Maniqueu cego

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O terrorista é um maniqueu cego. A estupidez é o seu guia. Bombas, tocaias, sequestros, assassinatos turvaram as minhas esperanças neste início de ano. Com as cenas de terror em Paris e na Nigéria, veio-me a sensação de impotência. A certeza de que fracassamos.
Nós, os de minha geração, cheios de ingênuo voluntarismo, pretendíamos mudar o mundo para purgá-lo dos demônios da miséria humana. Acreditávamos que a esta altura estaríamos livres da intolerância e de fundamentalismos. Examino a trajetória da espécie e vejo que não avançamos um milímetro. Ao contrário, recuamos sobre nossos próprios passos de volta às cavernas.

Impossível negar que houve avanços fantásticos na ciência e na tecnologia. No Ocidente, a tolerância cresceu. Não só sobre as ideias e opiniões, mas diante dos costumes e escolhas. Só que a esses ganhos materiais e das relações sociais não correspondeu uma sabedoria mais elevada nem uma cultura mais profunda.

O panorama espiritual é desolador. Vulgaridade, frivolidade, renascimento das superstições, degradação do erotismo, o prazer a serviço do comércio e a liberdade convertida na alcagueta dos meios de comunicação. O terrorismo não é uma crítica dessa situação. É um de seus sintomas, dizia Octavio Paz. E se no Ocidente houve avanços, o Islã extremista vive ainda a sua Idade Média, ainda não realizou a sua “Reforma”, o seu “Iluminismo”: a blasfêmia é uma heresia – e o lugar dos hereges sempre foi no suplício das chamas.

O terrorismo é a expressão mais aguda da negação do diálogo; é a recusa terminante de entender-se com a outra parte, ouvir suas razões, negociar um acordo. A essência do terrorismo é a mesma do totalitarismo; ele pretende a destruição moral (e física) dos seus oponentes e o acoelhamento de todos, a sua rendição pelo medo.

Vivemos na encruzilhada da história e só nos resta esperar que os radicais islâmicos se enfraqueçam diante dos adeptos do entendimento e de soluções pacíficas para impasses como o que paira entre palestinos e israelenses. Impossível satisfazer as aspirações contraditórias e excludentes, mas ao mesmo tempo legítimas das duas comunidades. Por desgraça, não temos um Salomão nesta época. Nem mesmo um Saladino. Homens que preferiam o entendimento ao terror.

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