Com que roupa eu vou?

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Ah! O Verão! Sol a pino, calor de 40 graus ou de 40 anos para o climatério precoce. Calor que derrete ideias, despe o corpo e transforma em bica qualquer um que tente traje próximo do civilizado.

O negócio é arrancar os pudores e deixar que o clima tropical nos diga qual é a melhor roupa para enfrentar os dias de Saara.

Mesmo antes da eterna pergunta de Noel Rosa, a MPB vez ou outra nos conta sobre o que é mais adequado vestir ou reparar no guarda-roupa alheio. Nesta edição, várias possibilidades ditadas pela moda da música.

Começamos com a peça-fetiche da moda praia, Itsy Bitsy Teeny Weenie Yellow Polka Dot Bikini, que figurou primeiro lugar na Billboard em 1960 e um ano depois ganhou versão brasileira de Hervê Cordovil para se tornar um clássico cantado verão após verão para o bem e para o mal de toda Ana Maria: “Ana Maria entrou na cabine / E foi vestir um biquíni legal / Mas era tão pequenino o biquíni / Que Ana Maria está sentindo-se mau / Ai, ai, ai, mas ficou sensacional / Era um biquíni de bolinha amarelinha / Mau cabia na Ana Maria / Biquíni de bolinha amarelinha tão pequinininho / Que na palma da mão se escondia”.

Ainda a figurar pelas areias desse imenso litoral, Zuza Homem de Mello nos explicou: “O costume de abolir o uso das meias, adotado pelas cariocas no início dos anos 30, foi motivo de preocupação para os vendedores da mercadoria e de protesto de jornalistas conservadores como João Luso, Viriato Correia e Sílvia Patrícia. Em compensação, inspirou “Moreninha da praia”, música de Braguinha, que teve em Almirante seu primeiro intérprete: “Moreninha querida / da beira da Praia /que mora na areia /todo o verão / que anda sem meia /em plena avenida /varia como as ondas /o teu coração”.

E quem não lembra da moça que mesmo sendo paisagem constante no vai e vem da cidade atormenta os homens sérios que seguem em busca do ganha-pão de cada dia? É dentro de sua roupa encarnada que ela desenvolve os truques que levam à loucura. Música de Dorival Caymmi, de 1946, voltou recentemente aos palcos pela interpretação de Roberta Sá: “A vizinha quando passa com seu vestido grená / todo mundo diz que é boa mas como a vizinha não há / ela mexe com as cadeiras pra cá / ela mexe com as cadeiras pra lá / ela mexe com o juízo do homem que vai trabalhar”.

E para ficar dentro do tema vestido, o nosso Lápis, aos 15 anos compôs Vestido Branco. A ideia lhe ocorreu enquanto andava pelas ruas das Mercês, música e letra lhe chegaram tão juntas e tão prontas, que o compositor achou até que ela já existia e a memória estava, precocemente, a lhe trair. A composição frequentou as madrugadas curitibanas e até hoje é peça nos repertórios dos pinheirais, dói de tão bonitinha e bem feita a primeira bossa de Palminor: “Ponha aquele seu vestido branco / Que eu quero derramar meu pranto / Lembrando o nosso amor / Deixe ao menos eu chorar baixinho / Sozinho aqui no meu cantinho/ Lembrando do nosso amor”.

E quem diria que dentro da MPB há também as parcelas a perder de vista para estar em dia com o vestuário. No longínquo carnaval de 1924, Careca entregou no samba O casaco da mulata a fórmula dos menos afortunados: “Tu tens graça, tu encantas / A dor mal de um coração / Tu pareces quando canta / A juriti lá do sertão / Vem cá mulata / ‘Não vou lá não / Vou já vestir / O meu casaco à prestação’”.

Duvido que o mais cético dos homens não se entregue vez ou outra à superstição da roupa. A razão fica de lado e o pano ganha traços sagrados, transformadores. Há aqueles que têm peça de estimação para assistir jogo de futebol, os que cultivam roupa de flerte, de missa e até de concurso público, eu já vi. Mais ou menos nessa balada, Wilson Simonal gravou, em 1968, Vesti Azul, música de Nonato Buzar, feita originalmente para a cantora Adriana com o nome de Anjo Azul, espécie de homenagem a Marlene Dietrich. “Estava na tristeza que dava dó / E via vagamente e andava só / Mas eis que de repente me apareceu / Um brotinho lindo que me convenceu / Dizendo que eu devia vestir azul / Que azul é cor do céu e seu olhar também / Então o seu pedido me incentivou / Vesti azul / Minha sorte então mudou”.

A roupa, as escolhas do que mostrar, do que esconder e de como fazer tudo isso, também nos contam um pouco da personalidade ou do que vive cada personagem. Um exemplo de como a música fala sobre fases específicas, é O xote das meninas, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Flor a desabrochar, a adolescência chega dando as ordens para novos interesses: “Meia comprida, não quer mais sapato baixo / Vestido bem cintado / Não quer mais vestir timão / Ela só quer, só pensa em namorar”.

Do xote ao rap, do rap ao funk: Fausto Fawcett e Carlos Laufer escreveram a história da Godiva do Irajá, Kátia Flávia. A música fez parte da trilha sonora da novela “O Outro” e do filme franco-britânico Lua de Fel, de Roman Polanski, e está entre as mais-mais do repertório de Fernanda Abreu. Ao ler uma notícia de jornal a respeito de uma moça que aprontava todas na boate Kiss, inferninho do Irajá, Fausto teve a ideia de misturar suas peripécias à personagem Lady Godiva e assim a despiu e contou para todos como eram suas, digamos, peças íntimas. “Kátia Flávia é uma louraça belzebu, provocante / Uma louraça Lúcifer, gostosona / Uma louraça Satanás, gostosona e provocante / Que só usa calcinhas comestíveis e calcinhas bélicas / Dessas com armamentos bordados / calcinha framboesa, calcinha antiaérea, calcinha de morango, calcinha Exocet”.

Camisa listrada, camisa amarela, vestidinho preto indefectível, minissaia que revira a cabeça dos homens, casaco marrom viajante a velhos tempos ou apenas casca de banana nanica a sublinhar existencialismo… não importa o modelito, a MPB também nos dá aulas de alfaiataria, de moda, de costumes; um lema antigo, que nos ensina a fazer renda e a namorar, tudo ao toque do play.

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