Outros carnavais

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Psycho Carnival, em Curitiba (PR). Foto: Reprodução/site decolar.com

Grécia, uns 3 mil anos atrás

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Dionísio. Imagem: Divulgação

Mulheres se rebelavam de seus maridos, pais e irmãos, junto com a liberdade, limitada por três dias, subiam à tona as vontades e ações mais resguardadas. Saíam pelas ruas com os rostos pintados e com as roupas modificadas a cantar e gritar. Os homens, fantasiados de silenos e sátiros, reuniam-se à tropa e em pouco tempo tudo virava uma exaltação dionísica. Sátiras do povo contra os governantes, verdades sendo cantadas em tom de brincadeira, homens vestidos de mulher, prostitutas de donzelas e assim por diante. Dionísio provocava e o povo respondia.
O final da festa era pontuado por uma bebedeira coletiva que levava a práticas sexuais sem nenhum tipo de freio. Na Grécia Antiga, nos dias de saudar Dionísio, valia tudo.

Babilônia, mais ou menos 1900 a.C.

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Marduk. Imagem: Divulgação

Antes de ser chicoteado, enforcado ou, pior, empalado, o prisioneiro vivia seus dias de ilusão e glória; vestia-se de rei. E com as vestes, inúmeras possibilidades do papel vinham no combo: cama e mesa. Durante alguns dias, o dito cujo vivia o posto de soberano, alimentava-se das comidas reais e dormia com as esposas do chefe. O final era triste, muito mais que uma quarta-feira de cinzas, mas quem estivesse naquela circunstância pelo menos se esbaldava nos dias de fantasia. A esses períodos era dado o nome de Saceias.
Se o prisioneiro vivia momentos de rei, era justo que o inverso também acontecesse.

Alguns dias antes do equinócio de primavera, o rei perdia toda e qualquer conotação de sua posição, eram-lhe retirados emblemas, vestes e traços que o diferenciavam hierarquicamente do povo. Sem a parafernália real, era levado até o templo de Marduk e surrado. Isso, surrado. Vida de rei da Babilônia não era fácil, a humilhação acontecia para manter o caráter de submissão ao deus Marduk. A estátua observava tudo calada, olhos no infinito, proteção à Mesopotâmia e silêncio milenar.

A essas duas trocas de papel, a esses momentos em que prisioneiro virava rei e rei era gente do povo, os historiadores apontam como a pedra inaugural daquilo que conhecemos hoje como fantasias de carnaval. Assumir personagens hoje em dia é tarefa bem mais fácil do que naqueles tempos, mas parece que devemos aos antigos sacrifícios as possibilidades de rei, pirata, melindrosa ou qualquer outra personalidade temporária do mês de fevereiro.

Roma, um pouco depois do século VIII a.C.

Saturno, gravura do século XVI de Polidoro da Caravaggio. Imagem: Divulgação

Saturno, gravura do século XVI de Polidoro da Caravaggio. Imagem: Divulgação

Grandes banquetes, sacrifícios, doações, inversão de papéis sociais, nenhuma atividade pública ou privada, dias e dias de festa; tudo para saudar o deus Saturno. O festival de comidas, bebidas e danças acontecia no solstício de inverno, semana entre 17 e 25 de dezembro. O período foi nomeado de Saturnália.

Na metade de fevereiro, com o objetivo de dar algum crédito às divindades infernais e ao mesmo tempo estar em dia com as purificações necessárias ao espírito, os romanos promoviam a Lupercália. A festa tinha muito de teatral e de interatividade, um ritual que envolvia sacrifício de animais e personagens que simbolizavam os nobres da cidade, os impuros, os inférteis e até as prostitutas. 15 de fevereiro era o dia eleito para espantar os maus espíritos, expurgar a cidade e trazer saúde e fertilidade aos seus habitantes. Comemoração de vida e morte.

As duas festas romanas tinham em comum sentidos licenciosos, sem levar em conta a decência ou a ordem hierárquica, eram momentos em que papéis eram vividos livremente.

O papel da Igreja Católica

Imagem: Quadro de Pieter Brueghel o Velho

Imagem: Quadro de Pieter Brueghel o Velho

A vida seguia muito bem com festas, fantasias, bebedeiras. A liberdade correndo solta e os papéis sendo trocados em dias determinados. Depois de Cristo, a inversão de personagens não pegava bem, porque também poderia haver aí uma permuta entre as figuras de deus e do demônio. A Igreja não queria isso. Mas também não tinha forças para segurar o povo. E no velho ditado, se não pode com o inimigo, junte-se a ele, resolveu trazer para o seu calendário aqueles dias de comemorações.

No século VIII foi instituída a quaresma e com ela os limites para o festerê. A Igreja resolveu dar um dia de lambuja para os fiéis se acabarem em seus excessos para em seguida se entregarem a um período de severidade religiosa.

Idade Média

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Foto: Divulgação

Lá pelo século XI, durante o momento fértil da agricultura, os homens jovens vestiam roupas de mulheres e saíam em festas noturnas pelas ruas. A farra se dava em entrar em casas alheias, que sempre estavam de portas abertas para tais atos, comer, beber e aproveitar beijos das donzelas.

Era uma comemoração com excessos, mas com um Dionísio um pouco mais domesticado.
Também naquele momento havia trocas de papéis na sociedade, vulgarmente se elegia um Bispo ou um Papa dos Loucos, fazendo referência irônica à Igreja, que tinha a autoridade máxima das festas. Este dominus festi regia e imperava em todos os lugares, porque Carnaval na Idade Média não era só espetáculo de assistir, era coisa de viver, todo mundo, gostando ou não, era folião.

Sabe aqueles bobos e bufões que até hoje são representados por aí? Pois bem, são sobreviventes medievais. Talvez sejam eles os únicos que não trocavam de lugar durante os dias carnavalescos, porque aquele estado de equilíbrio entre a realidade e a fantasia era o modus operandi daquelas figuras.
Quem olha de longe, pode até achar que não, mas a Idade Média era uma festa...

Renascimento

Imagem: Quadro de Johannes Lingelbach (1622-1674)

Imagem: Quadro de Johannes Lingelbach (1622-1674)

Na época da commedia dell’arte havia teatros extemporâneos que eram ocupados com diversas representações a respeito da vida cotidiana e de algumas divindades. A Itália comandava um espetáculo variado com características para cada lugar: em Florença músicas eram compostas com exclusividade para fazer trilha ao desfile que tinha carros decorados; em Roma as pessoas festejavam usando uma capa com capuz que escondia ombros e cabeça; em Veneza foliões tinham chapéus de três pontas e uma máscara branca.

De Portugal para o Brasil

Foto: Reprodução/site static.natgeofoto.nl

Foto: Reprodução/site static.natgeofoto.nl

O que é hoje reconhecida como a maior festa popular do globo, chegou aqui com nossos colonizadores. O entrudo português, ora pois, desembarcou no berço onde deveria ter nascido no século XVII. Na data marcada, um pouquinho antes da quaresma, rolava uma brincadeira, um tanto bruta, um tanto engraçada, pelas ruas: um folião atirava no outro uma mistura gosmenta que poderia ter de tudo um pouco, água, farinha, vinho, pó de cal, vinagre e o que tivesse à mão. Era o efeito surpresa que fazia a graça e a farra do evento.

Com o passar do tempo, a festa foi se desenvolvendo e ganhando requintes europeus, pierrôs e colombinas, reis momos, máscaras. Até que o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes apresentou uma nova modalidade para a brincadeira: foliões a desfilar pelas ruas tocando zabumbas e tambores. É a parte que ficou conhecida como Zé Pereira e que até hoje tem grande tradição em Ouro Preto e em Teresina e que desde 1869 entoa a quadrinha “E viva o Zé Pereira / Pois a ninguém faz mal / E viva a bebedeira / Nos dias de Carnaval”.

O Brasil, do século XIX para cá

Os primeiros blocos, cordões e corsos apareceram no final do século XIX. Havia desfile de gente fantasiada e de carro enfeitado pelas ruas. Havia também batalhas de confetes, de serpentinas e alguns anos depois, lança-perfume.
Em 1899 Chiquinha Gonzaga compôs a marcha-rancho “Ô Abre Alas”, dedicou-a ao cordão Rosa de Ouro e inaugurou um novo gênero, a produção carnavalesca.

Escola de Samba Deixa Falar. Foto: Divulgação

Escola de Samba Deixa Falar. Foto: Divulgação

Entre os anos de 1920 e 1930, os cordões se desenvolveram ao ponto de chegarem a escolas de samba. Após a primeira, a Deixa Falar, muitas outras foram se formando e espalhando a competitividade entre as comunidades. Em 1932 aconteceu o primeiro concurso entre elas, Estação Primeira de Mangueira levou o título.

As marchinhas de carnaval chegaram no início do século passado. Fórmula razoavelmente corredia, com compasso binário, melodias simples e letras fáceis que apelavam ao humor, ironia e duplo sentido. Figuraram soberanas durante as décadas de 20, 30 e 40. A ascensão do rádio promoveu a popularidade e os nomes de muitos autores e intérpretes se firmaram por conta do gênero.

Com o crescimento dos desfiles das escolas de samba e a chegada da televisão, o carnaval foi se tornando mais visual e menos musical, o que fez a balança pender para o lado dos sambas-enredo.

Correndo em paralelo a tudo isso, mas sofrendo todas as influências, os salões chiques da elite também entraram na dança. Lugares grã-finos, em que a plebe não entra pela porta da frente, trataram de também fazer a própria versão. Os bailes de máscaras se transformaram numa variante requintada da festa e, ironicamente, também serviram de modelo para interpretações em sociedades menos abastadas.

A festa se espalhou por todo o território nacional mais Curitiba, sem exceção. Cada ponto do país tem características próprias. Olinda, por exemplo, brinca na rua ao som do frevo e do maracatu, faz de bonecos gigantes caricaturas de personagens de alguma importância para a vida nacional. Salvador arrasta turba sem fim atrás de seus trios elétricos. O Rio, além dos luxuosos desfiles, tem os blocos de rua, que fazem mais de 2 milhões de pessoas esquecerem da vida e saracotearem no asfalto. Em Curitiba, terra de vampiro, há o Psycho Carnival, variação que tem o rock como ponto de partida e sabe-se lá o que como linha de chegada.

Da Grécia antiga até os dias de hoje, há de tudo um pouco, uma festa que foi se somando, como naquela brincadeira da centopeia, entra ponto novo, o que não significa que outro tenha que dar lugar. Atualmente, das orgias promovidas por Dionísio à troca de papéis da Babilônia, vale tudo.

Psycho Carnival, em Curitiba (PR). Foto: Reprodução/site decolar.com

Psycho Carnival, em Curitiba (PR). Foto: Reprodução/site decolar.com

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