dói?

Descemos para fumar e tomar uma cerveja. Não fumo. Logo Débora se recompõe como se tivesse se embebido de alguma substância mágica e crava: “Quero ir na Dark Room”. Na Venus, o célebre quarto escuro fica no fim do corredor das cabines coletivas. O negócio por lá é nervoso. Uma cortina divide a pouca iluminação do breu completo e do cheiro forte de esperma e suor. O espaço, que deve ter uns cinco metros quadrados, é superlotado e, mesmo assim, o trânsito é intenso. Combino com a Débora de ficarmos de mãos dadas, enquanto encosto-me a uma parede. Entre gemidos e socos característicos, Débora diz que estão chupando seus peitos. “Estão! É mais de um!”, quase grita em meu ouvido. Logo alguém levanta seu vestido e começa a penetrá-la de pé. Fiel ao combinado, ela segue segurando minha mão. Para não cair no sono, resolvo fazer uso do orifício disponível, mas na primeira investida encosto-me a um membro que não é meu. Logo ajeito meu GPS e tudo volta a fluir bem. Uns três minutos depois, Débora está chupando os peitos de uma mulher.

Quando se abaixa, está chupando um pau. Ao que parece, da mesma pessoa. Sigo segurando a sua mão. Ela levanta e começa a reclamar que está toda dolorida – parece que o travesti usou de força excessiva no trajeto. “Mas foi bom…”, completa. Antes de sair, ela me chupa. Alguém tenta passar a mão na minha bunda. Quando vou retirar a mão, não é uma mão.

Saímos do cubículo como se tivéssemos sobrevivido há sete anos sem água no deserto, voltando a um mundo aparentemente mais plausível. Decidimos, enfim, sentar, embora Débora esteja reclamando de dores no quadril. “Eu não aguento mais dar!”. Passam-se duas horas e, próximo das 3h30, a casa começa a esvaziar. Resolvemos dar uma volta, ver o que acontece nos corredores e tal, ambos um pouco manquitolas, e então descansamos rapidamente os olhos num casal de quase-idosos, se amassando num dos aquários. Quando estamos prestes a sair, uma loira belíssima, belíssima mesmo, acompanhada de um sujeito com ar de ex-boleiro, diz: “Mas já estão indo?”.

 

Gibões

Segundo dados extraoficiais – não há exatamente uma associação do ramo – são 50 casas de swing no Brasil. A saber, Curitiba tem três. Em seu site, a Venusdisponibiliza uma ótima carta de princípios editoriais. “Seja pássaro, castor, raposa, gibão, homens ou mulheres, a monogamia não implica em exclusividade sexual.” São quase cinco da manhã. Débora está com o ex-boleiro. Chama-se Silvinho. Estou com a loira Gabriela, linda, linda. Os dois adotam táticas semelhantes às nossas. São amigos com algum passado afetivo sem rancor que frequentam casas de swing para interagir com outros casais e em quantidade acima da média humana de solteiros, o que talvez expliquem algumas notas de cansaço conjugal. Gabriela, por exemplo, diz ter vindo apenas pela segunda vez, mas não exatamente por opção.

Silvinho alega ser frequentador do espaço há mais de dez anos – agora percebemos que ele não tem a mão direita, ocorre-me que ele é o estereótipo perfeito do sujeito que mexe com coisas erradas –, confirma a versão cândida da amiga-namorada, e ainda conta a história pioneira de convencimento. Disse que ia levá-la para uma balada. Quando os dois chegaram, Gabriela deparou com uma “balada mais animada”, descreve, com um sorriso indisfarçável.

Encontramos duas salinhas mais reservadas, onde reina um silêncio quase inefável. Depois do sexo e de meu desempenho de time caindo para a Segunda Divisão,Gabriela indaga:
– Gostei de você, moço. Como se chama?

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