Horror revisitado

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Nada do que é humano me é estranho, escreveu Terêncio. O episódio de Paris, quando dois homens invadiram a sede da publicação Charlie Hebdo e mataram doze pessoas e feriram outras vinte, me deixou abalado e mais uma vez fui invadido pela sensação de que não há esperança para a espécie.

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Foto: Préfecture de police

Entre os mortos, cartunistas que eu amava, Cabu e Georges Wolinski. Os terroristas gritavam “Alá é grande”. Revidavam à publicação de charges do profeta Maomé, em 2011. Foi também um atentado contra a liberdade de expressão. Fanáticos de qualquer catadura não aceitam outra verdade que não seja a sua. Na época, a ira de alas muçulmanas radicais lançou um atentado a bomba contra a publicação.

Bem, creio que depois de tanta barbárie ninguém mais, com exceção dos cínicos e dos idiotas, se dá ao prazer ingênuo de acreditar na simpática teoria de Francis Fukuyama do “fim da história”. Se a História chegou ao fim, como ainda pregam alguns cérebros avariados, o fanatismo islamita mostrou-se disposto a iniciar um novo capítulo. A verdade é que é preciso pensar um pouco mais esse fenômeno contemporâneo da emergência do terror sempre que se rompe a costura entre dois tecidos culturais diferentes, embora às vezes tão próximos.

Os terroristas islâmicos atiram em homens, mulheres e crianças, incendeiam aldeias, destroem tudo o que podem. São capazes de invadir escolas onde meninas estudam, porque em sua concepção mulheres não devem ter acesso à educação e devem se nutrir apenas da interpretação particular que fazem do Corão. Eles matam seus inimigos, os degolam e mostram seu ato pela internet e pela tevê. Querem nos dizer que todos os que não comungam suas ideias correm o mesmo risco.

Fiquei pasmo ao perceber que há pessoas consideradas esclarecidas e cultas que tendem a apreciar esses eventos pelos seus aspectos geográficos, estratégicos, militares ou ideológicos, em termos, enfim, de poder. A verdade é que não consideram os efeitos desses sobressaltos na vida das pessoas comuns. E, no entanto, me ponho a pensar, é provável que essa seja a única coisa que realmente importa.

Talvez se possa caracterizar o nosso tempo como aquele em que o mundo civilizado (aquilo que Orwell chamava de civilização liberal-cristã) é forçado a destampar, absorver e eliminar depressa quantidades consideráveis das imensas reservas de horror do planeta. O que separa o Ocidente, de raiz cristã, do islamismo radical são duas concepções de liberdade. No Ocidente, depois de guerras sangrentas entre os vários poderes espirituais (e entre estes e o poder temporal), a liberdade tornou-se mais que um valor secular relevante. Ela é uma condição teológica fundamental: sem liberdade, as criaturas seriam escravas da vontade do criador. No Islã extremista, ainda não houve essa ‘Reforma’, o ‘Iluminismo’: a blasfêmia é uma heresia – e o lugar dos hereges sempre foi no suplício das chamas.

Assim, dependemos da capacidade do Islã em ‘reformar-se’ para sair da sua Idade Média. E se o Islã ainda não passou por seu Iluminismo, é de se perguntar até que ponto isso tem ligação com a própria religião e seu livro sagrado, uma vez que o Corão, ao contrário da Bíblia, não é um livro de revelações que permitem a reflexão e a interpretação. É um código de leis, de valores morais, de comportamento sexual, que deve ser seguido em qualquer condição como único e verdadeiro. A Bíblia foi escrita por homens em várias épocas. O Corão, segundo o islamismo, foi escrito pelo próprio Deus através de um profeta.

Entretempo, é preciso a todo custo evitar a solução adotada pelos êmulos tão numerosos da barbárie. Não há como conviver com os que têm a necessidade mórbida de aproximar-se da abjeção e do terror, penetrá-los e mergulhar neles, para exorcizar o seu próprio demônio. Para o terrorista, qualquer que seja seu credo, o horror é o cotidiano, a rotina, sua vida e sua cultura. É a promessa e a tentativa permanente de destruir a esperança de um mundo melhor. Haja estômago.

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