Há vida eterna na arte

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Artista plástico Ruben Esmanhotto morreu no mês passado em acidente de moto

 

Veículo de duas rodas foi feito para cair, alguns dizem. Talvez. Cair talvez, não ser estraçalhada como foi a moto de Ruben Esmanhotto.
Todo mundo tem um amigo ou conhece um amigo de um amigo que tem moto e todo mundo tem um amigo ou conhece um amigo de um amigo que já caiu da moto. Alguns também dizem que “quem tem moto é questão de tempo para cair, não é ‘se’ cair, é ‘quando’”.
Tudo bem.

A grande probabilidade em cair de uma moto está na junção de fatores: um, ela é um veículo altamente exposto aos riscos; dois, o trânsito é mais selvagem que uma selva; três (que vai ao encontro ao dois), a ignorância insiste em reinar.
E para provar que isso tudo não é um achismo qualquer, o Mapa da Violência de 2013 – Acidentes de Trânsito e Motocicleta (pois o de 2014 ainda não saiu) auxilia na afirmação dos três tristes fatores. Para começar: em 31 anos (1980-2011), 980.838 pessoas morreram em acidentes nas vias públicas. Dizer que motociclistas estão mais expostos aos riscos também não é nenhuma bobagem, os números dizem que em 1996, 1.421 deles morreram. Em 2011 esse número cresceu para 14.666. Se os números absolutos não assustam, pense em porcentagem, um aumento de 932,1%. Isso mostra que a ignorância insiste em reinar.

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Ruben Esmanhotto. Foto: Reprodução/site got-blogger.com

Os motociclistas representam um terço na morte no trânsito e a tendência é aumentar.Alguns números do Mapa da Violência vão até 2011, porém já é o suficiente para perceber que alguma coisa deve ser feita, pois no mesmo ano foram mais de 40 motociclistas a menos nas ruas brasileiras por dia. Por dia.
Não há diferença entre quem morre, todos deixam do lado de cá pessoas a sofrer, todos passam de pessoas com uma vida a estatísticas do Mapa da Violência e muitos poderiam estar por aí se não fosse a imprudência de outros.

O discurso até agora, com todos esses números assustadores, soa um bocado Alborghettiano ou Datenista. Entretanto, não há sensacionalismo algum, muito menos interesse em vender notícia. Agora lastimamos a morte de uma pessoa que fez muito pela cidade e que lamentavelmente entrará nas estatísticas como todos os outros.

No mês passado Ruben Esmanhotto, artista plástico, morreu num acidente. De moto. Um ônibus da linha Rua XV/ Paulo Gorski que vinha pela Rua Emiliano Perneta passou no sinal vermelho. Esmanhotto pela Rua Brigadeiro Franco não teve chance. É fato que quem teve a culpa foi o motorista – furou o semáforo. Imagens divulgadas pela Polícia Civil provam. No momento do acidente a vida do motorista também ficou em risco, pois passageiros viram que houve a quebra da lei e se revoltaram.

Ruben Esmanhotto era artista plástico de Curitiba, nasceu em 1954. Entre 1966 e 1969, frequentou a Escola Livre de Artes do Colégio Estadual do Paraná. Teve que seguir carreira na engenharia, mas o gosto pelas artes falou mais alto e nem a faculdade terminou. Com cerca de três mil obras produzidas, fez com que as pessoas divergissem sobre sua arte, mas que todas as destacassem. Em 1979, Adalice Araujo disse no texto A poesia secreta de Curitiba que é “um documentário iconográfico da arquitetura tipicamente curitibana — cujas variantes mais comuns vão do estilo eclético dos imigrantes ao kitsch das décadas de 30 e 40, ou a um modernismo muito particular tipo Bauhaus de Dessau — para descer às raízes mais profundas do clima psicológico que a gerou e a povoa”.

Em contrapartida, Walter Guerreiro, no texto Cenários Possíveis, afirmou que “não se pretenda ver nela uma obra documental, iconográfica ou simples registro de uma cidade ou tempo vivido; suas casas, ruas, praças, têm valor simbólico como cenários de um tempo que não tem passado ou futuro. É o registro de uma possibilidade do tempo, fragmento de possíveis eventos sucessivos no tempo”.

Para o artista, o que mais chamava sua atenção para pintar um quadro era a luz, fato que o fez se mudar para Cabo Frio, pois dizia ser a cidade mais iluminada do país.
Ele se destacou a pintar cenários. Retratou casarões curitibanos em suas telas e não sabia dizer muito bem o porquê desse apreço por eles, dizia que gostava do jeito que a luz refletia neles. Destaca-se também em sua obra a natureza morta, sobre isso Antonio Cava disse que “Os cenários são as obras de Rubinho mais fáceis de a gente gostar, mas a natureza-morta dele também é apaixonante. Ali não é uma simples natureza-morta. É uma combinação de cores e de sombras que traz algo especial”.

Ruben Esmanhotto foi mais uma vítima da ignorância e selvageria. O trânsito vitimou um dos mais importantes artistas plásticos do Paraná, que tinha recém-completado 40 anos de carreira e lançado o livro O Momento Suspenso no final do ano passado para comemorar o aniversário.

Ao longo de sua vida foram mais de 40 exposições, incluindo internacionais, como França e Japão. E agora para 2015 ele preparava uma mostra individual no Memorial de Curitiba, a família afirmou que manterá. Agora com sua arte, Esmanhotto perpetua-se na cidade, dos seus cenários à sua natureza-morta. Ele vai, mas ele fica.

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Foto: Reprodução/site paranaimprensa.com.br

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