Miss também é cultura

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Dentre minhas ações como jornalista, acabei sendo, por estar na rede dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, coordenador de concurso de miss, tarefa em que me dediquei menos do que o teatrólogo Edy Franciosi, que como cronista mundano era mais ajustado ao metier, e o Danilo Dávila. Como Curitiba era meio vitoriana, as mamães se mostravam embasbacadas quando se fazia a ficha da candidata e lá dizia ‘‘coxas’’, ‘‘busto’’. Obviamente já aparecia o primeiro bloqueio ao maiô, coisa que foi difícil de implantar na praça, embora fosse impositivo em função dos produtos Catalina, que promoviam o concurso, e não tinham o arrojo e ousadia dos biquínis de agora.

Um dos integrantes do júri era Guido Viaro, naquele tempo (e de certa forma ainda) a maior expressão das artes visuais entre nós. Era uma doçura ouvir o Viaro dando aulas sobre antropometria clássica, inclusive viajando pela Vênus de Milo à Calipígia. Lá no meio da mesa desenhava as proporções femininas, suas aproximações e também distanciamentos e fazia isso com empenho professoral, mas aberto, divertido nas comparações com atrizes internacionais.

O item cultural invariavelmente revelava a vinculação das candidatas ao ‘‘Pequeno Príncipe’’ de Antoine de Saint-Exupéry, obra recentemente figurando entre as mais vendidas do Brasil. Houve, no entanto, um momento de aturdimento quando a miss Paraná, Ângela Vasconcellos, que figuraria entre as primeiras, citou, além da obra lírica, uma de impacto sonambulista de Franz Kafka ‘‘A Metamorfose’’, a saga de Gregório Samsa que se vê, de repente, se transformar em barata, numa sequência de horror e espanto, sobretudo da vigília entre o despertar e a busca da lucidez, isolamento e abandono.

Para Ângela, o sonho de uma obra e o pesadelo da outra agiam da mesma forma sobre a sua sensibilidade incomum que desenvolveria, na Universidade, cursando arquitetura. Um corte epistemológico nas anotações do repórter, também alvo de metamorfose ao assumir o papel de um quase especialista no que há de mais afirmativo da condição humana na interação de beleza e inteligência, vertida em prosaicos maiôs que desfilam na passarela.

Das curiosidades de concursos e variedades conceituais sobre o corpo feminino tivemos uma incrível: numa promoção Miss Cinelândia, que a Tribuna do Paraná realizava, a curitibana Vilma Sozzi, delicada e mignon, que também foi Miss Paraná, ganhou da portentosa Adalgisa Colombo, que pouco depois se consagraria Miss Brasil. Em cada cabeça de jurado uma sentença: só a que partia de Guido Viaro tinha conotações que viajavam entre a estatuária do passado clássico, com seus modelos mais ou menos rígidos, e os da flexibilidade contemporânea, algo enfim com semântica mais rica entre as quais as que vinham dos figurativos greco-romanos às transfiguradas pelo cubismo de Picasso, aos transbordamentos oníricos de Salvador Dalí ou à dramaticidade discursiva dos nossos Portinari e Di Cavalcanti, um porre plástico, enfim. Elas pairavam lá em meio às lindas mulheres das quatro estações de Boticelli às frenchcancan, esticando as pernas à beira do palco, de Toulouse Lautrec, o ar impregnado de boemia, nunca as virgens de procissão do próprio Viaro ou do seu discípulo Luis Andrade Lima com os cabelos com lavanda de água benta.

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Pintura de Toulouse Lautrec. Imagem: Divulgação

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