Curitiba no Tinder

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De belfies aos triângulos amorosos, a mais popular tecnologia para encontros casuais encontra na capital um cenário marcado pela diversidade – e alguma bizarrice, evidentemente

 

Mariana ouviu falar dos poderes do Tinder através de sua amiga Fernanda, que estava realmente empolgada com o aplicativo. Moradora do Boqueirão, loira e altamente interessada em sexo casual após o fim de um relacionamento que deu até em tiro numa das brigas, Fernanda fez sexo com dez homens em dez dias. Todos os encontros foram marcados através do Tinder, com sujeitos dispostos a não perguntar muita coisa.

03-pessoasEntretanto, Mariana não teve uma experiência tão lúdica com a ferramenta como a companheira de balada. Ao estabelecer conversa com um rapaz chamado João, até gostou do menino, que se mostrou receptivo. Porém, ele caiu na besteira de ser memorioso e relembrar de uma história da adolescência de ambos. Ela não fazia a menor ideia do que João estava falando. “Nós fizemos sexo naquela noite, Mariana.”

Ela seguiu não se lembrando até que um detalhe fantasmagórico se sobrepujou: era uma festa no DCE da UFPR. De fato, nesse dia ela tinha transtornado, bebido sete encarnações e feito sexo com dois desconhecidos no banheiro, um sem camisinha – era o terceiro caso em 15 dias. Na outra semana a farra transformou-se em um corrimento amarelado. Estava com gonorreia. Enfim, acabou não dando sequência na conversa online e desistiu da ferramenta por não considerar da “sua frequência”. “Fiquei com um pouco de raiva do Tinder, na verdade.” Mariana é um caso raro e sabe disso – e não estamos falando de doenças venéreas. Praticamente todas as suas amigas na faixa dos 19 aos 25 anos avaliam o aplicativo com açúcar e com afeto.

 

Orgasmo de estrela

A pernambucana Alice, 22 anos, é torcedora fanática do Santa Cruz. A morena de olhos tranquilos tem um perfil translúcido. Só se interessa por moças que não queiram dormir em sua casa e saibam a hora de ir embora. “Curitiba é o céu para o Tinder. Toda semana saio com alguma moça que topa minhas condições. E é sempre muito divertido. Primeiro, avalio o perfil e vejo se é a minha vibe. Agora, por exemplo, estou saindo com uma estudante de Letras que tem um dos orgasmos mais fantásticos que já vi. É silencioso, retorcido e intenso. Parece que ela vai virar uma supernova.”

Disponível para smart- phones, o Tinder foi criado nos Estados Unidos, em 2012, por Justin Mateen e Sean Rado. A lógica chega a doer de simples: oferecimento de um pequeno álbum de figurinhas de gente para o usuário que quer pegar alguém em seus arredores. O percurso para se logar também é básico. A pessoa entra com seu nome de usuário e senha do Facebook, monta um perfilzinho e joga uma frase. Aí basta definir sua zona de afluência: se gosta de homens, mulheres, homens-mulheres, casais, enfim.

A partir dessa montagem, a ferramenta vai oferecendo uma espécie de menu, ao gosto do usuário, que vai deslizando as opções na tela. X significa desinteresse; vai pra esquerda. Direita significa olhaí, quem sabe, hein? Então é clicar no coração e aguardar se a outra pessoa corresponderá ao interesse. Se a análise do outro lado for positiva, o sistema celebrará o entendimento com um “it’s a match!”, algo como combinação, e a posterior abertura de uma janela de bate-papo.

Naturalmente, acontecem ruídos, como o caso de Adriana, que estava ficando com um homem mais velho depois de algumas experiências desabonadoras com moços de vinte anos. Ela descobriu, certo dia, num almoço em família, que o sujeito que estava saindo também flertava com sua mãe, viúva, convencida pela própria filha a entrar no Tinder após relatar que estava há seis anos sem fazer sexo. “Achei pesado e discuti com o sujeito. Nem eu, nem minha mãe temos mais contato com ele agora.”

 

@eunotinder

02-conversaDe modo geral, o perfil de usuários do Tinder é de jovens solteiros não muito interessados em relacionamentos estáveis, embora existam diversas ocorrências de relacionamentos que começaram na despretensão e viraram algo mais prolongado, não apenas um fuck buddy (sexo casual).

Foi assim com Andressa, que começou a ficar com Leandro após um evento fatídico. “Lembro que pensei duas vezes para dar like nele, mas a descrição era boa, me convenceu. Engatamos uma conversa e passamos ao WhatsApp. Continuamos conversando virtualmente até que um dia ele me ligou dizendo que a sua avó tinha falecido. Acabamos nos conhecendo pessoalmente no velório da coitada. Isso fez com que ficássemos mais próximos. Então, numa dessas noites lisérgicas, perguntei a ele o que achava de namorar. Ele achou que era massa.”

De gente interessada em sexo descompromissado numa noite de terça-feira a moças com suas cláusulas particulares, há um panorama amplo no Tinder. Não faltam casais em busca de expansão conjugal ou exercícios individuais de egotrip. A mulata Silmara tem, em seu álbum de seis fotos, o saudável critério de expor as curvas traseiras em belas lingeries, a popular belfie, de butt-selfie, a selfie da bunda – há quem diga que a tendência do verão será o pau de belfie. Também tem quem busque conhecer novas pessoas pela parceria mesmo, como Sandra, que gosta de metal-melódico-nórdico. “Omnium Gatherum é a melhor banda do mundo.”

Contudo, como estamos a falar de Brasil, não da Finlândia, aqui onde até o Wikipedia é vítima eventual da fanfarronice, há um grupo cada vez mais emergente na plataforma: a velha turma da zuêra. O aplicativo tem sido ambiente profícuo para páginas de humor que exploram o universo algo bizarro de estranhos em busca de aproximação. A colisão acaba sendo inevitável. Na página @eunotinder, do Twitter, se constrói um painel do surreal, com diálogos que beiram o melhor do nonsense.

De fato, a abordagem conta muito, como alega Alessandra. “Pra mim, existem três tipos de homens no Tinder: o babaca direto que já chega falando que quer te comer. O cara que não tem muito assunto e fica perguntando sobre a sua descrição e faz mil piadas sem graça em cima disso, às vezes te chama de linda também. E, por fim, os malucos, que são os que gosto mais. Geralmente puxam assunto sobre uma coisa aleatória e são engraçados, até involuntariamente. Gosto deles.” [Em sua conta no Twitter, o poeta e tradutor curitibano Adriano Scandolara resumiu bem a situação: “Entradas inusitadas p/ conversa no tinder: boa: – vc gosta de pudim? má: – vc quer ver o interior da minha van?”]

 

Essa barra que é querer comer você

Não podemos negar que há empecilhos para o pleno sucesso através do Tinder e que nem todo esforço para transar será recompensado. São inúmeros os motivos, desde a desmascaração do famoso Golpe do Avatar, quando a pessoa é muito distante do que suas fotos no Tinder aparentam, até a natural inaptidão de muitos seres humanos para fazer sexo com seus semelhantes.

Um exemplo de desiludido no Tinder é o técnico em mecatrônica Alex, que, desde sua entrada na rede social, em agosto de 2014, não pegou ninguém. “Acho que as mulheres me acham feio”, diz. “Ou esquisito”, complementa. Alex conta que certa vez até marcou um encontro com uma moça no Guadalupe (!), mas não rolou afinidade. “Sou desses que levam a sério o que o cantor e compositor francês Serge Gainsbourg dizia: ‘A vantagem da feiúra, perto da beleza, é que a feiúra nunca acaba’. Hei de encontrar um amor pra chamar de meu”, vaticina.
Não desanime, Alex.

 

Correlata

Ela goza entre caixas, frutas, prateleiras

Ana Porto

Confesso que quando meu parceiro me apresentou o Tinder, eu fiquei entre impressionada e desconfiada. Um aplicativo em que você escolhe a pessoa pela imagem e, se for recíproco, se conversa e marca de transar. Achei vazio, superficial. Por outro lado, o que há de mal em transar com um estranho que você achou bonito? Complexo. Algum tempo depois aprendemos que usar o Tinder é uma arte, a arte de mostrar quem você é pelas fotos e por uma descriçãozinha miserável. Aprendemos. E aprendemos muito mais que isso, porque depois que os dois perfis se combinam é com a pessoa que você interage, não com a imagem dela. E pessoas ensinam.

A primeira pedra que topamos foi sermos um casal. Os perfis se dividem entre homens ou mulheres à procura de homens ou (e) mulheres. Éramos um homem e uma mulher, usando um perfil que era pra ser de uma pessoa só, ou seja: só o nome de um dos dois aparecia no perfil e mesmo que as fotos fossem de nós dois, a maioria das combinações sempre queria um ou outro, não os dois juntos. Também procurávamos apenas mulheres, porque eu sou bissexual, e ele, apesar de inúmeras conversas e tentativas de se interessar por algum cara, percebeu que é hétero mesmo. As meninas acabavam achando as coisas estranhas, porque grande parte das bissexuais assumidas são também feministas e não se agradavam muito dessa história, com receio de rolar uma opressão da parte dele. Mas eu adoro mulher por vontade própria.

Em duas semanas conseguimos convencer uma moça de que éramos legais mesmo e ela aceitou tomar umas cervejas lá em casa. Tínhamos acabado de chegar em Curitiba e ela foi um choque de realidade, para o bem. Contou-nos que tinha um relacionamento aberto, falamos sobre assuntos que, até então, éramos iniciantes: feminismo, transfobia, RLI (Rede Relações Livres) e, ao fim das cervejas, nos beijamos no tapete, indo em seguida para a cama. Ela era linda (a moça, claro, não a cama) em todas as posições e, nossa, como eu gostei quando ela pediu que eu sentasse na boca dela (as meninas que a gente tinha ficado até então, fora do Tinder, na nossa antiga cidade, tinham tendências mais héteros, eram mais paradinhas e tal). Terminou, ela sumiu e nunca mais voltou, como naquela canção do Tim Maia. Nos sentimos usados, abandonados, querendo mais. E aquela conversa toda fez a gente se achar um tanto conservador com toda nossa heteronormatividade. Conversamos, vimos que éramos muito felizes assim e passou.

A segunda situação é nossa melhor amiga até hoje. Encontramos-nos em um lugar público, ela era mais desconfiada, o que é bem compreensível. Ela foi com uma amiga. Eram lindas, drogadas (que nem a gente, tendendo mais para a psicodelia que para os estimulantes), engraçadas, inteligentes. Fomos até a casa dela no dia seguinte. Foi uma surpresa encontrar uma estante cheia de livros incríveis que, sim, ela tinha lido: Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Hemingway… Um gosto musical invejável e, ainda por cima, era artista plástica. Conversamos e bebemos tanto que só na hora de dormir é que nos beijamos.

Viramos melhores amigas, passamos dias e dias inteiros na casa dela. Algumas bebedeiras e muitos baseados depois, ficamos nós e a amiga dela, ah, foram dias maravilhosos, era tudo tão divertido, sem maldade, gostoso. Depois a amizade prevaleceu.

Minha cisma com o Tinder acabou. Percebi que minha cabeça é que era fechadinha. Minha nova cidade tem mulheres incríveis. Espelhamos-nos, crescemos, amamos, nos divertimos. Bebemos com algumas meninas que viraram só amigas mesmo, ou conhecidas, ou nada. Ficamos com mais algumas que algum tempo depois sumiram, como acontece com todo mundo… Eis, então, que nos apaixonamos.

Ela nem apareceu no nosso aplicativo. Estava a passeio na cidade, nos mandou uma mensagem pelo WhatsApp, que deixamos na descrição do Tinder, dizendo que tinha nos achado muito legais e queria se divertir – tinha ido visitar a avó. Ela é atriz, dançarina, ativista, marxista, linda. Encontrou-nos no Centro, fumamos um baseado no parque. Eu queria ir a uma palestra sobre cosmopolítica e, depois de algumas zoações comigo, para a minha surpresa, ela aceitou ir. Saiu na metade, compreensivelmente. Um dos palestrantes falava incrivelmente baixo, e a rua fazia um barulho incrivelmente alto no auditório. Mas ela não esqueceu uma fala e fez até uma colagem dela depois, a transcrição de um índio perguntando sobre nossa sociedade a um não-índio: “Mas o que eles comem?” “Tudo”.

Nós a encontramos à noite. Era uma sexta-feira. Íamos sair, mostrar a noite de Curitiba, mas acabamos ficando em casa. Bebemos, fumamos, gargalhamos, transamos. Nossa, como ela é linda e geme lindo e goza lindo e ejacula lindo, sim, ela ejacula!, molha tudo, uma loucura. Ia embora no domingo e meu parceiro trabalhava no sábado à noite. Saímos para beber antes do expediente dele, o acompanhamos até o lugar, cambaleando. O lugar fica relativamente vazio à noite, entramos, bebemos mais um pouco, conversamos um monte, até o fatídico assunto da noite anterior aparecer e ficarmos nos olhando, querendo desaparecer dali pra um quarto. Ele desceu para trabalhar, ficamos no terraço, nos beijamos. Ele subiu, deu de cara com aquilo, não aguentou, nos beijamos. Precisávamos dar um jeito.

Fomos à dispensa. O lugar era apertadíssimo, cheio de caixas de bebidas, ingredientes, frutas, geladeiras, prateleiras. Ficávamos nas posições mais impensáveis. Além de linda, ela gemia alto, o lugar ficava vazio, mas nem tanto, só que tava tão bom, que era quase impossível não fazer barulho. Ela gozava incansavelmente com a mão do meu amor; confesso que fiquei um tanto enciumada, me sentindo meio de escanteio. Até que todas as atenções se viraram pra mim e, então, tinham mãos e bocas pelo meu corpo inteiro. Nossas roupas e o chão… Tudo estava encharcado dela.

A campainha tocou, uma amiga nossa, sob efeito de ácido, com alguns amigos, parou lá para beber água. Ficamos lá, peladas, na dispensa, quietas, segurando o riso, até ele voltar. Agarramos-nos mais um tanto, ela incansável. Tivemos que sair antes que alguém realmente aparecesse por ali. Ela se foi… Mas, coincidentemente, duas semanas depois passaríamos uns dias na cidade que ela mora. No último dia de nossa viagem, já andávamos, os três, de mãos dadas pelas ruas, trocando beijinhos, planejando o próximo encontro. Até hoje tenho uns lapsos de memória dela, de saia longa e biquíni vermelho, tocando maracatu, saindo da formação para me dar um beijo.

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