Praia: onze comentários sobre as águas do Atlântico

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Desçamos todos ao litoral. Ao interior da cápsula. Beber das garrafinhas de plástico no pedágio. Apressar o gelo no isopor. Bater os pés na cisão entre as areias e o asfalto

 

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Quando dezembro engrena a sua marcha inevitável rumo à aniquilação do ano – as memórias começam a se consolidar e inconscientemente consultamos nossa balança emocional –, o sujeito urbano médio [trabalhador contínuo da capital, trinta dias de férias ou vinte + dez, crise existencial para pedir aumento ao chefe, luta ferrenha para não atrasar a fatura do cartão de crédito, joga bola uma vez por semana, e, quando dá, planos regulares de ir à academia, volume intenso de horas extras, quer visitar aquela amiga dos tempos de colégio desde setembro], seja homem, seja mulher, ali pelo dia 13 de dezembro, um pouco antes de meio-dia, passa a ser acometido por um fenômeno climático-psicológico-hierático-veranista característico e arrasador, uma febre da selva típica das cidades sem mar, um quebranto de entortar a alma em noites de insônia, uma cobiça de não sei o quê. É a vontade de ir à praia.

 

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A primeira cena que me lembro deste script azul chamado (além-mar) remonta a São Francisco do Sul e seu jeito de cidade de portos recém-abertos. Meu pai sentado numa dessas cadeiras coloridas que parecem ter fumado um baseado, evidentemente constrangido de estar perto do mar (o que sempre achei sublime, ter um pai que ignora o principado marítimo), minha mãe gritando para que eu não avançasse ondas adentro – até porque, para uma criança de quatro anos, o mar não existe para acima do pedaço de chão que se toca com a mão, o que se sente com as mãos e as pernas curtas não tem latitude e longitude, portanto, sem passado, futuro e sem dor. Então o primeiro caldo. Os pais, os avôs, os tios, o coqueiro, todos rindo e transbordando: mais uma criança na história do mundo vencida pelo primeiro respiro do mar, mais uma criança burra que cai e chora. Quando nascem varões, um amigo sempre diz – e até hoje não consegui identificar direito o tom e o propósito –: “Mais um para cagar no mundo”.

 

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A vontade súbita de ir à praia após o dia 13 de dezembro abala o cotidiano do sujeito urbano médio, que passa somente a raciocinar em termos microafetivos, vulgo a lembrança daquele dia em que estávamos bebendo num dia de semana às duas da tarde, cobiçando mulheres distantes. O desejo de abraçar o verão sobrepõe todas as preocupações. O vírus que assalta a alma atinge o sujeito urbano médio de três formas explícitas. A) Súbita vontade de consultar o calendário e cogitar emendas para enforcar o trabalho; B) Pulsão inequívoca de estabelecer um local para a reunião temporária de outros sujeitos urbanos médios; C) Consulta a outros sujeitos urbanos médios e suas finanças. Se você é um sujeito urbano médio do Paraná, como somos quase todos a partir de nosso umbigo universal, surgem três rotas consensuais: Matinhos, Guaratuba e Caiobá (Beach). Os nomes paralelos – Balneário Monções, Corais, União dos Ferroviários (mas que nome!) – são ecos de um mesmo grito no desfiladeiro: faltam dois dias para entrarmos em férias, faltam dois dias… E a cada ano a cerveja está mais cara.

 

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Para quem não nada, o mar é uma guilhotina que almeja te fiar pelos pés. A minha primeira ida à Ilha do Mel consta em meu itinerário afetivo como um compêndio de pânico e desespero, como se Netuno tivesse olhado aquela pequena embarcação debaixo de um sol brando, com aproximadamente 15 pessoas, e pensado: “Vou estabelecer o terror”. O que choveu e ventou naquela travessia não está escrito nos livros de história porque, ao que parece, outros transeuntes estavam acostumados com as intempéries do céu – e eu somente desejava que parasse de chover por cima e por baixo daquela cortina azul como um filme de Fellini, também dentro de mim. Como vingança, cometi um conto no segundo dia de estadia. Chamava-se No oco de seu canto.
Atenção às tentativas de harmonia e transgressão:
Era tão feito ao contrário que ao sair às ruas os ratos adormeciam, os bueiros trocavam de nome e as baratas tornavam-se cristãs. As plantas sufocavam, debatiam-se como loucas, urubus desistiam das carniças porque repentinamente sem apetite, forasteiros erravam de cidade e desembocavam na noite. Quando cruzou com um coração, súbito, o seu começou a bater. Engano: era o oco de seu canto.
Desde Voltaire, sabemos que até os textos ruins têm lá sua serventia.

 

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Não raro, o sujeito urbano médio angaria aproximadamente sete pessoas e dois carros para uma pequena turnê que começa geralmente no dia 24 de dezembro e segue até 2, no máximo 3, de janeiro, com possíveis e breves retornos para a empresa não nos rifar. Tais como os peixes do frio que seguem correntezas anuais e muitas vezes se perdem em águas mais quentes, o sujeito urbano médio passa o ano agasalhado na expectativa de torrar por alguns dias na companhia de seus semelhantes, topando a convivência íntima com um ou dois desconhecidos ou que não se gosta muito. Em seu âmago, ele sabe que irá sofrer, sabe que irá se irritar, sabe que irá se aborrecer em proporções acima de seu potencial de aceitação de situações desagradáveis na cidade. Contudo, nossa alma rompe hemisférios porque é verão e não podemos ser menos verão do que os outros. Sendo assim, o engarrafamento que iremos trombar na rodovia ficará em segundo plano, a sensação de morte que nos acometerá às três da tarde na praça de pedágio mais cara do sistema solar não será nada demais, até porque compraremos todas as garrafinhas de água que o vendedor tiver – mentira, só compraremos três, porque não somos de gastar muito com água, exceto a nova namorada do amigo, que não bebe e não fuma e torçamos, ao menos, que faça sexo com ele – e, já que estamos falando disso, olharemos com alguma preocupação o nível de água do marcador do carro. Essa desgraça não pode inventar de ferver bem hoje! Ainda faltam 16 meses de prestação. Outra coisa a observar: a cada ano aumentam os carros estragados no percurso capital-estrada-pão-com-vina-no-terceiro-dia-de-estadia.

 

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Imensidão Azul, de Luc Besson, é o mais belo filme sobre mar. O protagonista se mata. A mocinha chora. A trilha sonora é irritante. Mas gosto de golfinhos – e tremi diante do pesadelo do mergulhador. Nunca vi um golfinho, mas certa vez vi uma tartaruga morta na Barra do Saí – praia bonita cheia de touceira na divisa com Santa Catarina – sendo lambida por um cachorro de rua. A junção entre um golfinho, uma tartaruga morta, garrafas pet entre touceiras e um cachorro é o que chamamos de cinema de Luc Besson. Sempre choro vendo esse maldito filme. Acontece o mesmo fenômeno durante o vídeo da primeira vitória de Rubens Barrichello no YouTube.

 

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Quando o sujeito urbano médio chega à praia, depois de quatro horas e meia de congestionamento e do freio do carro quase pedir arrego, um novo prodígio se espalha em seu coração: a necessidade de fazer valer a pena. No primeiro e no segundo dia, especialmente, esqueceremos a criança de sete anos que não para de correr e sujar as paredes, até porque a nossa tia que emprestou a casa não irá notar, não, migraremos ao primeiro braço de areia às dez da manhã com nossas cadeiras de praia um pouco enferrujadas e uma série de coisas que provavelmente não usaremos, abriremos a primeira cerveja como se tivéssemos anunciado a independência do Brasil. Depois de estabelecidos o mais próximo que conseguimos de um pedaço de chão sem muita sujeira por perto, abriremos a segunda cerveja e pensaremos que esta é a vida que pedimos a deus. Sentido na vida > caos cotidiano. Não há de ser uma criança insuportável, um cachorro correndo com um saco de lixo na boca, jogadores de frisbee, homens de sunga ou churrasqueiros do mar que perturbarão a harmonia que agora arrocha nosso coração.

 

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Meu último namoro terminou na Barra do Saí, um desses locais tranquilos e algo dado ao esquecimento, como um livro leve de crônicas – estou ainda a falar da praia, não da namorada. Era fim de tarde de 31 de dezembro e tive uma epifania assistindo o musical Mamma Mia. Veja só que bela epifania. Tocava The Winner Takes It All. Escrevi isso aqui a ela: “Se eu pudesse dizer, meu amor, quando realmente descobri que a distância era melhor para nós, foi naquele momento em que Meryl Streep recorda outros tempos e a incomunicabilidade de tudo”. Mas tu é mesmo muito cretino, Daniel Augusto Zanella. Odeio esse nome do meio.
[Penso também que com tantos nomes bacanas de deuses gregos porque deram a um o nome de Asclépio?]

 

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“O mar é tão profundo na calmaria como na tempestade”, John Donne.

 

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Quando acordamos e percebemos que estamos numa casa de praia, nos sentimos livres das obrigações do cidadão comum que deixamos na capital. Não somos mais o catequista dos horários regulados, o homem sério dos jornais de literatura, o entregador de panfleto da madrugada, o lixeiro veloz das ruas com árvores velhas, a prostituta recebendo trocados de um gordo suado, o santo capinador do jardim, o açougueiro retilíneo em seus cortes diários. Somos O Homem da Praia, sem camisa, nascemos e crescemos juntos, nós e o mar, ó, meu semelhante, filho de deus, meu irmão. Não temos regras, ninguém manda em nós – mentira, evidentemente.Botamos chinelos, e meu amigo Álvaro, especializado em piadas de cunho erótico homoafetivo, parabéns por seu filho, meu caro, seu filho será grande, será grande e feliz, derrama o saco de gelo no isopor como se resolvesse, assim, toda a desigualdade no mundo, e logo alguém sabe de técnicas impressionantes para gelar a cerveja em 15 minutos. A praia, o mar, a distância de casa, mulheres com poucas roupas, homens lascivos e embriagados desde cedo… A praia, o mar…

 

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Mas a estadia chega ao fim por diversos motivos pedestres, como a necessidade de voltar ao trabalho, a companheira que não para de reclamar, o dinheiro que acabou, a comida que não desce mais, a cerveja local de custo pornográfico, a visita programada à casa dos pais, o aniversário do sobrinho.
Apesar de tudo o que nos impede e nos inibe na vida, por um 2015 vigoroso, sem eleições, sem 7 a 1, sem filmes do Nicholas Cage, sem mulheres ruivas que nos desnorteiam e nos fazem torcer contra o Paraná Clube – carece de rigor –, sem chapéu de Rogério Ceni no atacante adversário, gol do adversário!, sem cerveja quente, sem televisão aberta, sem corações aos tropeços reclamando afeto num bar às 4 da madrugada, “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor”…, sem gente muito séria. Por um ano menos ossificado e de boas coisas familiares, como uma crônica de Rubem Braga, pão e conhaque.
No final do ano estaremos de volta à praia. Até!

 

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