Travessa de livros

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Foto: Dédallo Neves

Foi um ato que nem a mais alta aristocracia francesa seria capaz de fazer, um verdadeiro ato de nobreza. O.K., eu a encher minha própria bola faz o ato não ser tão brioso assim, perco a credibilidade. Mas tenho certeza de que não houve fidalgo com o espírito tão nobre quanto o meu. Voltei a me vangloriar. Seguirei o conselho de Wanderlea e pararei agora. Vamos então aos pingos nos “is”, “j” também leva pingo e soa melhor fonoaudiologicamente a falar, aos pingos nos jotas.

Começando que este gesto tão nobre – que nada de nobre há, mas é bem legal de fazer – não partiu de mim, fui apenas o executor. Não inventei a montanha-russa, só controlo seus botões.

A ideia surgiu numa reunião com Adriana Sydor, Fábio Campana, Paulo Ras e eu. Discutíamos como seria a participação da Travessa dos Editores na Flipa (Feira Literária de Paranaguá), a primeira. Paulo Ras foi o organizador de toda a bagaça, subiu a serra e bateu de livraria em livraria, editora em editora, a fazer convites para montarem seus estandes, venderem seus livros, etc. Veio à Travessa, a editora gostou e topou participar, dias depois fizemos uma reunião: Adriana Sydor, Fábio Campana, Paulo Ras e eu e surgiu a ideia. “Por que em vez de montarmos um estande nós não distribuirmos os livros para quem for à Flipa?”. Kairós visitou o espírito de Adriana naquele momento – Kairós é o deus grego do tempo, não seria Chronos?, diria outro, também, mas enquanto este é do tempo linear, aquele é do momento preciso, do tempo certo.

E Adriana – no tempo certo – foi adiante, iluminada por Kairós. Partindo da lembrança de uma iniciativa sua, que nem o mais nobre aristocrata da corte francesa seria capaz, indicou: “Por que não fazemos o que estou fazendo lá perto de casa? Eu vou passear com meu cachorro e deixo um livro no banco da praça, continuo a passear, observo o que acontece”. Eureca! Decidido então? Pode Fábio? Fábio sustentou a ideia. Foi unanimidade, Sydor, a fidalga, Campana, Ras e eu concordamos fazer o mesmo em solo parnanguara.

Fui o escalado para cobrir a Flipa, tive funções que exigiam a minha onipresença, desafiei Deus. Tinha que cobrir a Feira e seus acontecimentos, palestras, debates, lançamentos. Fiquei responsável também em registrar o momento histórico – a primeira Feira Literária de Paranaguá – em imagens. Minha senhora me acompanhou, mais esta função, e não poderia deixá-la a ver navios, carecia de amor – que o editor não leia esta matéria. Tinha também que satisfazer meus luxos, haveria de sobrar um tempo para a gelada – que o editor realmente não leia esta matéria. E mais a reportagem, a tarefa era andar por Paranaguá, estacionar em praças e bancos, “abandonar” um livro, dar um tempo e ver como as pessoas se comportariam, se pegariam ou não, se leriam ou não. Parênteses para o clima, só não dava para fritar o ovo no asfalto porque Paranaguá é uma das cidades mais antigas do país, o que faz predominar o paralelepípedo.

Foram dois dias, sexta e sábado. No primeiro, não deu tempo para muita coisa, chegamos junto com o crepúsculo vespertino e dediquei-me exclusivamente à Feira, porém deixei os livros à mercê dos leitores numa estante vazia e solitária, o público olhava-os, folheava-os; o livro olhava o público, seduzia-o, encantava-o. E ambos se envolviam como numa dança.

As pessoas buscavam o caixa, a máquina de cartões, só avistavam a mim com uma mala enorme cheia de livros. “Gostou desse? Então é seu”, dizia, em seguida vinha a explicação da iniciativa da Travessa dos Editores. Quem passou por aquela sexta à noite na Flipa se encantou. Vi uma moça que estava a vender livros a me olhar de cara feia, quase demoníaca, como se eu estivesse a roubar sua clientela. Estava? Não sei.

Eram nove títulos diferentes, mas vários volumes – repetiam-se. Uns mais afobados se precipitavam sem cerimônia e pegavam nove com cara de “vai que acaba?!”, eu sorria, feliz a pensar na cobiça de literatura que ronda os parnanguaras, estranho seria o contrário.
Ansioso eu estava mesmo era para o sábado, para fazer a intervenção urbana, plantar os livros nos olhos distraídos de transeuntes, pois penso que quem vai a qualquer feira literária interessa-se pelo assunto, queria ver no cotidiano, na Rua da Praia, na rodoviária, no Mercado Municipal, em frente à igreja.

 

Sábado

Parênteses para o clima e para a refeição, se na sexta não dava para fritar ovo no asfalto, porque a cidade era de paralelepípedo, no sábado dava para fritar até hambúrguer na areia. E o sétimo dia é dia de feijoada em qualquer parte do Brasil, no Mercado Municipal tem um restaurante que serve comida caseira e feijoada aos sábados, enchi o pandulho, a vontade era capotar numa rede.
Com a barriga cheia de feijão, uma mala cheia de livro e uma cidade cheia de calor, fui caminhando e cantando e seguindo a canção, largando livro nos bancos, nas praças, mas nunca no chão.

O primeiro ponto que parei foi numa praça em frente à Igreja São Benedito. E não simplesmente deixei uns livros e parti ao próximo ponto, já tinha pensado que escreveria esta reportagem, logo precisaria de fotos. Posicionei os livros da melhor maneira, melhor ângulo, paisagem boa, de repente no banco da frente o Pedro senta, me olha e me cuida. “Quer um livro?”. “Não, tô de boa aí”. Achei que pudesse ter sido ríspido com ele e ofereço com mais gentileza, como se fosse a cerveja que a cara dele denunciava que estava a tomar antes de sentar ali. “Não, não, se eu pegar nem vou ler.” Por que não pegou para dar pra alguém então?, tudo bem, não vem ao caso, não quis e pronto. “Então, beleza, mas vou deixar aí no banco, se quiser pegar, são seus, como é seu nome?”. “Pedro”. “Prazer Pedro, sou o Dédallo, um abraço.” E vou embora com 101% de certeza que ele não entendeu meu nome.

A segunda paragem foi uma coincidência bárbara. Um dos volumes que vinha comigo era A casa azul ao meio-dia, da Flávia Rocha, passava um pouco de meio-dia quando descia os paralelepípedos de Paranaguá e avisto uma casa azul, parei, peguei o livro da Flávia e deixei no parapeito da janela. A casa azul estava fechada, torci muito para que a pessoa chegasse, a abrisse e visse a surpresa. Fiquei quase meia hora a esperar. Cada pessoa que passava pela casa me dividia o coração, queria que pegasse, mas também não queria, seria mais legal se o dono ou a dona da casa azul pegasse. Nada aconteceu. O proprietário, locatário, o diabo que é, não abriu a janela, fiquei com raiva por isso, ninguém na rua ousou a ver o livro, desisti e fui-me embora pra Rua da Praia.

Os parnanguaras me informaram que a suposta Avenida Atlântica da cidade recebe a alcunha de Rua da Prainha, era onde eu estava. E esse momento pode ser considerado o pico da aventura, onde aconteceu o que eu queria que acontecesse.
Antes de descrever os acontecimentos, cabe uma explicação. Dentro de cada livro que foi deixado nos lugares tinha uma cartinha assim:

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Foto: Dédallo Neves

Isso foi feito na expectativa de que alguém me ligasse, me mandasse um e-mail para contar a experiência em achar um livro na rua, perdido, a procurar um dono, queria ouvir o outro lado da história e não tirar minhas conclusões a partir do que eu vi de meio longe.
Quando estava na Rua da Prainha, fui largando os livros a cada cem metros. Andava mais cem, sentava e esperava. Pude ver duas famílias a pegar os volumes. Pude entender também que em Paranaguá eles conhecem muito bem o ditado “não se meta onde não é chamado”. Várias pessoas passaram pelos livros, espiavam curiosas, espiavam desconfiadas, espiavam com desprezo.

 

Famílias

Bingo! Criança abençoada! A curiosidade infantil não permite ver sem tocar, a menininha estava a uns passos à frente da comitiva feminina, tias, avós, mães, amigas das tias, das avós, das mães, sabe-se lá. Voltou feliz a gritar que tinha achado um livro. Todas as mulheres muito cabeludas, com saias jeans pelo joelho, sem decote, sem insinuações – aparentemente evangélicas. Com certeza evangélicas. A matriarca toma de assalto o livro da caçula da roda, abre desconfiada, olha à direita, à esquerda. Dono à vista? Não há. Folheia-o, encontra a cartinha, põe o livro debaixo do braço como se ela tivesse o esquecido. Quando pegou, comecei a rir, o título adquirido foi Zona Branca, do Ademir Assunção, o Pinduca. A graça é que Pinduca está mais para profano do que para sagrado, um dos versos do livro começa com“deus salve a deusa buce*/ e inche com sangue o cara* dos meninos”. O poema seguinte a esse é o 69. O que farão da arte promíscua do talentoso escritor as senhoras evangélicas? Amarrar-me-ei no ditado “Deus escreve certo por linhas tortas”e solta na banguela.

A família seguinte carregava pai, mãe e dois filhos. A mãe, embuchada – vinha o terceiro – e curiosa, capturou um volume, a reação foi a mesma, olha para um lado, para outro, não vê ninguém que se propõe dono, abre, folheia e começa a ler a carta. Chega o pai cheio de autoridade e arranca o livro de sua mão e leem a carta juntos, parece que eles desconfiaram da minha presença, evitava olhar para não me entregar, mas a vontade de saber o que aconteceria não me deixava e me fixei neles. Dão umas risadinhas daqui, outras dali. O pai sai em busca dos moleques e a mãe vai andando com seu novo livro.

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Foto: Dédallo Neves

A Feira Literária de Paranaguá surgiu com a proposta de dar opções de leitura à cidade. A Travessa dos Editores, a partir da ideia de Adriana Sydor e da viabilização desta reportagem por parte de Fábio Campana, fundador e editor, que disponibilizou os títulos, também quis dar opções, mas de outra maneira, e procuramos atingir o âmago do cotidiano.

As evangélicas não ligaram, talvez Zona Branca entrara numa zona negra. A mãe pode ser que esteja a parir. O feedback ainda não chegou, mas todos os cinquenta livros espalhados por Paranaguá foram recolhidos.

Depois que terminei de espalhá-los pela cidade, voltei à Feira e às dez horas, noite, quando tudo havia terminado, refiz o caminho da tarde. Na casa azul já não tinha o A casa azul ao meio-dia, na praça em frente à Igreja de São Benedito também não havia nada, se foi Pedro ou não, não saberei, não saberemos. Na Rua da Prainha tudo fora pego. Desta forma, a Travessa dos Editores conseguiu proporcionar mais opções de leitura para o povo parnanguara, que não conhece tão bem assim o significado do ditado “não se meta onde não é chamado”.

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Foto: Dédallo Neves

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