Preso no que está livre

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Já sabia, seria um dia penoso, daqueles que tenho de me arrastar para chegar a algum lugar. Não conseguia dormir, me batia, batia nele, trocava o lado da cama, levantava, deitava, caía no sono, sonhava algo ruim e no susto, acordava. Até que lá pelas tantas, lá pelas 3h30, caí num sono até o repentino do despertador me acordar, às 7h40. Gelei. Estava na lista do ódio acordar cedo. Tinha de estar em um compromisso às 9h, me aprumei ao banho e saí de casa. Demorei a chegar ao local. Tentava, retraída, parar algumas pessoas pelas ruas para tentar me localizar, umas me diziam para seguir a Mateus Leme e virar próximo a um posto de gasolina, outros me diziam coisas absurdas, segui o caminho mais certeiro. Quando já não visava nem de longe um posto de gasolina para me nortear parei um táxi, já estava atrasada 40 minutos, ele andou comigo por cinco e chegamos ao local. O dia não seria certo mesmo. O taxista bravo, por receber quase nada, falou algo baixo, pedi desculpa, desejei um bom trabalho e subi.

Cumpri com os compromissos, aliviada por saber que seria o último do ano que me faria acordar cedo. Saindo de lá acompanhada de colegas fomos ao tubo mais próximo para aguardar o ônibus. Tudo bacana, conversas agradáveis, pessoas boníssimas. Um se foi, ficou eu e uma colega apenas, conversa vai, conversa vem. Nada de muito intrigante, mas que resguardava toda minha atenção. Distraída que sou, não percebia as pessoas a minha volta, mesmo o ônibus estando um bocado cheio e fazendo com que diversas vezes nos tocássemos em outras pessoas. Como quem está num ônibus todos os dias, prestava a atenção nas paragens.

Acompanhada e com a atenção na conversa, não percebi a presença de um sujeito, não direi mal encarado (não vejo isso nas pessoas), era um sujeito normal, maior que eu, e torcedor do Paraná. O percebi no ato. Estava aproveitando-se do momento, do ônibus cheio para se esfregar em meu corpo. Petrifiquei. Não sou do tipo de pessoa que grita, xinga, esperneia. Apesar de fazê-loàs vezes e saber que nesse momento o mais provável era fazer. Mas dessa vez não. O dia estava ruim, ok. Mas me sentir invadida, enojada como naquele momento eu não esperava. Quando o percebi no ato ele se afastou, eu pensei em falar algo, mas ele saiu na frente. Como se nada estivesse fazendo esimplesmente seu ponto tinha chegado.

Petrificada continuei, mas um pensamento de invasão e um sentimento de repulsa não deixavam meu corpo. Não contei a ninguém. Estava pensando e lembrando da naturalidade do sujeito, da brutalidade contida que eu não havia percebido e num desdenhar sério ao me deixar e sair do ônibus, tranquilo, como se o papel dele tivesse sido cumprido.

Ao deixar o ônibus, sentei num banco do terminal. Já estava pensando que podia ser exagero, que realmente estávamos próximos pelo casual ônibus cheio. Larguei o pensamento por uns instantes e tentei retornar à leitura, que me invade sempre, mas de uma forma benéfica. O Alienista. Lá estava ele, a tentar medir a loucura, que por loucura ou não, mas demasiado, e completamente invasivo, tomava as pessoas para si, para analisá-las e “detê-las” do mundo, a seu modo.

De repente, não mais que isso, vejo que há uma mulher maltrapilha sentada ao meu lado que começa a puxar conversa. Ok. Dou bola e a escuto. Ela me diz – Só queria ter dois reais para comprar uma água. Falo – Venha comigo que lhe compro uma água, claro. Mas não, ela não quer, precisa de almoço, e também um trocado para comprar leite aos cinco filhos que a esperam em casa. Mas nessa longa frase sinto um cheiro de água ardente vindo de sua boca. Petrifico. Volto à leitura. Tento. Mas penso que o mentir não ajuda ninguém. E mais uma vez ela me chama a atenção pela demora do ônibus, eu concordo. Ela já embala um lamento por não ter uma casa tranquila para viver, de não ter dinheiro para o almoço e para água ardente, talvez uma pedra, quem sabe.

Sinto-me invadida mais uma vez. Eu não quero o mal, mas poderia eu ajudar pressionada, invadida? Não consegui lidar, paguei a água e um lanche à mulher. Parti no meu ônibus, retraída. Até que ponto eu poderia continuar a perambular por aí sem que uma pessoa não me abordasse, me tocasse sem que eu desse a liberdade. Até que ponto poderia usar minhas leggings sem que não fosse encoxada. Não sabia.

Continuei meu percurso. Os olhares de alguns e algumas acontecem, os constrangedores, na maioria de alguns, sempre me deixaram perplexa, com raiva, e várias são as vezes que os retruco com olhares desafiadores e completamente negativos, e até com frases como “perdeu algo aqui?”, “mantenha-se no seu lugar, mal educado!”. E também desde muito pequena pedia a minha mãe que me desse moeda para eu dar às pessoas que estavam pelas ruas. Sentia muito aperto no peito ao ver aquelas cenas. Já grande, nunca deixei de dar, nunca deixei de tentar ajudar. Mas nesse dia me senti invadida, insegura em qualquer lugar que fosse. Completamente desrespeitada.

Voltei a minha casa, me tranquei, pensei. Nenhuma tristeza, apenas um misto de nojo e raiva. Pensei comigo, ao olhar do alienista, essas pessoas deviam ir para A Casa Verde? Com certeza. Essas, de perto devem ser estudadas, devem ser analisadas. O que as corrompe ou o que falta corromper. O que passa na cabeça ou o que passa pela vida. Passou. A que ponto devemos chegar, para transbordar de nós mesmos e tentar invadir outra pessoa. Invadir, desbravar, ou, melhor ainda, arrombar o outro. Sem premissas, sem permissão. Pensei nisso, pensei naquilo. Devia ter esbravejado, com ódio pelas ventas. “Pega esse tarado nojento!” “Não tenho dinheiro pra lhe dar, vá procurar um trabalho!” Tudo fazia parte, o nojo e a raiva.

Mas não consegui, em nenhuma das situações, nunca as concedi, em uma petrifiquei, na outra, derramei. Já estava invadida. Desabafei, contei a um colega, ele disse que, logo eu, feminista, devia ter dado um chute e esbravejado várias palavras grandes. E que devia ter mandado a mendiga embora. Por quê? Livrar-me do que está livre. O livre que invade.

Continuo parada, reflexiva, sem saber. Sei que a mescla do que é educação nunca vai chegar a todos, portanto, todos esses continuarão invadindo as pessoas. E eu só sei do que sei, porque sei onde estou. Nesse momento a mescla do nojo e da raiva se junta à tristeza. Pois é da certeza de sabermos onde estamos e como é esse lugar, é que não temos noção de para onde iremos, só sabemos que não, não será bom.

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Foto: Divulgação

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