Tijucão Cultural

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Eram quase 19 horas quando as luzes da Cândido Lopes se acenderam sob uma fina chuva.
Enquanto as pessoas caminhavam apressadas, protegendo-se nas marquises ou comprando os guarda-chuvas disponíveis nas mãos dos camelôs, eu aguardava o momento de apreciar a segunda edição de um dos mais interessantes eventos organizados por iniciativa conjunta dos artistas que ocupam muitas das salas nos mais de 20 andares no setor comercial do edifício Tijucas, o Tijucão Cultural. Três horas de portas abertas, com feiras de trocas, exposições, mostras, jamsessions, intervenções e exibições de filmes.

Manoel de Souza Neto, presidente do Musin – Museu Independente, conta que na época em que era conselheiro nacional de cultura, lembrando-se das conversas que teve em meados do século passado com amigos, resolveu fazer um levantamento de todas as salas que abrigavam artistas e prestadores de serviços culturais do edifício Tijucas, dono de um notável metacapital histórico, cultural e artístico, reconhecido oficialmente como o reduto dos alfaiates em Curitiba e de moradores célebres, como, por exemplo, o dentista Dr. José Carlos Mocelin, homenageado na segunda edição do evento, e que durante muitos anos, após as 18 horas, agraciava os passantes da região ao som de seu trompete.

Depois desse mapeamento inicial, uniu-se à Ana Rocha, curadora e criadora do Finnacena – escritório de arte, e juntos organizaram reuniões durante os anos de 2011 e 2012, onde foi muito importante as participações da Associação dos Povos Indígenas, do alfaiate Osvaldo Zanella, Helio de Jesus, professor do Ateliê de Arte, e do designer, ilustrador, roteirista e escritor Fabiano Vianna, entre outros, no intuito de caracterizar o espaço do edifício como território de economia criativa, a nova cereja do bolo do MinC e das Secretarias Estaduais de Cultura, e que compreende um espaço onde um conjunto de atividades baseadas no conhecimento produzam bens tangíveis e intangíveis, intelectuais e artísticos, com conteúdo criativo e valor econômico, na definição da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), citado em relatório do Ministério da Cultura (MinC).
Em 2013 ocorreu a primeira edição do Tijucão Cultural, com a organização de Karla Keiko, artista interdisciplinar, idealizadora do coletivo SalveLab, e das artistas visuais Bruna Camargo e Carol Zibetti, produtoras da Con Limón, já com o reconhecimento como indústria criativa e cultural junto à Câmara dos Vereadores, de acordo com o pedido feito por Marcos Cordiolli, presidente da Fundação Cultural de Curitiba, e inscrito dentro da programação pirata da pré-Corrente Cultural.

Em 2014, na segunda edição do evento, também organizado por Karla Keiko, Bruna Camargo e Carol Zibetti, dobrou em número de salas envolvidas e triplicou o de visitantes.
Andar pelas salas da cobertura degustando as exposições ao som do vinil (!) A Tábua da Esmeralda do Jorge Ben, percebendo a crescente confraternização entre os presentes, descer o lance de escada rumo a cada andar inferior para aventurar-se pelo edifício, percorrendo seus corredores estreitos, sem o guia, em busca das salas que participavam do evento, tocar um ragtime com pessoas desconhecidas, escrever um texto qualquer em uma antiga máquina de escrever, assistir a curta-metragem projetado na parede na sala da Diadorim Filmes deixava clara a percepção de que estávamos participando de uma verdadeira zona autônoma temporária, como a concebe o teórico libertário Hakim Bey, ou seja, um espaço-tempo onde pessoas organizadas em um objetivo comum em autogestão, sem controle hierárquico, onde o público era coautor do evento.

O edifício Tijucas, com mais de 50 anos de história, faz parte de meu acervo pessoal, pois meu pai manteve um escritório de representação comercial logo que voltou ao Brasil e se estabeleceu em Curitiba, até seu falecimento em 1984, durante uma viagem de negócios.

Diariamente bebia um café e comia um pão com manteiga numa lanchonete chinesa ali mesmo, na Galeria, no mesmo lugar onde hoje está o excelente Kibe da Boca, e eu, que sou dos que nasci com pé plano, também conhecido por pé chato, lembro quando meus pais foram comprar um par de botas ortopédicas na loja do Doutor Scholl, que ainda permanece firme na Galeria Tijucas. Difícil que dentre os curitibanos, ou que aqui residam e frequentem o centro da cidade, alguém não tenha uma história no edifício Tijucas ou em sua Galeria como parte de sua trajetória pessoal. Talvez por isso sintamos uma ponta de orgulho ao saber que é o primeiro e único edifício no país, até agora, a ser reconhecido como território cultural. Que o Tijucão Cultural possa servir de exemplo a outros empreendedores culturais na cidade e no Brasil.

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Foto: Lina Faria

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Foto: Lina Faria

 

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Foto: Lina Faria

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Foto: Lina Faria

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Foto: Lina Faria

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Foto: Lina Faria

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Foto: Lina Faria

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Foto: Lina Faria

 

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Foto: Lina Faria

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