Piada pronta

palha

Entre rir e chorar – o Brasil e suas inacreditáveis situações

 

“A descoberta de formigas ameaçadas de extinção da espécie Atta robusta, mais conhecida como saúva-preta, em área de uma obra da Petrobras, foi um dos motivos para a Mendes Júnior Engenharia, outra empresa investigada no âmbito da Lava Jato, cobrar ressarcimentos depois que o contrato já estava encerrado, por meio de transação extrajudicial. A empresa havia recebido R$ 493,5 milhões para prestar serviços no Terminal Aquaviário de Barra do Riacho, em Aracruz (ES). Em dezembro de 2010, a Petrobras aceitou pagar um extra de R$ 64,3 milhões por razões diversas, entre elas “dificuldades geradas por motivos de ordem ambiental.Uma comissão de negociação da estatal cobrou da Mendes Júnior mais provas dos prejuízos com as formigas, que foram localizadas em 16% da área da obra. A empresa não as apresentou, mesmo assim conseguiu negociar o pagamento por horas adicionais de seus funcionários na obra. O trabalho na área foi liberado apenas 15 dias depois da descoberta da espécie.” […]
(Thiago Herdy, O Globo, 23/11/2014)

 

Pelo crédito se vê que essa notícia é verdadeira. Estampou jornais, foi ao ar no rádio e na TV, circulou pela internet. Parece brincadeira de mau gosto ou campeonato ao contrário: quanto pior, melhor. O chato nisso é que o absurdo não tem ares de ineditismo; trata-se do mesmo fato de sempre em forma diferente. Será que a corrupção está inscrita em nossos genes?

Coisa triste! Não há muito lugar para escape. Das duas uma: ou o total abatimento moral ou a tentativa. Tentativa de quê? De volta por cima, de olhar para o lado, de procurar fé em mudanças e, até, de se divertir com a situação. Sabemos: rir é o melhor remédio.

Para estampar os momentos de brilho às avessas de nossa História, o melhor da nossa batucada querida.

Repare como composição de Roberto Roberti e Arlindo Marques Junior, composta no longínquo e presente 1954, Marcha da saúva, se estabelece como trilha para notícia tão recente: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil/Tem saúva na lavoura, tem saúva no quintal/ mas onde tem mais saúva é no Distrito Federal/ quá, quá, quá/ Essa é a pior saúva, seu Cabral/ quem não trabalha mete a mão no capital”.

Em outros tempos, era um jeito de dizer que, apesar da diversão, via-se com clareza pontas de icebergs, sabiam, os do palco e os da plateia, que o assunto era sério e por isso cabia até o humor para tratá-lo, denunciá-lo, comentá-lo.

Vamos a um exemplo ainda mais antigo. O ano, 1919; os personagens, Epitácio Pessoa e Rui Barbosa; o autor, Sinhô. Os morros cariocas, a vida boêmia, as rodas de samba tinham olhar para a vida política do Brasil. Havia certo interesse em falar sobre o que acontecia em outras esferas – tão diferente de hoje em dia, em que a música popular se concentra em mandar beijinho no ombro para as inimigas ou coisa ainda pior. Voltando a Sinhô, em 1919, corria eleição presidencial no país. Rui Barbosa, nosso orador-mor, apreciado pelas maneiras tão eloquentes no dizer, ficou mudo e sorumbático depois de derrota estrondosa para Epitácio Pessoa: o tribuno baiano não alcançou metade dos votos do adversário. Por conta disso, Sinhô disparou: “A Bahia não dá mais coco / Para botar na tapioca / Pra fazer o bom mingau / Para embrulhar o carioca. / Papagaio louro do bico dourado / Tu falavas tanto / Qual a razão que vives calado? / Não tenhas medo / Coco de respeito / Quem quer se fazer não pode / Quem é bom já nasce feito”. Pobre Rui Barbosa, de águia de Haia a chacota da MPB…

Ainda mais longe na esteira do tempo, lá em 1915. Marechal Hermes da Fonseca era nosso presidente. Dudu, como o povo o chamava, tentou promissora transação financeira: emprestou dinheiro de um banco inglês para fazê-lo render num russo. No meio da operação a grana foi confiscada para financiar a ditadura comunista. Do vexame, J. Carvalho encontrou inspiração para Ai, Philomena: “Ai, Philomena, se eu fosse como tu/ Tirava a urucubaca da careca do Dudu […] Dudu tem uma casa / Que nada lhe custou / Porque nesse presente / Foi o povo quem marchou”.

Lamartine Babo rendeu homenagens a Getúlio Vargas (de todos os presidentes, Getúlio talvez tenha sido o mais cantado, contra e a favor) em 1931 e emplacou a marchinha Gegê, a tratar das esperanças da Revolução de 30: “Só mesmo com revolução / Graças ao rádio e ao parabélum, / Nós vamos ter transformação / Neste Brasil verde-amarelo / Ge-e-Gê-/t-u-tu/l-i-o-lio/ Getúlio”, quase um jingle.

Outra sobre Getúlio foi a divertida Salada política; no palco da Rádio Nacional, Alvarenga e Ranchinho, em 1947, quando Vargas deposto dois anos antes estava num autoexílio no interior do Rio Grande do Sul: “Quem não conhece esse baixinho / Tão gordinho, que ele agora tá quietinho / Já morou lá no Catete quinze anos / Hoje tá só urubuservano”.

E só mais uma que envolve Getúlio, porque é irresistível. Em 1945, E. Frazão e Roberto Martins acharam o mote no enfraquecimento de Vargas ao mesmo tempo em que o sistema de democratização avançava e os ajustes políticos iam ficando claros com eleições à vista. Alguma semelhança com a atualidade? “Vossa Excelência, Vossa Eminência / Quanta reverência nos cordões eleitorais / Mas se o doutor cai do galho e vai ao chão / A turma toda evolui de opinião / E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”. O cordão dos puxa-sacos continua na mesma batida, cada vez aumenta mais…

E que tal o nosso Brasil a comprar porta-aviões de segunda-mão, modelo seminovo, por um caminhão de dinheiro? Aconteceu, claro. E não foi só uma vez. Em 1956, JK importou modelito da Grã-Bretanha e como se o fato, por si só, não fosse duvidoso o bastante, a pataquada continuou com uma disputa interna entre Marinha e Aeronáutica, as duas forças queriam para si o controle e propriedade da hercúlea aquisição. Juca Chaves, que começava sua aventura pelas composições satíricas, escreveu Brasil vai à guerra: “Brasil já vai à guerra, / Comprou porta-aviões / Um viva pra Inglaterra / De 82 bilhões / (Mas que ladrões!) […] / Porém há uma peninha /De quem é o porta-avião? / É meu, diz a Marinha / É meu diz, a Aviação (Ah, revolução!) / Brasil, terra adorada / Comprou porta-aviões / 82 bilhões / Brasil, ó pátria amada / (Que palhaçada!)”.

Esse desfile de bom humor sobre nossas pequenas tragédias cotidianas não tem fim. Muitas músicas entraram na lista inicial para esta edição, mas falta espaço. A sorte do que fica e o que sai foi quase tirada no palito, tamanha a produção e a qualidade. E para encerrar a edição, igual dificuldade. A escolha foi feita a partir de fato comum, que acontece aqui e ali, já fui testemunha e tenho certeza que se você ainda não assistiu fato parecido, pelo menos ouviu falar.

Trata-se da Maria Candelária, escrita pela dupla Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, nos idos de 1954. A dupla tratou de falar sobre os funcionários públicos de alto escalão, aqueles que chegam em seus postos pelo viés da indicação e não do merecimento; os que não trabalham tanto assim nem entendem muito do riscado para figurar na chefia. Eu conheço situação assim, as Marias Candelárias são muitas: “Maria Candelária / É alta funcionária / Saltou de pára-quedas / E caiu na letra ó, ó, ó, ó, ó! / Começa ao meio-dia / Coitada da Maria / Trabalha, trabalha / Trabalha de fazer dó / Ó, ó, ó, ó! / A uma, vai ao dentista / Às duas, vai ao café / Às três, vai à modista / Às quatro assina o ponto / E dá no pé / Que grande vigarista que ela é!”.

 

Variações divertidas e imperdíveis:

– Desabafo Carnavalesco, Freire Júnior
– Eu brinco, Pedro Caetano e Claudionor Cruz
– João da Silva, Billy Blanco
– Pela ordem, seu presidente, Ari Monteiro e Raimundo Olavo
– Pelo telefone, Donga e Mauro de Almeida
– Presidente bossa nova, Juca Chaves
– Que rei sou eu?, Herivelto Martins, Waldemar Ressurreição
– Retrato do Velho, Haroldo Lobo e Marino Pinto

 

 

Leia mais

Deixe uma resposta