Sustento

suz-159

Eu estava acostumada a receber presentes dos homens.
Uma vez ganhei colar reluzente, esmeraldas. Passei a vestir verde para combinar. Saias, xales, camisas. Andava com a joia pendurada no pescoço. Quando o remetente se revelou, descobri que era a lingerie que precisava ornar com as pedras.
Com o tempo, outras pedras, outros homens.

Eu era bonita, jovem, carnes duras. Tinha disposição e alguns sonhos. Explicava os presentes em casa como provas de gratidão e bondade de Dona Laurinda, a dona da papelaria em que eu trabalhava. Não sei se alguém acreditava, mas o assunto dava-se por terminado.
Quando comecei a sair com Roberto a coisa mudou. Ele era um homem rico como os outros, queria de mim a mesma coisa que todos, casado como os anteriores. Mas era famoso, muito famoso. E toda vez que ele parava o carro em frente de casa a rua logo se enchia de gente, a formar círculo em volta e a fazer algazarras. Ele me levava para jantar, me comprava coisas. Não fazia promessas e eu nem as queria. Às vezes até sentia certo alívio quando mandava chocolates com um bilhete a explicar: “Hoje não poderei vê-la. R.”.
Mamãe se preocupava com o nosso futuro e todo atavio que tinha ouro ela guardava numa caixinha escondida entre os cacarecos do seu quarto.

Num domingo de missa, quando estávamos saindo da igreja, a vizinha gritou que era uma vergonha eu estar lá, “Pecadora! Amante do Roberto!”, puxou o coro da rua que em uma só voz cantou “Meretriz! Meretriz! Meretriz!”.

Dia seguinte, jeito de me alegrar, Roberto me levou para comprar vestidos. Vestidos e sapatos. Vestidos, sapatos e bolsas. Vestidos, sapatos, bolsas e tudo que me movesse o espírito. Cheguei em casa com tantas sacolas que as mãos não davam conta de carregar. Minha mãe olhou para tudo aquilo, fez triagem, calculou e decretou: “Vão falar de você! Devolva pelo menos metade, essa parte”, e me apontou uma meia dúzia de embrulhos que não encontrou simpatia ou serventia.
Não me casei, não formei par, não tive amores. O sustento de mamãe depende de mim.

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