Das dedicatórias encontradas nos livros

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Quando tudo acaba, o cheiro fica. O cheiro que vem do mar, da música, da roupa caída no canto da sala. Memória tingida de rubro em espirais de fôlegos soltos, em palavras breves encolhidas no silêncio, nas linhas marcadas das mãos, na matemática abstrata das horas.
Tempo esvaído na pele, suave como o vento que sopra, como o céu que ignora. Preciso dos segundos cravados nas suas esquinas, do medo de dizer qualquer coisa que faça parar de ser o que sempre deveria existir.

Pense em algo que você consiga ver o final, você me diz. Não como futuro, porque sei que você não acredita, mas como uma fórmula, uma estrutura, quase uma hipótese. Não creio em hipóteses, respondo. Apenas no que vejo e o que possa ser palpável, concreto, visível. Como o chão de tacos e o cinzeiro cheio. E a cortina da janela que dança ao redor da cadeira bordada onde sempre me sento para ler à noite.

Meu teorema não permite o planejamento, por isso me surpreendo sempre com o improvável, com o inesperado, com a dedicatória escrita– para alguém que nunca saberei quem é –no livro achado no sebo. Estas palavras escritas com amor são o concreto e o palpável. Nada poderia ser mais real que isso. E é nisso que acredito, concorde você ou não. São naquelas linhas, nos livros perdidos, doados, esquecidos, que estão aquilo que buscamos uma vida toda, aquilo que um dia pensamos como algo que conseguimos ver o final, como você diz.
Quando tudo acaba, o cheiro fica– você devolve. E isso é uma espécie de futuro.

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