Convite à reflexão

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Apesar do tom de guerra final que a eleição presidencial assumiu, gerando o maniqueísmo do bem e do mal, projetados nos dois candidatos, visível no entredevoramento das redes sociais e num grau menor nos programas de tevê e de rádio, percebeu-se que estamos consolidando a democracia, posto que não agrade por vezes a patologia da má educação e da intolerância registradas. É claro que a beligerância persistiu acesa até a apuração do último voto dado, o acirramento da disputa e o radicalismo que ganhou nos últimos dias em função do debate televisivo tido por muitos como decisivo.

Como sempre – e essa é uma deficiência que só o tempo há de corrigir – houve excesso de retórica e carência de propostas com a perda, que se dá em todos os níveis, de tempo em questões menores no marketing da exaltação pessoal e da “demolição” do outro. Apesar da complexidade e riqueza dos problemas do país, o sentido personalista predominou e isso infelizmente atende a uma perspectiva cultural bem nossa: valem mais os personagens do que uma doutrina, o homem providencial ainda é uma das nossas características, razão pela qual essa ideia de uma reforma política que priorize os partidos nada contra a correnteza das nossas mais enraizadas praxes.

E disso decorre outra deformação: entre o governo das leis, questão colocada por Norberto Bobbio num dos seus últimos livros sobre o porvir da democracia, e a dos homens há notória predileção pelo caudilhismo da tradição, seja com Getúlio Vargas ou um sedutor como Juscelino ou um de corte populista como Luis Ignácio Lula da Silva.

 

O avanço real

O pouco apreço ao governo das leis – e isso foi testado duramente nos regimes do Estado Novo (1930 a 44) e nos anos de chumbo recentes, onde o predomínio da ordem derivava do autoritarismo de uma imposição incontestável – é que justifica a exploração da encruzilhada entre o bem e o mal a ser decidida hoje exatamente pelos candidatos encarnarem a providência, o horizonte possível e imediato. De outro lado a pouca relevância que o público empresta à patologia gravíssima da corrupção parece rejeitar como essencialmente indesejável alguém que defenda a austeridade e se recuse à ficção de um distributivismo generalizado, essa cornucópia permanente a lançar o maná bíblico às massas.

Apesar de tudo isso, tivemos avanços justamente na parte institucional como a derrubada de Collor, o saque dos anões do orçamento, o sucesso da CPI dos Correios que chegou ao Mensalão, queda da CPMF, todas evidentemente feitas contra a vontade do poder central, o que sempre oferece a esperança de repetir-se até por sua virtuosidade.

 

A gradualidade

Há uma questão de ritmo, a gradualidade e a segurança invocadas por Geisel, que se ajustam ao modo de ser brasileiro: o movimento das “Diretas já”, da emenda Dante de Oliveira, mobilizou o país, mas não passou no trâmite parlamentar, conquanto tenha acumulado energia para um novo horizonte. A mudança no regime só foi possível pelo descontentamento de uma ala do PDS, que iria montar o PFL, com a vitória de Maluf contra o coronel Andreaza. Maluf já dera um drible nos milicos quando venceu o banqueiro Amador Aguiar na eleição para a prefeitura de São Paulo. Dissidentes, portanto vinculados ao estamento militar, é que tornaram possível a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, um tanto quanto esmaecida pela doença e morte do presidente e sua substituição por um outro do regime, José Sarney. Por aí se vê que militares ditaram o ritmo do retorno à democracia, conquanto prejudicados pelo peso das contradições internas, fixando o cronograma da própria Constituinte, o que os revisores da história, que não são poucos, jamais admitirão e subjugaram, inclusive, os grupos que ao longo do tempo tentaram refundar o golpe e infleti-lo à direita radical, a tal da revolução dentro da revolução, a que tantos se referiam.

Um ordenamento que prende José Dirceu e outros e que apura a roubalheira da Petrobras não deixa de ser uma garantia de que avançamos e avançaremos, independentemente de quem ganhasse como se deu com Dilma Rousseff. Há sinais de atraso também como é o caso do relatório final da CPMIda Petrobras, tão distante daquele do Mensalão.

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