Conta comigo!

Chico_Anysio

Chico Anysio. Foto: Reprodução/site cms.hojeemdia.com.br

 

Quem teve uma infância solitária, complexa e introspectiva certamente sabe do que falo. Muitos assistiram ensimesmados ao filme Stand by me – Conta comigo, do diretor Bob Reiner, baseado num conto de Stephen King, que narra a trajetória de três amigos que aos 12 anos saem em busca de um corpo de um adolescente desaparecido nas matas do Maine.

A história é uma daquelas jornadas de autodescoberta que marca a vida de uma criança pré-adolescente para sempre. Tive algumas. São esses fatos marcantes que nos transformam repentinamente em homens ou mulheres, nos amadurecem e não deixam que voltemos a ser mais os mesmos meninos e meninas de outrora. O problema é que com o passar do tempo sentimos saudades daquela criança perdida para sempre; da sua coragem infantil e irresponsável, mas também das suas angústias e dos seus medos, mas, principalmente, dos seus sonhos e das suas esperanças que nunca retornam.

Pois foi de Chico Anysio, esse artista genial que só não foi mais genial aos olhos dos críticos porque fazia piada, que saiu o texto mais sensível que li na vida sobre o resgate da infância perdida: O Menino. Chico era daqueles que só aparecem de século em século. Sua crônica é singela, mas profundamente sensível. O texto revela-se uma poesia sobre a busca de uma infância perdida, que embora vivida com as agruras sofridas cotidianamente, é confrontada com as dores, frustrações e saudades da vida adulta, e que de tão comuns nos tornam infelizes e tristes. O resgate das esperanças e dos sonhos de infância é o que nos torna especiais para continuar acreditando que a existência tem, enfim, um sentido. Preciso também encontrar esse meu menino que me olhe nos olhos e me fale: conta comigo!

Desejo muito que, ao final de sua existência, Chico tenha finalmente encontrado o seu garoto perdido que tanto procurou. Eu vou continuar procurando o meu. Seu texto, transcrito ao lado, merece ser lido por todas as almas sensíveis.

 

O Menino – Chico Anysio

Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido. Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos. É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir. Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância. Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola. Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes. Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de “Romeu e Julieta”, sem nunca ter lido a história. Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga. De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia em seu quarto. Tímido até a ousadia, seus silêncios gritam nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma. Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto. Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz. Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador do jeito que ele é, não duvido nada. Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate. Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todos os dias. Mas se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque… ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.

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