Rubras taças de verão

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Um branco geladinho na taça seria a pedida única nestes dias ensolarados de verão não fosse o mundo do vinho tão avesso a unanimidades. Etéreos e refrescantes, os brancos fazem a grande parceria com o clima e as comidas da estação. Acontece, porém, que há tintos que fogem ao clichê do vinho pesadão e tânico. Mais leves, menos alcoólicos, passeiam faceiros entre bermudas e chinelões.

É o caso dos vinhos de Beaujolais, região situada no sul da Borgonha. Usam só a uva Gamay, destinando parte da safra ao Beaujolais Nouveau, o único tinto francês consumido no mesmo ano em que é produzido. A colheita vai até setembro e em novembro ele está pronto, precocidade que se explica pelo método de elaboração usado, o da maceração carbônica.

A princípio bebido apenas na região, para comemorar o fim da colheita, logo o Nouveau invadiu os bistrôs de Paris. De coloração rubi clarinha, é frutado, aromático, delicioso quando provado jovem, ligeiramente resfriado, em goles largos, sem maiores cuidados. A maceração carbônica descarta prensagem. Colocadas em tanques de inox fechados, as cascas das uvas das camadas inferiores se rompem pelo peso das que estão em cima e assim se dá a fermentação. É um vinho menos tânico, de pouca estrutura, para ser consumido logo, pois entra em declínio sete ou oito meses após a data da produção.

O Beaujolais, entretanto, vai além do Nouveau. Temos os feitos pelo método normal, que oferecem corpo e elegância, embora conservem os atributos da Gamay – a leveza, taninos e álcool em níveis moderados, uma acidez aguda.

Duas categorias se destacam. A Village abrange vinhedos de 39 comunas. Os vinhos não exibem o nome da comuna no rótulo, pois podem ser feitos com uvas de toda a região. São simples, acessíveis – vários realmente ótimos dependendo do talento e do capricho do produtor.

A classe superior é a dos chamados crus de Beaujolais, restrita a dez comunas. Nestas o vinho destaca no rótulo o nome do lugar onde é produzido. Os melhores provêm de Broully, St. Amour, Morgon, Chénas, Fleurie e Moulin-à-Vent. Tenho predileção pelo Morgon de Marcel Lapierre, um mestre, pioneiro nos vinhos orgânicos. Philippe Pacalet, hoje uma das estrelas da Borgonha, aprendeu muito do que sabe com ele. Lapierre morreu há poucos anos, mas os sucessores mantêm no alto a peteca. Os da safra 2010 estavam nos trinques, refinados, minerais, notas de cereja e especiarias. As colheitas 2011, 2012 e 2013 já estão disponíveis, via importadora World Wine.

Sobre Lapierre há uma passagem contada por Philipe Pacalet. Os dois estavam em Paris e decidiram jantar num desses três estrelas do Guia Michelin. Lapierre pediu um Morgon de sua autoria ao empertigado sommelier, recebendo como resposta a informação de que a casa não servia “vinhos das periferias da Borgonha”. Mesas viradas, pratos e copos quebrados e seguranças em cena foi o resumo da ópera.

Também é bom demais o Morgon de Louis Latour. Este vinhateiro consegue algo difícil, conciliar qualidade, produção em quantidade e preços razoáveis. Joseph Drouhin, com igual perfil, se destaca na denominação Moulin-à-Vent. Ambos importação da Mistral. Dominique Piron, nome importante em Morgon, faz um tinto marcado pelo caráter floral, de bom frescor, agradável de beber. Vem pela Decanter, importadora com sede em Blumenau.
Vinhos de Beaujolais estão entre os mais acessíveis da França, outro bom motivo para tê-los à mesa. Taças rubras também merecem um lugar ao sol.

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