O passado que insiste

Acho que ele esqueceu de voltar. Só isso. Saiu, deu dois passos e seguiu a caminhada. Olhou para o horizonte, amplo e tentador, e deixou do presente como se já fosse passado.
No começo, o silêncio. Duro, profundo, onipresente. A cada estalido da madeira da estante da sala, corria para janela a procurar seus passos no quintal. A campainha do telefone nunca tocou mais de uma vez, eu estava sempre alerta a esperar por notícias. Tinha pressentimentos enganadores sobre os dias, vestia a melhor roupa, arrumava o cabelo e forçava o pensamento para trazê-lo a mim. Em cada virada de esquina, a esperança do reencontro.

A frustração virou íntima. Convidada permanente.
Depois, uma certeza de que ele não voltaria mais. Quando a esperança cedeu espaço às evidências, desmoronei. Sem ponta de perspectiva só me restou o sofrimento. A variação de antes, acreditar e me decepcionar, virou linha contínua da afirmação do não.
Definhei. Morri em mim mesma, virei minha própria sombra. Percorri os anos, os caminhos, os encontros vertendo amargura. Não encontrei, não soube procurar, motivos para ser mais generosa comigo e me permitir cores, amores, qualquer coisa que fizesse sentido e mudasse minha existência. Não deixei que nada ultrapassasse a couraça que meio que inventei meio que ganhei meio que cultivei. Todos, tudo, numa distância segura, sem estar no risco da comuta, do encontro ou do duelo.
Ganhei o mundo, acumulei fortuna, fiz tratado com o poder. A vida para o trabalho. Mais nada.

Foi numa manhã de quarta-feira que me olhei no espelho e defini, entre muitas rugas e pouco brilho, que estava na hora de encher o pulmão de ar.
Não consegui. Os anos me ensinaram o que os dias não sabiam: minha vida passou sem eu ter construído por dentro o que tinha de sobra por fora.
Pela causa do amor perdido, perdi todo o resto. Meu futuro ficou no passado.

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